Memória, doença e identidade: 8 livros para começar 2026 com reflexões importantes
Começar um novo ano de leituras pode ser um bom momento para escolher histórias que apresentem você a outras realidades — distantes, particulares ou desconhecidas. As indicações deste mês de janeiro são um exemplo disso, e mostram como experiências individuais podem revelar estruturas coletivas. É o que faz, por exemplo, o escritor americano John Green ao transformar o encontro com um jovem adoecido pela tuberculose em uma investigação social e histórica profunda. Conhecido por A culpa é das estrelas — hoje um grande romance clichê, embora tenha marcado toda uma geração no início dos anos 2010 (incluindo eu mesma) —, Green amplia aqui seu olhar para além da ficção juvenil e se debruça sobre uma das maiores crises de saúde pública do mundo. Outro exemplo aparece em As ruas sem nome, de Tieko Irii, que parte de uma memória íntima e familiar para discutir deslocamento, racismo e pertencimento. Ao investigar a história de três gerações de imigrantes japoneses, a autora transforma silêncios herdados em reflexão coletiva. Confira outros títulos a seguir: 1. Desculpe o transtorno: a vida real de uma pessoa com TOC, por Pedro Luis Golemo de Brito Artêra Editorial, 54 páginas | Impresso: R$ 38 Desculpe o Transtorno: A Vida Real de uma Pessoa com TOC, de Pedro Luis Golemo de Brito Artêra Editorial Ao contrário das obras escritas por especialistas, que adotam uma abordagem teórica ou clínica, este livro apresenta o relato pessoal e sincero de Pedro Luis Golemo de Brito, brasileiro que convive com TOC (Transtorno Obsessivo-Compulsivo). Natural de Marília, no interior do estado de São Paulo, o autor compartilha, de forma direta e sem filtros, suas emoções, pensamentos e os desafios do dia a dia com a doença. Ele relembra o surgimento dos primeiros sintomas ainda na infância e narra períodos de desesperança, assim como as conquistas alcançadas em seu cotidiano. Ao dar voz à experiência de quem vive com o transtorno, a obra contribui para desmistificar o TOC junto ao público geral e se consolida como leitura relevante também para profissionais e estudantes da área da saúde mental. 2. Tudo é tuberculose, de John Green Com tradução de Cássio de Arantes Leite. Instrínseca, 192 páginas | Impresso: R$ 59,75 | E-book: R$ 42,41 TUDO É TUBERCULOSE, de John Green Instrínseca John Green ganhou fama por romances que viraram febres teen adaptadas em filmes, como A culpa é das estrelas e Cidades de papel. Mas sua obra também abrange temas aprofundados como o antropoceno, e, mais recentemente, a conscientização contra a tuberculose, a doença infecciosa que mais mata pessoas em todo o mundo. Em Tudo é tuberculose, eleito Melhor Livro de Não Ficção no Goodreads Choice Awards 2025, Green apresenta a trajetória comovente de Henry Reider, um jovem que enfrenta a doença. O autor conhece o garoto de 17 anos durante uma viagem à Serra Leoa, na África, e se vê profundamente impactado por sua história, ao perceber semelhanças entre o rapaz enfermo e seu próprio filho. A partir desse encontro, Green conduz uma ampla investigação sobre a tuberculose, conectando a enfermidade a episódios marcantes da história — do início da Primeira Guerra Mundial à invenção do chapéu de caubói. O livro também destaca figuras fundamentais nesse percurso, como Sir Arthur Conan Doyle, criador de Sherlock Holmes e médico envolvido na busca por uma cura, e o Dr. Alan Hart, homem trans e pioneiro no uso da radiografia pulmonar para o diagnóstico da doença. Ao contar a história de Henry, Green revela como milhões de mortes poderiam ser evitadas com investimentos em prevenção e tratamento em países emergentes, denunciando a negligência de governos e corporações diante da falta de medicamentos e condições básicas; o autor também mostra como racismo e xenofobia dificultam a difusão da cura, lembrando que a tuberculose deixou de ser vista como uma doença “lisonjeira” na Europa para ser associada a grupos marginalizados após a popularização do tratamento no norte global. “Sua doença era um produto do empobrecimento de Serra Leoa ao longo dos séculos, de um sistema de saúde esvaziado pela colonização, pela guerra e pelo ebola, de um mundo que parou de se importar com a tuberculose assim que ela deixou de representar uma ameaça para os ricos", diz um trecho do livro. 3. Pitangas verdes, de Mariana Lobato Botter Editora Labrador, 160 páginas | Impresso: R$ 49,90 Pitangas verdes, de Mariana Lobato Botter Editora Labrador Publicado pela Editora Labrador como prêmio pela vitória no Concurso Literário Vila-Labrador — que contou com mais de 600 obras inscritas, — o romance Pitangas Verdes é de autoria da diplomata e bacharel em Direito pela USP, Mariana Lobato. A narrativa acompanha o fluxo de memória da protagonista Ana, uma mãe divorciada que vive no exterior com seus dois filhos. Impedida de retornar a São Paulo por dois anos, ela precisa aguardar para se desfazer dos pertences da mãe, morta durante a pandemia de Covid-19. Nesse intervalo, a personagem revisita sua própria trajetória e a de diversas mulheres de sua família — como a avó, uma indígena vendida como funcionária doméstica em Alagoas, que se torna mãe aos 14 anos. De modo geral, a obra aborda o amadurecimento precoce de mulheres e meninas. Lobato exemplifica que isso pode acontecer "seja porque precisam se criar sozinhas, seja porque são violentadas, seja porque são colocadas em um papel de muita responsabilidade e, ainda crianças, são impedidas de fantasiar”. 4. O livro amarelo do terminal, de Vanessa Barbara Fósforo, 224 páginas | Impresso: R$ 89,90 | E-book: R$ 62,90 O livro amarelo do terminal, de Vanessa Barbara Fósforo Publicado originalmente em 2008 e vencedor do prêmio Jabuti de reportagem, O livro amarelo do terminal retorna às livrarias em uma nova edição da Editora Fósforo, agora com projeto gráfico renovado que remete aos bilhetes de ônibus impressos com códigos de barras. Trata-se de uma obra fundamental do jornalismo literário brasileiro, na qual a autora investiga o funcionamento da segunda maior rodoviária do mundo, o Terminal Rodoviário do Tietê, em São Paulo. Com sensibilidade e humor sutil, Barbara disseca essa “cidade de chicletes abandonados, de pessoas com pressa e de coisas perdidas”, reunindo fragmentos de conversas e uma coleção de achados e perdidos tão inusitada quanto reveladora — espingardas, motos, máquinas de serrar azulejos, dentaduras e muito mais. Como observa o cineasta e documentarista João Moreira Salles no texto de orelha do livro, a escritora “chegou à conclusão de que o Terminal Rodoviário do Tietê […] é uma versão condensada do mundo — e, como tal, pedia um Vasco da Gama, um Lévi-Strauss, uma Mata Hari e um Woodward & Bernstein”. 5. Berlim: a queda - 1945, de Antony Beevor Com tradução de Rafael Rocca dos Santos. Selo Crítica | Editora Planeta, 560 páginas | Impresso: R$ 159,90 Berlim: a queda - 1945, de Antony Beevor Crítica O historiador britânico e ex-militar Antony Beevor reconstrói, em Berlim: A queda – 1945, o colapso final da Alemanha nazista, derrotada pelo Exército Vermelho em janeiro de 1945. A obra se apoia em arquivos até então inéditos e em testemunhos diretos de um dos confrontos mais devastadores da Segunda Guerra Mundial. Beevor expõe de maneira contundente o impacto humano do conflito, descrevendo cenas de tanques avançando sobre colunas de refugiados, além de saques, execuções e atos de extrema violência. O livro também lança luz sobre o drama enfrentado pela população civil alemã, abandonada à própria sorte, resultando na morte de centenas de milhares de mulheres e crianças, vítimas do frio, da fome e da brutalidade da guerra. Para o historiador, poucos momentos revelam tanto sobre líderes políticos e os sistemas que comandaram quanto a forma como ocorre sua derrocada. "É por isso que, numa época em que jovens, especialmente na Alemanha, voltam a admirar certas características do Terceiro Reich, a derrota do nacionalsocialismo torna-se tão intrigante e tão importante”, escreve o autor no prefácio da obra. 6. As ruas sem nome, de Tieko Irii Editora Patuá, 428 páginas | Impresso: R$ 73,93 As ruas sem nome, de Tieko Irii Editora Patuá Em As ruas sem nome, a autora e artista visual paulistana Tieko Irii constrói uma narrativa autobiográfica que atravessa três gerações de imigrantes japoneses, articulando memória familiar, deslocamento e identidade. O livro nasce da descoberta da autobiografia secreta de seu pai, Hisashi Irii, cuja trajetória do Japão pós-guerra ao Brasil impulsiona a autora a investigar suas próprias origens e a refletir sobre racismo e silenciamento. Quando meu pai finalmente contou sua história, entendi por que ele a manteve em segredo: era uma narrativa de tragédias, de transgressões e de coragem , relembra Tieko. Ao ampliar essa investigação, a autora insere a saga familiar em uma história coletiva: “Ao ouvir os relatos dos meus tios, descobri que era cheia de lacunas, eles pouco sabiam sobre meus avós, e assim como eu, evitavam tocar nas feridas; mas ao nos inserir na história do mundo descobri que fazemos parte de uma história coletiva. Somos frutos disso, mas também sujeitos de nossa própria história”, conclui. Ao longo da obra, Tieko cruza sua trajetória pessoal com reflexões sobre o perigo amarelo, a minoria modelo e o racismo estrutural brasileiro. O projeto de branqueamento brasileiro, o mito da democracia racial brasileira, composta por brancos, negros e indígenas e o racismo estrutural, nos colocou em um lugar paradoxal: nem totalmente aceitos, nem totalmente estrangeiros, reflete a autora. 7. Tempos Amarelos, de Verônica Yamada Editora SEDAS, 136 páginas | Impresso: R$ 73,93 Tempos Amarelos, de Verônica Yamada Editora SEDAS Tempos amarelos, de Veronica Yamada, é um exemplo de ficção de cura, gênero que combina narrativas ficcionais e reflexões emocionais com o objetivo de oferecer conforto ao leitor. Neste livro, a protagonista, Marina, enfrenta as consequências extremas de uma cultura de produtividade que leva ao adoecimento, convidando o leitor a questionar o ritmo de vida, o valor do trabalho e a busca incessante por status. Para a autora, a função desse gênero não é dar soluções universais, mas apontar caminhos possíveis de cura, respeitando a singularidade de cada leitor — e, sobretudo, oferecendo aquele “quentinho” no coração. As pessoas estão um pouco cansadas de livros de autoajuda, que trazem, por vezes, algumas soluções fechadas demais, diz Yamada, em comunicado. Cada pessoa é única, então por que as soluções seriam as mesmas para todo mundo? Existem caminhos diferentes para indivíduos diferentes e é nisso que acredito. 8. HQ Querido Gineco, de Little Goat Little Goat, 136 páginas | Impresso: R$ 80 HQ Querido Gineco, de Little Goat LittleGoat Querido Gineco – Relatos ilustrados de pessoas reais, com e sem vulva reúne 13 histórias verídicas, narradas de forma anônima por pessoas diversas, que expõem a precariedade, a negligência, os abusos e os preconceitos ainda presentes nos atendimentos ginecológicos — especialmente aqueles direcionados à população trans — tanto no Sistema Único de Saúde (SUS) quanto na rede privada. Ao dar forma e imagem a essas experiências, o livro transforma vivências individuais em uma potente denúncia. Mais do que relatar, a obra busca dar visibilidade e voz a quem já passou por situações violentas em consultórios ginecológicos e faz um chamado direto à comunidade médica por um atendimento mais humanizado, preparado, respeitoso e acolhedor. Entre as experiências narradas estão a de uma mulher que sofre gordofobia e se sente invadida durante uma abordagem indelicada na inserção do espéculo, e a de uma pessoa não binária que busca iniciar um tratamento com testosterona. Em ambos os casos, a resposta médica vem em forma de deslegitimação, com frases como olha só esse peso. Não tem como se sentir bem assim e você é uma menina muito bonita. Não precisa dessas coisas.