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Posts by rui tavares

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Os trolls da IL passam dias a chamar-nos comunistas; o PCP usa o jornal e o canal oficial para nos comparar à IL. Uns chamam comunismo à defesa do estado social. Outros confundem democracia liberal e capitalismo. Insano qd tanto estado social cm democracia liberal estão em risco.

2 days ago 46 9 1 3
O Diogo Ramada Curto foi um dos primeiros e mais brilhantes historiadores da geração pós-democratização, formado na Universidade Nova de Lisboa onde se tinham juntado, vindos do exílio ou da ostracização pela ditadura, alguns dos melhores historiadores portugueses, entre os quais Vitorino Magalhães Godinho, que foi sua grande referência. Saiu dessa escola como um dos alunos não só mais notáveis, mas também mais notado: idiossincrático, temperamento vincado, ideias muito próprias e nenhum medo de ir à luta por elas. Isso fazia dele um académico aguerrido e um intelectual público por vezes temível. Doze anos mais novo, cheguei à mesma Faculdade quando ele já era professor (na altura, no Departamento de Sociologia) e tinha uma reputação paradoxal: a segurança com que expunha as suas ideias fazia-o ser receado mas a franqueza no trato atraía. Na verdade, era enganosa a perceção de distância que muitos tínhamos no início. No contacto pessoal era aberto à diferença (de opiniões, de idade, de estatuto) e dava a quem estivesse a conversar com ele o mesmo direito de ser direto que reivindicava para si.

O Diogo Ramada Curto foi um dos primeiros e mais brilhantes historiadores da geração pós-democratização, formado na Universidade Nova de Lisboa onde se tinham juntado, vindos do exílio ou da ostracização pela ditadura, alguns dos melhores historiadores portugueses, entre os quais Vitorino Magalhães Godinho, que foi sua grande referência. Saiu dessa escola como um dos alunos não só mais notáveis, mas também mais notado: idiossincrático, temperamento vincado, ideias muito próprias e nenhum medo de ir à luta por elas. Isso fazia dele um académico aguerrido e um intelectual público por vezes temível. Doze anos mais novo, cheguei à mesma Faculdade quando ele já era professor (na altura, no Departamento de Sociologia) e tinha uma reputação paradoxal: a segurança com que expunha as suas ideias fazia-o ser receado mas a franqueza no trato atraía. Na verdade, era enganosa a perceção de distância que muitos tínhamos no início. No contacto pessoal era aberto à diferença (de opiniões, de idade, de estatuto) e dava a quem estivesse a conversar com ele o mesmo direito de ser direto que reivindicava para si.


Não há ninguém intelectualmente honesto — repito: não há ninguém intelectualmente honesto — que não reconheça a qualidade e amplitude da obra do Diogo Ramada Curto. Ela vai da teoria da história aos estudos de história política seiscentista, à história do livro e da leitura e, mais recentemente, às pesquisas sobre o colonialismo. Não é fácil para um historiador ganhar coragem para sair das áreas que conhece melhor e adquirir novos domínios de especialidade. O Diogo Ramada Curto fê-lo várias vezes, à custa de muito trabalho e leituras de que a presença permanente na Biblioteca Nacional era só a parte visível. Imagino que os que lhe eram mais próximos (em alguns casos, gente da minha geração, como a Filipa Vicente, mãe das duas filhas de ambos) tenham testemunhado que essas leituras continuavam depois muito para lá da hora de fecho da BN.

Não há ninguém intelectualmente honesto — repito: não há ninguém intelectualmente honesto — que não reconheça a qualidade e amplitude da obra do Diogo Ramada Curto. Ela vai da teoria da história aos estudos de história política seiscentista, à história do livro e da leitura e, mais recentemente, às pesquisas sobre o colonialismo. Não é fácil para um historiador ganhar coragem para sair das áreas que conhece melhor e adquirir novos domínios de especialidade. O Diogo Ramada Curto fê-lo várias vezes, à custa de muito trabalho e leituras de que a presença permanente na Biblioteca Nacional era só a parte visível. Imagino que os que lhe eram mais próximos (em alguns casos, gente da minha geração, como a Filipa Vicente, mãe das duas filhas de ambos) tenham testemunhado que essas leituras continuavam depois muito para lá da hora de fecho da BN.


O Diogo Ramada Curto não só leu muito, como deu muito a ler. Com Francisco Bethencourt, dirigiu coleções na editora Difel que publicaram autores como Carlo Ginzburg, Norbert Elias ou Clifford Geertz, e fez muito para que a geração seguinte tivesse leituras mais amplas, mais sólidas e mais internacionais do que era comum na academia portuguesa. Mais recentemente, voltou a fazê-lo com o Miguel Bandeira Jerónimo e o Nuno Domingos nas edições 70. Somos todos muito devedores do trabalho dele como editor, inevitavelmente menos lembrado por estes dias. Foi também um professor que se interessou pelos seus alunos e os encorajou (o texto da Inês Brazão sobre ele é exemplar), e que manteve relações construtivas com o espaço lusófono, do Brasil a Cabo Verde, e que foi requisitado para ensinar nas melhores universidades dos EUA ou em França. A última vez que o vi foi quando a Embaixada de França nos convidou para almoçar com Roger Chartier, nosso mestre comum. Ficámos para lá da hora numa mesa para cinco (estava o António Guerreiro também) e não custa a ninguém imaginar que o Diogo Ramada Curto fez a maior parte da conversa. O que custa é imaginar que alguém com aquela vivacidade, que já tinha dado tanto à história, ao ensino e à edição em Portugal, tenha sido perdido antes do tanto que ainda quereria dar.

O Diogo Ramada Curto não só leu muito, como deu muito a ler. Com Francisco Bethencourt, dirigiu coleções na editora Difel que publicaram autores como Carlo Ginzburg, Norbert Elias ou Clifford Geertz, e fez muito para que a geração seguinte tivesse leituras mais amplas, mais sólidas e mais internacionais do que era comum na academia portuguesa. Mais recentemente, voltou a fazê-lo com o Miguel Bandeira Jerónimo e o Nuno Domingos nas edições 70. Somos todos muito devedores do trabalho dele como editor, inevitavelmente menos lembrado por estes dias. Foi também um professor que se interessou pelos seus alunos e os encorajou (o texto da Inês Brazão sobre ele é exemplar), e que manteve relações construtivas com o espaço lusófono, do Brasil a Cabo Verde, e que foi requisitado para ensinar nas melhores universidades dos EUA ou em França. A última vez que o vi foi quando a Embaixada de França nos convidou para almoçar com Roger Chartier, nosso mestre comum. Ficámos para lá da hora numa mesa para cinco (estava o António Guerreiro também) e não custa a ninguém imaginar que o Diogo Ramada Curto fez a maior parte da conversa. O que custa é imaginar que alguém com aquela vivacidade, que já tinha dado tanto à história, ao ensino e à edição em Portugal, tenha sido perdido antes do tanto que ainda quereria dar.


A última etapa dessa vocação de trazer as obras do pensamento e da cultura ao maior número foi enquanto diretor da Biblioteca Nacional, que é parte do seu trajeto que acabei por conhecer menos. Mas dou-me agora conta que, a uma distância de várias décadas, esse destino faz lembrar o grupo de intelectuais que exerceu o seu ministério a partir da mesma instituição até serem perseguidos pela ditadura: Jaime Cortesão, Raul Proença, o grupo da Seara Nova. O seu avô, Amílcar Ramada Curto, deputado socialista da Primeira República, pertenceu ao entorno desse círculo; tal como Vitorino Henriques Godinho, pai do seu mestre Vitorino Magalhães Godinho. Creio que, como eles, o Diogo tinha essa quase ideia de sacerdócio em nome de uma elevação cultural do país: rigor académico, mas também a capacidade de fazer do debate intelectual uma coisa feita de vivacidade e combatividade.
A sua morte é um choque para toda a comunidade historiográfica. Não era esperada, e ocorreu numa altura em que ele ainda tinha certamente muito para dar. Saibamos honrar a sua memória e prolongar o seu legado.

A última etapa dessa vocação de trazer as obras do pensamento e da cultura ao maior número foi enquanto diretor da Biblioteca Nacional, que é parte do seu trajeto que acabei por conhecer menos. Mas dou-me agora conta que, a uma distância de várias décadas, esse destino faz lembrar o grupo de intelectuais que exerceu o seu ministério a partir da mesma instituição até serem perseguidos pela ditadura: Jaime Cortesão, Raul Proença, o grupo da Seara Nova. O seu avô, Amílcar Ramada Curto, deputado socialista da Primeira República, pertenceu ao entorno desse círculo; tal como Vitorino Henriques Godinho, pai do seu mestre Vitorino Magalhães Godinho. Creio que, como eles, o Diogo tinha essa quase ideia de sacerdócio em nome de uma elevação cultural do país: rigor académico, mas também a capacidade de fazer do debate intelectual uma coisa feita de vivacidade e combatividade. A sua morte é um choque para toda a comunidade historiográfica. Não era esperada, e ocorreu numa altura em que ele ainda tinha certamente muito para dar. Saibamos honrar a sua memória e prolongar o seu legado.

À notícia da morte do Diogo Ramada Curto reagi aqui, mas só hoje pude escrever mais. V. imagens, de que destaco, "não há ninguém intelectualmente honesto — repito: não há ninguém intelectualmente honesto — que não reconheça a qualidade e amplitude da obra do Diogo Ramada Curto."

1 week ago 10 1 2 0
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The United States of Anxiety As always, if you find value in this work I do, please consider helping me keep it sustainable by joining my weekly newsletter, � Sparky’s List! � You can get it in your inbox or read it on Patreon,

oh hey it’s a wacky new cartoon of no particular relevance to anything this morning www.dailykos.com/stories/2026...

1 week ago 583 149 38 0

Voltei à publicação da newsletter πολύτροπον com resumo da semana. Nos temas: Xenofonte e a Ciropédia (podcast), o sonho cosmopolita entre Trump e a Lua (Folha), 50 anos da Constituição, crise no TC e a Hungria. ruitavares.substack.com/p/e-mais-facil-governar-um-rebanho

1 week ago 7 0 0 0

Boa dica. Não conhecia. Mas acho que a partir de agora até vou publicar os threads aqui um bocado antes do Twitter.

1 week ago 11 0 0 1

Já podes ler aqui! Ontem já era tarde, estava cansado.

1 week ago 7 0 0 0

Fazes bem

1 week ago 1 0 2 0

Olha, estou a publicar agora mesmo. Já era tarde e estava cansado.

1 week ago 4 0 3 0
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A maneira de provar que a Europa é capaz de avançar é consolidar essas garantias de estado de direito democrático. E criar condições para que o veto só se exerça como foi pensado: em cooperação leal e sincera, como manda o artigo 4.º do Tratado da União Europeia. 🇭🇺🇪🇺

1 week ago 19 0 1 0

A eleição de hoje não é o fim de uma história, mas o início. Durante anos, o veto húngaro bloqueou a UE dos direitos fundamentais à Ucrânia. A lição não é que o veto é mau. É que foi abusado, e as instituições deixaram que fosse.

1 week ago 16 0 1 0

Mas a UE deve também fazer algo: avançar para uma Comissão de Copenhaga, uma instituição independente, inspirada na Comissão de Veneza do Conselho da Europa, que avalie o Estado de Direito a partir dos tribunais constitucionais dos Estados-membros.

1 week ago 13 0 1 0

Tem de ser um caminho de dois sentidos. A Hungria deve juntar-se à Procuradoria Europeia (EPPO), o que demonstrará boa-fé da parte de Magyar e capacidade de resistir à tentação corruptiva que dominou Orbán.

1 week ago 13 0 1 0

Esta parte é crucial: a UE também tem trabalhos de casa. Não pode apenas pedir reformas à Hungria em troca dos 80 mil milhões bloqueados. As recomendações de reforço do Estado de Direito que Orbán vetou durante anos devem agora voltar à mesa.

1 week ago 13 0 1 0

Na história, os pássaros comeram as migalhas. Mas o que fizemos em 2013 foi fotografar cuidadosamente a localização de cada uma. O roteiro está lá, e está neste momento à disposição tanto dos húngaros como da UE.

1 week ago 12 0 1 0

As medidas de Orbán foram todas no sentido da concentração de poder. O que está descrito no relatório pode ser usado como as migalhas da história infantil que permitem achar o caminho de volta para casa.

1 week ago 12 0 1 0

A Hungria tem uma grande vantagem: todas as derivas de Orbán foram documentadas. O relatório que redigi no Parlamento Europeu em 2013 foi pensado não tanto como documento político, mas como repositório factual e histórico.

1 week ago 14 0 1 0

Assim, quando os nomeados de Orbán bloquearem o novo governo, a dinâmica não será partido contra partido, mas cidadãos e Parlamento contra as armadilhas deixadas por Orbán. E essas assembleias também limitarão as tentações autoritárias da nova maioria.

1 week ago 15 0 1 0
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Magyar pode aproveitar a enorme mobilização democrática que confluiu nele — ex-Fidesz, centro-esquerda, esquerda, até ex-extrema-direita — e criar assembleias cidadãs consultivas por sorteio para um processo constituinte com prazo de cerca de um ano.

1 week ago 17 0 1 0

Eis o dilema: se Magyar aceitar as regras de Orbán, será bloqueado como Tusk. Se usar os 2/3 para fazer o mesmo que Orbán, o que impede um novo autoritarismo?

Uma saída pode ser fazer desta assembleia uma constituinte — mas de maneira muito diferente da usada pelo Fidesz.

1 week ago 15 0 2 0

(Eu vi acontecer: numa segunda reunimos com os deputados que nos alertaram para que na sexta anterior já tinha sido introduzida por via expedita uma lei que garantiria a Orbán maiorias de 2/3 com 40% dos votos, como aconteceu estes anos todos e agora se virou contra ele.)

1 week ago 15 0 1 0

Mas Péter Magyar pode ter dois terços, graças à lei eleitoral distorcida que Orbán impôs em 2012.

1 week ago 15 0 1 0

Orbán montou tudo para que os seus nomeados bloqueassem o próximo governo, enquanto ele e a sua família fazem um recuo estratégico para usufruir dos milhões ganhos à custa do contribuinte europeu.

1 week ago 13 0 1 0

As 26 leis cardinais húngaras, da família à administração do Estado, só podem ser mudadas por dois terços. Orbán contava que o adversário não os tivesse. Aqui está a chave para o que vem a seguir.

1 week ago 15 0 1 0

Quando Orbán chegou ao poder, havia 11 juízes no Tribunal Constitucional. Aumentou para 15. Hoje, 11 dos 15 são orbánistas. Mandatos de 12 anos chegam e sobram para minar todo um governo adversário. O mesmo no Supremo, na Comissão de Proteção de Dados, na Comissão dos Media.

1 week ago 16 1 1 0

E a lei foi alterada recentemente para impedir o Parlamento de destituir o presidente, que estará no posto até 2029, pronto a fazer o que Duda fez na Polónia a Tusk.

1 week ago 14 0 1 0

Pouca gente sabe que na Hungria existe um Conselho Orçamental de três pessoas, todas nomeadas por Orbán, que podem vetar o orçamento. Quando o fazem, o Parlamento pode ser dissolvido pelo Presidente.

1 week ago 15 0 2 0
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Orbán previu desde o início a hipótese de regressar à oposição, apenas deixando o campo ao adversário muito mais armadilhado do que da primeira vez (2002-2010).

1 week ago 15 0 1 0

🧵 O que vem a seguir para a Hungria e a União Europeia? Com a escala da derrota sofrida, seria impossível a Orbán segurar-se ao poder. Mas o seu plano original tb nunca foi esse.

1 week ago 72 28 1 9

O Orbán chamou-me inimigo da nação num discurso no dia nacional. Eu abri o debate com ele citando o artigo 2 do Tratado da UE em húngaro.

1 week ago 16 1 3 0

Já está tudo muito esquecido, porque é uma língua dificílima, mas estudei aplicadamente naqueles tempos para poder apresentar-me em húngaro, iniciar e acabar reuniões, e continuo a usar algumas frases c/ húngaros. Ainda sei ler com correção embora só consiga “tirar umas por outras” do q estou a ler.

1 week ago 11 0 1 0