Matrescência: a transição de identidade vivida após a maternidade
Aeroporto. Uma mãe só com mala de mão. Sozinha. Depois de 11 anos, a publicitária Renata Vilar, 44, viajou a trabalho como Renata e não como mãe do Theo, 11, do Breno, 8, do Lucca, 3, e esposa do Jefferson. Ela, que antes da maternidade era superativa, independente, presente em todos os eventos e viajava bastante, se perdeu de quem era após o primeiro filho. Bruna Biancardi: "Aprendi que preciso estar bem comigo mesma para estar bem com elas" Mudou de cidade, de profissão e não se reconhecia mais. “Chega uma hora em que você perde totalmente a identidade... Ou é a mãe dos filhos, ou a esposa do marido, ou a pessoa que resolve tudo. Mas... e a Renata?”, passou a se questionar. Essa dúvida não veio de repente: foi se acumulando ao longo de noites mal dormidas, rotinas exaustivas e anos dedicados a todos, menos a si mesma. “Chegou a um ponto em que eu estava estabilizada, tinha o meu negócio, os meus filhos estavam bem, mas eu não. Era uma sobrecarga física e emocional, sensação de desorientação, de trabalhar com algo que não me satisfazia, uma culpa que ninguém percebia”, conta. Foi a partir de uma palestra na escola dos filhos que Renata sentiu algo diferente: se interessou por uma nova área de estudos, foi atrás e passou a enxergar outros caminhos. “Percebi que queria tomar posse da minha vida de novo, mostrar para os meus filhos que sou independente, exemplo que quero passar para eles. Tomei coragem e entrei num avião sozinha, rumo a um evento dessa nova área em que quero trabalhar, para aprender, fazer conexões, conhecer pessoas. Voltei viva. Voltei inteira. Meus meninos sentiram saudade, mas sentiram também uma mãe mais segura e feliz”, conta. Uma nova mulher após a maternidade Freepik O sentimento de Renata é mais comum do que se imagina, a exemplo do que contou, em entrevista exclusiva à CRESCER, a influenciadora Bruna Biancardi, 31 anos, mãe de Mavie, 2, Mel, 5 meses, e esposa do jogador Neymar. “Acho que é impossível se tornar mãe e continuar sendo a mesma pessoa, pois tudo muda: o significado das coisas, as preocupações... Não tem como não passar por essa mudança. Mas a gente fica um pouco confusa: ́Quero voltar a ser um pouco aquela Bruna que eu era, mas agora sou outra Bruna. Só quem é mãe entende!”, conclui. A matrescência Esse questionamento conflitante ecoa o que muitas mulheres descrevem: a sensação de estar entre duas versões de si mesma – a que existia antes e a que está nascendo agora. Não se trata de um caso isolado, tanto que há estudos que investigam essa experiência. Uma pesquisa feita pela plataforma ucraniana Headway, com 2 mil famílias, mostrou que 68% das mães relatam sentir que perderam uma parte de sua identidade após a chegada dos filhos. Embora seja um dado internacional, ele dialoga com relatos bem semelhantes de mulheres brasileiras, já que essa mudança não é cultural, é humana. Trata-se da matrescência, nome dado pela antropóloga Dana Raphael à intensa transição identitária vivida no ciclo da maternidade. 8 verdades (e superações) sobre o primeiro ano da maternidade “Gosto de dizer que a maternidade é um portal para algumas mulheres. Após a travessia, quem chega lá é outra mulher. Do ponto de vista psicológico, é esse espaço que o filho abre que permite o envolvimento da mãe com o bebê. Ela perde um pouco de si para conseguir ver esse filho. E o grande trabalho depois é se reencontrar, com essa nova versão”, afirma a educadora parental e escritora Lua Barros, autora do bestseller Eu não nasci mãe: o que precisei desaprender para aprender a ser mãe (Editora Nacional). É aquela perda que não se mede em grandes gestos, mas nas microrrenúncias do dia a dia: o café que esfria, o banho apressado, a falta de tempo de um papo com os amigos, o silêncio que some... Isso não quer dizer que esse período apague a identidade prévia – mas, sim, a transforma, como explica a psicóloga perinatal Karla Cerávolo, diretora da Rede Umbiguinho, iniciativa ligada à saúde mental perinatal e atenção psicológica de gestantes, mães e famílias. “A mulher que existia antes não desaparece. Ela fica um pouco escondida, esperando espaço. O self materno – a identidade e experiência da mulher como mãe – se expande, mas, para isso, ele precisa, antes, se desorganizar”, afirma. A neurociência reforça essa visão: o cérebro materno passa por uma reorganização real, que altera áreas ligadas à empatia, memória, vigilância e motivação. “A maternidade provoca uma remodelação profunda, que muda como a mulher sente, pensa e se percebe no mundo”, complementa a neuropsicopedagoga Ana Paula Alves, idealizadora do programa Força de Uma Mãe. No livro O Mito do Instinto Materno: como a neurociência está reescrevendo a história da parentalidade (Companhia das Letras), a jornalista científica norte-americana Chelsea Conaboy reforça a ideia de que a maternidade literalmente reconfigura a arquitetura cerebral. Ou seja, amplia a sensibilidade, a empatia e a capacidade de resposta da mulher – não como perda de si, mas como expansão. Para Chelsea, muitas das “crises” do puerpério não são falhas maternas, mas efeitos naturais de um período de intensa plasticidade e ajustes internos. Entender que essa mudança é biológica ajuda a aliviar a culpa que tantas mães sentem ao se perceberem diferentes, mais sensíveis ou vulneráveis nesse período. Mergulho profundo Há mulheres que sabem exatamente quando começaram a se perder. Outras só percebem anos depois, quando olham para o espelho e já não reconhecem quem está ali, nem no rosto, nem nos pensamentos, nem nos sonhos que ficaram pelo caminho. A maternidade é, para muitas, esse ponto de virada silencioso: um amor imenso que chega com uma sensação de estranhamento, quase sempre escondido. A psicanalista Mônica Pessanha, colunista da CRESCER, descreve essa etapa como um “mergulho profundo no bebê”, estado que o pediatra e psicanalista inglês Donald Winnicott chamou de preocupação materna primária. “É uma adaptação necessária, mas pode significar uma pausa forçada na própria identidade. É como se ela ficasse entre parênteses”, explica. Esse período pode inaugurar um tipo de despedida silenciosa, quase sempre não reconhecida pela sociedade: a perda pela versão de si mesma que ficou para trás. Não é um luto da maternidade em si, mas sim da expectativa de continuidade que nunca existiu de verdade. A publicitária Renata Vilar viveu exatamente esse choque: “Cadê essa pessoa? A independente, que viajava, tinha mil amigos, estava em todos os lugares? Desapareceu”. Esse desaparecimento simbólico não é falta de amor pelo filho, mas de acolher e aceitar que alguns desejos, valores e objetivos mudaram. Em busca de respiro Grande parte desse choque não é interno: é cultural. Segundo dados do documento Retrato das Desigualdades de Gênero e Raça 2024, feito pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), as mulheres dedicam mais de 21 horas por semana aos cuidados com a casa e os filhos. Mônica Pessanha afirma que vivemos em uma sociedade que romantiza a maternidade, mas não oferece sustentação real à mulher. “A mãe sustenta o mundo ao redor, mas raramente alguém a sustenta. Ela é tratada como sagrada, mas a maternidade que vive é banalizada, como se o seu esforço fosse o esperado e não algo imenso, diário e profundamente humano.” Depois da maternidade, elas decidiram se tatuar pela primeira vez — e revelam o motivo Milhões de células da sua mãe ainda vivem em você - e têm um papel fundamental, indica estudo Esse cenário produz o que especialistas chamam de invisibilidade materna, que resulta em um apagamento em três camadas: social (a mulher passa a ser reconhecida apenas como mãe); emocional (as pessoas perguntam do bebê, não dela) e subjetiva (ela mesma perde contato com sua interioridade). “O discurso do instinto materno foi criado para colocar o cuidado exclusivamente nas mãos das mulheres, desonerando homens e a sociedade. É uma forma de controle. Mulheres sobrecarregadas não têm tempo de desejar”, opina a psicanalista e escritora Bebel Soares, ativista pelos direitos das mulheres, crianças e adolescentes. Essa estrutura histórica e cultural empurra a mulher para um lugar de devoção absoluta e invalida a complexidade da experiência real. A invisibilidade emocional vira exaustão. A falta de reconhecimento vira culpa. A sobrecarga vira autoexigência. E tudo isso se acumula sem que ela se dê conta até que se questiona, como Renata: “E eu?”. A ausência de espaço para nomear esse luto (afinal, mãe tem que estar sempre feliz e grata, não é?) gera consequências emocionais importantes. A psicanalista Mônica aponta várias delas: não saber mais quem se é, exaustão mental, culpa constante, sensação de inadequação e desconexão com o próprio corpo e desejo. Todas essas experiências são profundamente humanas, mas quase nunca ditas. Poder nomear a dor e validar o cansaço – e ser acolhida nisso – são passos fundamentais para sair da invisibilidade e começar a reconstrução de fato. “Quando nomeamos as emoções desse período, temos a chance de encarar as experiências sem o véu da romantização e nos apropriarmos da nossa história”, diz Lua Barros. A subida à superfície Depois do luto silencioso e da sensação de invisibilidade, um novo horizonte desponta timidamente – no banho quente que dura dois minutos a mais, na música antiga que desperta uma lembrança adormecida, no livro esquecido na cabeceira que finalmente é aberto de novo. “O recomeço costuma ser sutil e paulatino, com pequenos sinais, normalmente entre 3 e 12 meses [após o nascimento dos filhos]. Mas em alguns casos pode levar bem mais tempo. É quando o sistema nervoso sai do modo sobrevivência e libera recursos para que a mulher pense mais em si”, explica a psicóloga perinatal Erika Rohrbacher, mestre em Educação com formação em Coaching Parental. É um movimento pequeno, quase imperceptível, mas é ali que algo dentro da mulher começa, enfim, a respirar de novo. Foi o que sentiu a advogada Bruna Leão, 41 anos, mãe de Luana, 8 anos, e Clara, 4. “Quando passei a ter coragem novamente de dizer não e fazer algo por mim, ainda que fosse um simples almoço com as amigas, me senti sendo eu de verdade”, diz. O mesmo aconteceu com a influenciadora Bruna Biancardi, que acaba de estrear o quadro Bru na Cozinha em suas redes sociais. Por lá, recebe famosos para prepararem juntos uma receita especial. “É algo da nova Bruna, mas com um pouco da Bruna antiga. Compartilhar receitas fáceis era algo que eu fazia muito antes de ser mãe. Já tinha isso na minha cabeça, de voltar. Então, falei: ‘Vamos colocar em prática, quero convidar umas pessoas legais para a gente bater papo enquanto cozinha’. E está sendo supergostoso! É um tempo que estou me dedicando a fazer algo realmente bom pra mim. Eu volto feliz pra casa”, revela. A psicopedagoga e facilitadora em Mindful e Autocompaixão pelo Center for Mindful Self-Compassion, Daniele Diniz, descreve esse instante como o início de uma integração profunda. “Muitas mães descobrem que estão tentando caber em uma versão antiga de si mesmas em vez de reconhecer as novas camadas que nasceram com o bebê. Autocompaixão é (re) habitar o próprio corpo emocional, legitimar necessidades e reconstruir identidade com leveza e pertencimento.” Esse processo tem sustentação robusta na pesquisa científica. A pesquisadora Kristin Neff, professora no departamento de Psicologia Educacional na Universidade do Texas e principal referência mundial em autocompaixão, mostra em seus estudos que algumas práticas reduzem o estresse, aumentam a flexibilidade emocional, melhoram a regulação diante do caos, diminuem a chance de burnout materno e ampliam a sensação de pertencimento – um dos maiores fatores de proteção na maternidade. Segundo Neff, autocompaixão não é resignação, é coragem emocional. E é justamente essa coragem que abre a porta para um recomeço. Um porto seguro A rede de apoio – real, emocional e prática – é um dos maiores motores para isso. “Em muitas culturas ancestrais, a maternidade sempre foi entendida como tarefa coletiva, nunca individual. Com a modernidade, a “aldeia” se perdeu e a mulher acabou arcando com esta sobrecarga. Porém, se ela recebe auxílio para dividir as atividades e o cuidado com o bebê, mesmo que por pouco tempo, poderá acessar um espaço de retomada de si. Por isso, a rede de apoio é tão importante”, defende a psicóloga Erika Rohrbacher. E ela pode aparecer de diferentes maneiras: quando uma amiga leva o bebê para um passeio de 20 minutos para a mãe aquietar a mente; quando a escola acolhe as demandas de uma família sem julgamento; quando as mães de um grupo decidem parar de competir e começam a se sustentar mutuamente; quando uma vizinha segura o carrinho por cinco minutos para a mãe conseguir comer. “A autocompaixão rompe o mito da competição materna. Quando uma mulher se permite ser humana, ela autoriza todo o grupo a existir com mais leveza”, opina Daniele Diniz. O depoimento de Renata Vilar, a mãe de três meninos do início da nossa reportagem, é um exemplo potente disso: “A virada de chave vem quando a gente cria a autoconsciência do que está acontecendo. Quando entende que está replicando padrões que não gostaria de replicar, que queria ser diferente e que só depende da gente mudar. Sair da rotina, saber o que quer, aprender a falar não e ter a coragem de agir: esses foram, para mim, os pilares do resgate de identidade”. Se redescubrindo Freepik Esse movimento individual transforma a família inteira. Uma mãe que se coloca no mundo ensina aos filhos algo que nenhum discurso dá conta de ensinar: que eles também podem existir com autonomia, coragem e verdade. A maternidade não apaga a mulher. Ela a transforma – às vezes, com força, às vezes, com dor, quase sempre com profundidade. O recomeço é criar espaço: para ouvir a própria voz, para existir para além das funções, para integrar a mãe e a mulher – sem que uma ofusque a outra. E, enfim, respirar. Como praticar autocompaixão na rotina real Fale consigo como falaria com uma amiga querida Quando o pensamento vier duro (“eu deveria dar conta”), troque por algo possível: “Estou cansada. O que eu consigo fazer agora?” Pratique microgestos diários de pausa Degustar um chá sentada, fazer três respirações profundas no banheiro, ouvir cinco minutos de música enquanto dobra a roupa Permita-se ser humana na frente de outras mães O sentimento genuíno compartilhado reduz isolamento e aumenta pertencimento. Quando uma mãe admite para o grupo: ‘Hoje eu não dei conta’, ela abre espaço para que outras também respirem e, assim, a rede finalmente acontece Crie uma frase-âncora para repetir nos dias difíceis Pensamentos como “Estou fazendo o possível com o que tenho hoje” ou “Eu também preciso de cuidado”