Saí de Portugal por cansaço. A verdade incómoda é que carrego dentro de mim tudo aquilo que critico. Sou tão fruto daquele solo quanto as coisas que me fizeram sair dele.
Posts by João Freitas
Os prédios antigos tinham bancos à entrada. Os novos têm portas blindadas e garagens de onde se sobe sem pisar a rua.
Separar foi incluído no preço da casa. Juntar é um serviço premium.
Mais um ano a fingir que o capitalismo não me está a consumir mais depressa do que eu envelheço 🙃
Dois bancos no mesmo jardim. Uma mulher com uma sandes em alumínio, vinte minutos de pausa. Um homem com uma salada de plástico e todo o tempo do mundo.
O caminho até ao banco não é o mesmo.
Dois tipos de alunos na mesma sala. Uns aprendem a língua por gosto. Outros porque sem ela não conseguem assinar um contrato ou perceber o que o médico disse sobre os filhos.
O programa é o mesmo. O acesso não.
Há uma vaidade discreta em estar sempre exausto.
Uma forma de provar que se está a levar a sério.
A exaustão não é radicalidade. É desgaste.
Sobre pausa, política e o que o corpo sabe antes da cabeça.
O episódio começou em campo.
Mas o padrão é estrutural.
Racismo, indústria, repetição e responsabilidade no futebol contemporâneo.
Novo texto no Somewhere Quiet.
Se o espetáculo não é inocente, também não é imutável.
Há algo de profundamente humano nos três pontinhos.
Não são apenas um indicador técnico. São um palco mínimo onde projetamos hipóteses, inseguranças e pequenas narrativas interiores.
Talvez o problema nunca tenha sido a resposta.
Talvez seja o intervalo.
RIP Robert Duvall
A utilidade já não garante lugar.
Talvez seja por isso que tanta gente se sente inútil mesmo quando está sempre ocupada.
Há sextas-feiras que pedem pouco: uma janela fechada contra o frio, a cidade lá fora a desvanecer-se, música que ocupa o espaço sem pressão.
Hoje parece ser uma delas.
Nem tudo o que pesa precisa de fazer barulho.
Há coisas que ficam porque nunca foram forçadas a ser outra coisa.
Há estados do corpo que não querem explicação.
Não prometem nada, não se resolvem.
Existem.
E insistem.
Muitas vezes confundimos a falta de acontecimentos extraordinários com estagnação. Mas há uma inteligência discreta em apenas sustentar o quotidiano. Em acordar e fazer o mesmo de ontem, sem que isso seja uma derrota. Sobre continuar sem a urgência do extraordinário.
Sábado de raiva necessária.
Kurt Cobain a tentar romper algo invisível.
2 minutos contra a ordem do mundo.
Às vezes precisamos de música que não nos conforte.
Que nos faça sentir o caos.
Há um ano morreu David Lynch.
Primeira vez: Blue Velvet, DVD do meu pai. Depois Twin Peaks, verão de 2010.
Lynch ensinou-me que o estranho não é defeito, é verdade.
Janeiro não é o mês dos recomeços. É o mês da inércia instalada, dos mesmos metros quadrados onde se dorme, trabalha e existe sem fronteiras. Escrevi sobre promessas não cumpridas e rotinas que congelam.
2025 partiu muita coisa. Mas também ensinou que há pessoas que ficam, que pedir ajuda não é fraqueza, e que sobreviver já é suficiente.
Balanço honesto de um ano difícil.
Entre o sentar e o primeiro garfo, tudo mudou.
24/12/2011: à mesa de natal, a minha vida dividiu-se em antes e depois. Passei anos no fundo de um buraco .
Escrevi sobre esse dia, sobre luto não validado e sobre reconstrução lenta. O natal continua difícil, mas já não estou preso.
Território marcado: sobre nomes de ruas, memória política e o território que habitamos sem perceber.
Vivia na Rua Bernardo Santareno, no Miratejo. Placas brancas, letras azuis. Uma toponímia é sempre uma vitória póstuma de alguém.
Novo texto no Somewhere Quiet 👇
“Streets of Philadelphia” sabe dizer coisas que às vezes nos faltam as palavras: a sensação de caminhar sozinho no meio do barulho, a cidade como cenário e testemunha, o corpo cansado mas ainda em movimento. Pequena banda sonora para deixar a noite passar devagar.
Partilho a playlist deste espaço.
“Somewhere Quiet” tem 32 músicas que atravessaram textos e memórias. Elis Regina, The Police, GNR, Pixies, Queen…
Para ouvir devagar 🎧
"It's never over.
She is the tear that hangs inside my soul forever."
Quando o luto de um amor se instala e não sai mais. Fica preso, sussurrado, infinito. Uma música para quem ainda carrega alguém dentro, mesmo depois de tudo ter acabado.
A alcatifa grudava aos sapatos, os ouvidos zumbiam, e ele voltaria. sempre voltaria.
"Versões que não cabem no dia" — crónica sobre as noites em que procuramos algo que nunca está lá, ou que desaparece assim que tentamos agarrá-lo.
O zumbido mecânico da aparelhagem a ler um CD. Aqueles segundos de espera antes da música começar.
Hoje está tudo disponível instantaneamente. Mas desapareceu a cerimónia da escuta. Aquele tempo que dizia: agora vamos ouvir.
Caminhar por uma cidade que não é nossa é aprender a aceitar o improviso. O exílio pode ser desconforto, mas também contemplação.
Nas ruas vazias e luzes do rés-do-chão, encontro uma versão de mim que pertence enquanto se aceita incompleta.
Descobri michael hutchence tarde demais. Quando finalmente soube quem era aquela voz, ele já tinha morrido há anos.
Mas a voz ficou. Vinte e oito anos depois, ainda está aqui.
A ansiedade de nos tornarmos irrelevantes para quem foi relevante na nossa vida é uma das experiências mais humanas — e mais solitárias — que existe.
Escrevi sobre isso: o medo de ser esquecido, a alienação das relações sob o capitalismo, e porque recordar é um ato de resistência.