— Eles tem certeza que é mesmo o Prater?
— Tem que ser. — Leclerc assopra contra a beirada da caneca, tentando deixar seu chocolate menos quente. — Eles não iam sair voando desse jeito se fosse só uma suspeita.
— Justo. — Gustave se inclina na cadeira ao lado dela, levantando as pernas da frente do móvel. — Ainda tem chocolate na cozinha?
— Tem, mas o leite tá acabando. Não sei se dá para outra caneca.
— Vai ter que dar. Daqui a pouco eu pego.
— Eu trouxe mais agora de tarde. — Duchamp grita do fim do corredor. — Se for fazer um pouco, faz pra mim também, chefe?
Ele nem responde. Não consegue falar mais alto que o celular do recepcionista. Provavelmente ele está assistindo um daqueles filmes de kung-fu do século passado, feitos com o orçamento de duas marmitas, que tem aos montes de graça no YouTube. Vai ser a trilha sonora da próxima hora e meia da vida deles, a não ser que a Leclerc queira ligar a caixinha de som. Ainda assim, a escolha musical vai depender de como está o humor dela.
Se Gustave pudesse escolher, ficaria apenas ouvindo a chuva fina que cai lá fora, quase invisível pela janela. A única coisa que interromperia seu silêncio seria o ruído do celular de alguém vibrando, como é o caso do aparelho dele nesse momento. Não é nada demais, apenas Bouchard comentando que a imprensa foi embora logo depois de Gustave, perguntando se ele ainda precisa mesmo ficar lá até o pessoal da noite chegar, e pedindo para ele avisar para a Leclerc olhar o celular dela.
Felizmente, a poluição sonora é interrompida após mais alguns minutos: o telefone central da delegacia toca, e Duchamp precisa pausar seu filme para atendê-lo. Tanto Gustave quanto sua colega ficam em silêncio absoluto, tentando capturar algum detalhe da conversa, mas é um esforço em vão.
(duchamp chega na sala e fala com eles)
— Era a professorinha da Lisa. Os pais do sumido acabaram de chegar no hotel.
— Eles estavam lá até agora? — Leclerc arregala os olhos. — Meu Deus, eu estudei lá e não consigo pensar em tantos lugares assim para ver.
— Ah, você sabe como é. Os professores têm os cantinhos secretos deles, né? Eles precisam relaxar às vezes. Ainda mais se tiverem um aluno favorito…
A risadinha debochada de Duchamp arranca protestos da sargento, mas mal chega aos ouvidos de Gustave. Por um breve momento, o vislumbre de Émile escondido entre estantes na biblioteca puxa o ruivo para outra dimensão. A gola de seu suéter finalmente abaixada, revelando vermelho e roxo em seu pescoço. Um sorrisinho provocador, a curva de sua cintura sob as mãos de Gustave. Os dedos dele em seu queixo, puxando-o para mais perto…
… São interrompidos pelo chiado da mensagem de áudio que Leclerc toca no alto falante. É o Bouchard, comentando sobre alguma pintura bizarra que viu na casa de Alice Laurent. Não dá para saber o que é pior: o jeito que ele conta a história, a descrição da pintura em si, ou a memória da mãe de Christine. De qualquer jeito, não tem clima para ele fantasiar sobre mais nada, e nem é o momento ou local para isso. Grunhindo, ele se levanta:
— Vou pegar meu chocolate.
— Não esquece do meu!
— Eu vou querer mais uma caneca, Martin. Pode fazer para mim também?
Grandes coisas, assumir o comando da delegacia. Ele espera encontrar um pouco de paz na cozinha, e que Lisa retorne logo com mais informações sobre o avistamento. Ou isso, ou que seja logo sete horas, e ele possa ir embora.
para movimentar um pouco a conta: cena extra de #halcyon_sereno!
só um momentinho besta da delegacia. era para ser a parte final do capítulo mais recente, mas já estava bem longo, então cortei. não chegou nem a ser editada 🕊️
#brart #webnovel