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“Isso é uma comunidade. Só queremos paz”. Polícia militar de Tarcísio assassina trabalhadora na zona leste de SP.
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averdade.org.br/2026/04/isso-e-uma-comun...
#Brasil #LutaPopular […]

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Os últimos gritos que os vizinhos ouviram foram de Guilherme Moisés de Jesus chamando pela mãe. O quarto filho de Sandra Helena não costumava sair muito de casa e, segundo eles, não foi diferente naquele dia. “Ele era meu protetor”, diz a mãe. Aos 26 anos, o rapaz que trabalhava como segurança e “chapa”, fazendo a carga e descarga de caminhões, estava desempregado. Desde o dia anterior estava capinando o pátio – como os gaúchos chamam o quintal – e passava bastante tempo no computador. A mãe conta que ele vivia rodeado dos sobrinhos e era bem próximo da família. Ocupada com a filhinha de três meses, Ana, a irmã mais velha, não viu que Jesus tinha mandado mensagem por volta das 19 horas daquele inesquecível 16 de janeiro de 2026. No status dele no Whatsapp, atualizado às 20h30, havia uma mensagem de “Boa Noite”. Já passava das 21 horas quando Ana tentou falar com o irmão, mas as mensagens ficaram sem resposta. Não muito longe dali, Sandra, que também é cuidadora de idosas e acompanhante hospitalar, estava ajudando uma moça “a cuidar de uma guriazinha”, quando recebeu um telefonema da vizinha, que morava bem perto da casa onde morava com o filho, no bairro Cabo Luiz Quevedo, em Uruguaiana, cidade gaúcha de 120 mil habitantes na fronteira do Brasil com a Argentina. “Sandra, vem pra cá, a “choque” invadiu sua casa”, disse. “A choque” é como os moradores chamam o 6º Batalhão de Choque da Brigada Militar (a PM gaúcha), responsável pelo policiamento na cidade. Criado em 2021 por um decreto do governador Eduardo Leite (PSD), é um dos seis batalhões “superespecializados”, segundo o governo gaúcho, que patrulham o interior do estado. Em comentários nas redes sociais e em conversas com moradores, a truculência da “choque” é citada com frequência, bem como a reivindicação de que – a exemplo da Brigada Militar da região metropolitana de Porto Alegre – os policiais do interior também sejam obrigados a usar câmeras corporais. Um dia antes de Jesus ser brutalmente torturado e assassinado por sete homens e uma mulher do 6º Batalhão de Choque, 18 policiais do 5º Batalhão de Choque e do 4º Batalhão da Polícia Militar invadiram uma chácara em Pelotas. Marcos Nornberg, um agricultor de 48 anos, foi morto pela polícia e sua esposa, Raquel, foi torturada. Depois da mobilização dos familiares, que incluiu uma carta da viúva ao governador, a polícia reconheceu que havia cometido “um equívoco”: teria seguido uma pista falsa de uma quadrilha de traficantes. Mas não se desculpou pela violência extrema – como se tivesse sido empregada contra criminosos fosse legítima. No caso de Jesus, embora a motivação do crime não esteja clara para ninguém, não há engano possível. Um dos policiais que participou dos atos bárbaros que levaram à morte de Jesus conhecia a vítima desde que ele frequentava o cybercafé de seu pai. “O Gui devia ter uns nove anos, então eu deixava ele jogando videogame, e quando acabava o tempo dele, o pai desse que hoje é policial me ligava e eu ia buscar”, lembra Sandra. ## **Portão arrebentado, luzes acesas** Naquela noite em que o filho seria morto, a mãe achou que os policiais tinham errado de endereço. Afinal, o filho nunca foi preso e não tem antecedentes criminais, e ela sabia que ele estava sozinho em casa – nem tinha levado a chave. Ainda assim, tentou conseguir um carro de aplicativo ou uma carona para ver o que tinha acontecido. Logo depois, porém, a vizinha ligou novamente para dizer que os policiais já tinham ido embora. Mesmo achando que tinha sido um engano, Sandra ligou para o irmão, Dinho, para pedir que ele fosse com ela até a sua casa na rua Marechal Floriano. Sua filha, Ana, foi junto. “A mãe parou um pouco antes de casa pra ir nos vizinhos perguntar o que tinha acontecido, aí, quando a gente chegou, o portão estava arrebentado, e as grades da porta também, mas tinha uma luz ligada no quarto dele. Eu desci do carro e chamei por ele umas três vezes. E aí o meu tio falou: “não, ele não está aqui, vamos na delegacia, devem ter levado ele pra lá”. Quando os dois estavam saindo, viram uma viatura parada mais à frente e fizeram a volta para falar com os policiais. “Aí eles ligaram o carro, vieram subindo, e meu tio atacou [abordou] eles e perguntou o que tinha acontecido com o rapaz daquela casa. O policial perguntou quem ele era, quem eu era, mandou descer do carro. E aí o policial me perguntou se o Guilherme sofria do coração ou tomava algum remédio controlado. Eu falei que não, ele não sofria de nada. E aí eu perguntei ‘por que, o que aconteceu?’ Aí ele falou que ele tinha passado mal e que eles tinham levado para o Pronto Socorro da Santa Casa. Eu liguei pra mãe pra avisar e fomos pro hospital”, lembra Ana. ## **Deixado morto no hospital** Antes mesmo de entrar na Santa Casa da Caridade de Uruguaiana, Ana e o tio descobriram que Jesus estava morto. “A gente perguntou pro guarda do hospital se ele sabia para onde tinham levado o rapaz que a choque socorreu, e ele respondeu: “Como? O rapaz que deixaram aqui, eles já deixaram ele a óbito”. Ana correu para o carro para avisar a tia, ainda com esperança de que poderia não se tratar do irmão. As duas entraram no hospital, cheio de policiais, e a tia voltou lá de dentro com uma enfermeira. — “É ele? A polícia matou ele?”, Ana perguntou, em desespero. — “A enfermeira balançou sim com a cabeça, e me abraçou”, ela contou. Ana repetiu a pergunta dessa vez para o médico que a levou até o corpo do irmão. — “A polícia matou meu irmão?”, perguntou. — “Ele me falou bem assim, ‘ó, entra ali, maninha, pra tu ver como eles deixaram ele aqui’.” Ana não podia acreditar que aquele corpo era o do seu irmão. “Ele tava sem camisa. O tórax dele estava roxo, e tinha um hematoma grande, tipo uma paulada, perto do coração. O rosto dele também estava roxo, muito inchado, a cabeça muito, muito inchada. As mãos estavam queimadas em vários pontos, os pulsos muito machucados. Mas no corpo dele não tinha sangue, a calça estava limpa. E ele estava com os olhos e a boca entreabertos, eu vi que tinha sangue por dentro da boca e que as narinas dele estavam tapadas de terra.” Detalhe da mão de Guilherme com marcas de queimadura As fotos do corpo, que revelam as marcas da tortura, foram feitas já com maquiagem funerária, antes do enterro, já que a Ana, em choque, nem pensou em fotografar o corpo no hospital. “Até as palmas das mãos dele, que estavam queimadas, tiveram que ser maquiadas”, conta Ana. Ainda assim, as marcas de tortura são bem visíveis nas fotos da funerária enviadas por dona Sandra para a **Pública** – que não serão publicadas nesta reportagem em respeito ao público. Mas o que a **Pública** , e colegas da imprensa gaúcha, vimos não dá margem à dúvida: Guilherme de Jesus foi barbaramente torturado dentro da sua casa invadida por oito policiais do 6º Batalhão de Choque. “Morte violenta”, registra laconicamente a certidão de óbito, o único documento relacionado à morte de Jesus a que a família teve acesso até o momento. A hora da morte – 22h – coincide com o horário de sua chegada à Santa Casa da Caridade de Uruguaiana. Certidão de óbito de Guilherme registra “morte violenta” Além das marcas no corpo, e de evidências negligenciadas pela perícia na casa de Sandra e Jesus – como a bermuda encontrada molhada dentro do box do chuveiro, ainda com o maço de cigarros, também molhado, dentro do bolso, sugerindo que o corpo dele foi lavado – e o desaparecimento da cama em que ele dormia, um dos vizinhos gravou em vídeo um depoimento com o que ele viu e ouviu na noite do crime. “Moro na rua Marechal Floriano, e eu vi a polícia chegar. Dois policiais invadiram, e seis quebraram o portão. Eu não vi o rapaz entrar nem sair de casa; espancaram o rapaz lá dentro, eu não sei porquê. O que vi foi que uma caminhonete parou na frente de casa, a outra um pouquinho mais pra frente, nunca na frente da casa desse rapaz, entendeu? E ali eles entraram, bateram nele, bateram muito nele, pelos gritos, sabe? E depois, as últimas palavras que eu ouvi, que ele falou ali, ele gritou por socorro duas vezes e chamou pela mãe dele, entendeu? E depois silenciou completamente. Daqui a um pouquinho eu vi que duas caminhonetes vieram e entraram de bunda, de bunda que eu digo de ré, pra lá onde eles estavam batendo no rapaz lá, entendeu? Acho que levaram o corpo do rapaz, mas aí eles voltaram depois, mais uma vez, não sei o que vieram fazer”, contou. Até hoje nem Ana, nem os profissionais de saúde foram chamados a depor no inquérito civil, aberto na 1ª Delegacia de Polícia Civil de Uruguaiana. Também esse vizinho, que gravou o vídeo em frente à delegacia, onde familiares e amigos se reuniram depois da morte de Jesus para pedir esclarecimentos, denunciou não ter sido ouvido pela polícia, embora seu nome e sobrenome constem na gravação. A **Pública** não divulgou os nomes aqui a pedido da família dele, que ficou assustada depois que ele não foi chamado para depor. Guilherme, pouco antes de sua morte, com a sobrinha no colo ## **Dúvidas, versões insustentáveis e inquérito que não anda** Dias depois do crime, a Brigada Militar publicou a versão dos policiais em uma nota enviada à imprensa. De acordo com eles, “durante um patrulhamento tático motorizado”, a equipe do 6º Batalhão de Polícia de Choque, “visualizou um indivíduo em atitude suspeita que ao perceber a presença policial empreendeu fuga em direção ao interior de uma residência, portando na cintura objeto com características semelhantes às de uma arma de fogo, desobedecendo às ordens legais de parada emanadas pela guarnição (…). Após a contenção física e algemação, o indivíduo apresentou mal súbito, vindo a perder a consciência. De imediato, a guarnição prestou atendimento pré-hospitalar, realizando manobras de ressuscitação cardiopulmonar (RCP), e procedeu o encaminhamento ao Pronto Socorro. Após o referido atendimento médico, foi constatado o óbito”. Até hoje a família diz não compreender porque Jesus foi torturado, ainda mais porque ele não tinha envolvimento com o crime – como atestam a ficha criminal limpa e os que conviviam com ele. “Não teria informações pra tirar dele, nem [chance] dele ter revidado já que eram oito policiais que o amarraram, queimaram, bateram, como mostra o corpo dele. Tava rendido, se quisessem levar preso tinham levado”, diz Sandra. A hipótese da família é que foi um crime premeditado, por vingança pessoal, embora não saibam dizer o que Jesus teria feito ou visto para atrair o ódio dos policiais – um dos membros da equipe envolvida no assassinato já foi flagrado pedindo dinheiro para livrar um suspeito da prisão, mas não foi afastado do batalhão. Também se falou, entre os policiais, que o jovem teria sido morto como queima de arquivo, segundo uma fonte relatou a um familiar de dona Sandra. “Um mês antes do crime, o Guilherme postou nas redes sociais uma foto dessas feitas com inteligência artificial em que ele estava com uma farda do Batalhão de Choque, e escreveu: “Mais um dia de trabalho no 6º Batalhão de Choque kkk”. Não sei se eles se ofenderam com isso”, diz dona Sandra, afirmando que o filho postou a foto porque se achou bonito de farda. À irmã, que comentou que parecia que ele trabalhava mesmo no batalhão, respondeu em tom de brincadeira: “Quem disse que eu não trabalho?”. Guilherme com a foto feita por IA vestindo farda do 6º Batalhão de Choque Ele também contou à família que uma policial da “choque” tinha mandado um convite de amizade por uma rede social, lembra Ana. “Ele me mostrou a foto, era uma mulher branca de cabelos pretos, mas nem prestei muita atenção porque era tarde eu já estava com sono”, ela diz. Eu falei que ela podia ser casada, ele ia arrumar encrenca, e ele falou “é, pode ser uma armação pra cima de mim” e apagou a foto do Instagram. Dias depois ele apagou a foto também do seu perfil no WhatsApp e contou para a mãe que estava vendo uma caminhonete branca passando devagarinho na porta de casa várias vezes, que ele disse que “era a viatura civil da choque”. Mas não relatou outras ameaças à família nem o que poderia ter irritado os policiais. “Eu até disse pra ele, mas tu não deve nada, por que eles viriam atrás de ti?”, ele não falou nada”. Até o momento não há sinal de que os policiais envolvidos vão revelar como e porquê Jesus foi torturado e morreu dentro de casa. O inquérito civil caminha a passos de tartaruga, embora a advogada da família, Franciele Botelho, tenha enviado fotos, vídeos e pedidos de depoimentos que poderiam esclarecer o caso, de acordo com Sandra. Até hoje a família não recebeu nem o laudo do exame de corpo delito – a perícia do corpo foi feita em um posto médico legal que fica no hospital e foi levado de lá para a funerária. No celular de Jesus, recuperado pela família, há um acesso à 1h20 da madrugada do dia 17 de janeiro, quando ele já estava morto. Segundo, Ana, todos os emails foram apagados. “O delegado disse que só vai deixar a gente ver os laudos quando todos ficarem prontos”, diz Sandra. “A advogada entrou com uma ação (cautelar inominada) porque a polícia civil não fez nenhum tipo de diligência, pedimos os laudos e o depoimento das testemunhas”. A advogada afirma que não pode dar entrevistas sobre o caso nem comentar o inquérito, que é sigiloso. Segundo Sandra, os únicos depoimentos que constam no inquérito até o momento são os dela mesma e o dos policiais. “Eu mesma enviei para a delegacia as provas que a perícia não pegou na minha casa, a bermuda que o Guilherme estava usando, um lençol e um chinelo com sangue, meu vestido queimado”, conta. “O delegado tirou férias três dias depois do crime, ficou um mês fora e tirou outra licença, voltou só na semana passada”, reclama. Extraoficialmente, a família já teve informações que nem a arma nem a cocaína que teriam sido encontradas na casa pelo Batalhão de Choque teriam as digitais de Jesus. O exame para a presença de álcool também teria dado negativo. A suspeita da família é que a droga tenha sido “enxertada” na casa dele, como dizem os moradores, acostumados a casos desse tipo – Uruguaiana fica na entrada da ponte sobre o rio Uruguai que leva à Argentina, e é um porto seco de grande movimentação, atraindo o tráfico de drogas e o contrabando. Na semana em que lembramos o golpe militar de 1964, a história de Jesus mostra, na prática, o que disse à **Pública** a professora Maria Gorete Marques de Jesus, da UFSCar: há um cenário bastante parecido ao dos familiares de vítimas da ditadura, que ficaram com a responsabilidade de produzir o ônus da prova dos crimes cometidos pelo Estado (veja reportagem nesse link). “Eu estou cansada, desconfiada, me sentindo sozinha, mas vou até o fim por justiça para o meu filho”, diz Sandra. ## **Outro lado** A **Pública** tentou insistentemente ouvir o delegado Vinícius Seolin, responsável pelo inquérito civil, mas nenhum dos números da delegacia divulgados no site da Secretaria de Segurança Pública funcionava. Os contatos diretos também foram recusados. A assessoria de imprensa da Secretaria de Segurança Pública do Rio Grande do Sul, que centraliza a comunicação da Polícia Civil, disse que há um Inquérito Policial e um Inquérito Policial Militar (IPM) sobre o caso e repete o teor da nota já citada, que foi divulgada pela Brigada Militar. Veja aqui a íntegra da nota.

Portão estourado, luzes acesas: uma história de tortura no Rio Grande do Sul.
- bsapub
apublica.org/2026/04/portao-estourado...
#Portugus #Direitoshumanos #Justia #PolciaMilitar #Violncia

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É uma noite de sexta-feira. Dia 28 de agosto de 2020. Um dia comum de trabalho para o motoboy André Mezzette. De moto, ele havia feito uma entrega de pizza em um bairro da Zona Norte de São Paulo, conta à reportagem. Logo depois, ele estaciona em uma rua para uma breve pausa. Um homem, também de moto, se aproxima e começa a encará-lo. — “Você é ladrão? Você quer roubar alguém?’”, questiona. — “Não, eu sou trabalhador”, responde Mezzette, mostrando a mochila e as comandas da pizzaria. — “Vaza mano, sai fora”, grita o homem, que, na sequência, atinge um soco no rosto do entregador. Depois, o homem saca uma arma, aponta para a cabeça do motoboy e começa a dar coronhadas, chutes e pontapés no entregador. Mezzette sai correndo, grita por socorro, mas o homem o alcança e segue as agressões, o tempo todo apontando a arma para a cabeça do entregador: “Vai ser a sua palavra contra a minha, vou arrumar um B.O. pra você” diz o homem. Só então o entregador percebe que seu agressor é um policial militar. Imagem presente no processo de Mezette mostra momento em que entregador é agredido por policial Em seguida, chegam viaturas da Polícia Militar de São Paulo (PMSP) e Mezzette é levado a um pronto atendimento onde seus diversos ferimentos são tratados. Enquanto o jovem está sendo atendido no hospital, o policial apresenta na delegacia uma ocorrência de tentativa de roubo de sua moto. Sem ouvir o acusado, o delegado determina a detenção em flagrante do rapaz. No dia seguinte, Mezzette é preso. Por sorte, a farsa da sua prisão é revelada por meio de vídeos gravados por moradores do bairro, onde há registros das violências e torturas a que foi submetido. As imagens foram entregues à Justiça e à imprensa, que noticiou o caso com bastante destaque. Mezzette foi solto cinco dias depois da prisão por suposta tentativa de furto. Na época da prisão, com apoio da Defensoria Pública de São Paulo, o motoboy moveu um processo de indenização por danos morais contra o Estado. Mezzette venceu a ação, que transitou em julgado em novembro de 2025. Seis anos depois, em entrevista à **Agência Pública** , Mezzette conta que embora ‘tomar enquadro’ seja parte da rotina de sua vida – “eu saio pra comprar pão e já é tradicional tomar enquadro”, ele diz – a violência que sofreu em 2020 saiu da normalidade. “Ficou tipo um trauma. Por um ano e meio, tive depressão. Hoje, quando eu tô na rua e vejo a polícia, já começo a tremer. Não vivo em paz”, conta. “A violência policial física que ele sofreu pode ser classificada como tortura”, afirma Fernanda Penteado Balera, defensora pública que representou Mezette contra o Estado de São Paulo. “O agente público do Estado agiu deliberadamente para causar a ele [Mezzette] um intenso sofrimento”, diz. Ela explica que casos como esse são muito difíceis de serem levados à frente na esfera criminal, mas na esfera cível “um caso ou outro a gente consegue o reconhecimento de que houve falha do Estado”, explica. Polícia Militar é alvo de denúncias de tortura e violência; casos expõem padrão histórico, fraudes e dificuldade de punição no Brasil ## **Uma explosão de violência nas mãos de uma família** Em Uruguaiana (RS), na fronteira da Argentina, Guilherme Moisés de Jesus, segurança e “chapa” – carregador de caminhões – não sobreviveu para lutar por Justiça. No dia 16 de janeiro deste ano, a casa onde morava com a mãe, Sandra, foi invadida por oito policiais do 6º Batalhão de Choque. Os vizinhos ouviram os gritos desesperados do rapaz, que, menos de duas horas depois, chegou morto à Santa Casa de Caridade. Quando perguntou pelo irmão no hospital, Ana, a irmã mais velha de Jesus, ouviu como resposta do médico: “ó, entra ali, maninha, pra tu ver como eles deixaram ele aqui”. Ela demorou a reconhecer o irmão. “Ele tava sem camisa e o tórax dele totalmente roxo, com um hematoma grande, tipo uma paulada, perto do coração. O rosto também estava roxo, muito inchado, a cabeça muito, muito inchada. As mãos estavam queimadas em vários pontos, os pulsos muito machucados. Ele estava com os olhos e a boca entreabertos, e eu vi que tinha sangue por dentro da boca e que as narinas dele estavam tapadas de terra.” Até hoje, a mãe de Jesus, Sandra, não consegue entender o motivo de tanta violência contra o filho, que nunca foi preso nem acusado de nenhum crime (leia a reportagem completa sobre o caso aqui). Policiais do 6º Batalhão de Choque invadem casa, espancam homem e ele chega morto ao hospital; família denuncia tortura Sandra visita a delegacia com frequência e busca ajuda onde pode: liderou manifestações pedindo respostas para o crime contra o seu filho, aproximou-se de movimentos que lutam por familiares de vítimas de agentes de Estado, como as “Mães de Maio”, contratou uma advogada, reuniu evidências, vídeos e fotografias. Mas sente o peso de lutar sozinha sem respostas dos órgãos públicos. Dois meses depois da morte de Jesus, a família não teve acesso nem ao laudo médico-legal, e a mãe diz que nenhuma testemunha foi ouvida pelo delegado. “Só eu prestei depoimento nesse inquérito e também fui eu quem levou as provas que a perícia abandonou na casa para a delegacia. A bermuda dele molhada, no box do chuveiro, ainda com o maço de cigarros no bolso, roupas minhas queimadas, lençol e chinelo sujos de sangue, até a cama que ele dormia sumiu”, conta. Depois que o caso foi divulgado na imprensa gaúcha, a Brigada Militar declarou ter aberto um procedimento investigatório e afastado os policiais envolvidos. E enviou uma nota que traz uma versão da morte de Jesus que não combina com as marcas de tortura no corpo, fotografadas pela família: “após a contenção física e algemação, o indivíduo apresentou mal súbito, vindo a perder a consciência. De imediato, a guarnição prestou atendimento pré-hospitalar, realizando manobras de ressuscitação cardiopulmonar (RCP), e procedeu o encaminhamento ao Pronto Socorro. Após o referido atendimento médico, foi constatado o óbito”. Essa prática se repete desde os “teatrinhos” da ditadura – como os policiais de então chamavam as versões que inventavam para justificar a morte sob tortura de presos políticos. E que ainda encontra eco em todas as instâncias do Judiciário, como explica a defensora Mariana Py Muniz, autora do livro “Polícia para quem precisa de Justiça”. “Existe uma blindagem da prática policial nas estruturas do Judiciário, por isso tanto nas investigações como nas decisões judiciais prevalece a crença na palavra do policial, que opera para o descrédito da vítima e encoraja a violência”, explica, acrescentando que o estigma se estende à família da vítima que luta por Justiça. ## **Juízes relutam diante das vítimas** Muniz, que participou da criação do Núcleo de Defesa de Direitos Humanos da Defensoria do Rio Grande do Sul, conta que passou a investigar a relação entre o sistema de Justiça e a violência policial depois de perceber que maus tratos em abordagens, torturas e homicídios pela polícia representavam a esmagadora maioria dos casos que chegavam ao núcleo. “Tivemos um atrito com o Ministério Público, porque ele sequer respondia aos nossos ofícios, fui percebendo que o Direito não dava respostas ao que eu via, que o sistema de Justiça não enxergava as vítimas de violência de Estado por isso eu acabei fazendo meu doutorado nas Ciências Sociais”, explica. Durante a pesquisa para o doutorado, Muniz analisou 75 ações indenizatórias, observou audiências de custódia e fez entrevistas com vários magistrados. A conclusão é de que os juízes acabam assumindo “visões muito parecidas com a dos policiais”. “Há todo um estigma dessa vítima, de que ela está mentindo para se beneficiar, está querendo acusar o policial injustamente. Como um juiz me falou, ‘eu preciso da polícia para julgar. Se eu não tiver a polícia, eu não julgo’”, conta a defensora. É também por isso que o uso das câmeras corporais pelos policiais é crucial para coibir a violência, já que a apuração dos fatos passa a não depender tanto da palavra dos próprios agentes. Também no Rio Grande do Sul, quatro policiais militares foram condenados em março deste ano depois de invadir duas residências e submeter as vítimas ao que o Ministério Público definiu como “rodízio de terror”, com três pessoas sendo torturadas de forma alternada. O uso de câmeras corporais foi decisivo para a condenação, como explica a promotora Anelise Haertel Grehs. “Eles bloquearam as imagens mas o áudio continuou aberto e aí o auge da tortura foi capturado”, conta a promotora, destacando que a investigação decorreu da própria Corregedoria Geral da Brigada Militar, que instaurou também um inquérito policial militar. “Claro que também foram ouvidas as vítimas, mas em muitos casos, por temor, nós acabamos não conseguindo o depoimento das vítimas em juízo, ou muitas vezes o depoimento delas acaba não sendo levado em conta, ou melhor dizendo, não tendo a mesma credibilidade que uma prova pericial”, explica. O uso de câmeras corporais é obrigatório em Porto Alegre e na maioria das cidades da região metropolitana, com exceção do batalhão de choque e do BOPE. Como o interior do estado é policiado por seis batalhões de choque, um de cada região, os policiais que levaram Jesus morto ao pronto-socorro de Uruguaiana não usavam o equipamento. O uso de câmeras corporais “pela choque”, como eles dizem, é uma das reivindicações da família e amigos de Jesus. Câmera corporal registra ação policial e pode ser decisiva para comprovar abusos e tortura ignorados pela Justiça ## **Tortura policial é herança da ditadura** Histórias como as de Mezette e Jesus não são casos isolados de tortura e violência policial. Eles fazem parte da realidade do país, embora não haja estatísticas oficiais que contabilizem casos de tortura cometidos por agentes do Estado. Passados 41 anos desde o fim da ditadura civil-militar (1964-1985), quando a tortura era utilizada de forma generalizada contra opositores do regime, a prática de torturar segue uma realidade em espaços de privação de liberdade do país, assim como em abordagens policiais, especialmente em bairros periféricos e contra pessoas negras. É importante lembrar que a tortura não foi inventada pela ditadura militar, uma vez que já vinha sendo utilizada sistematicamente no Brasil desde a escravidão. “Com a transição [da ditadura para a democracia] muito do que tinha na segurança pública ficou mantido. E a tortura e a violência contra os grupos marginalizados na ditadura têm um contínuo na democracia”, afirma Maria Gorete Marques de Jesus, Professora do Departamento de Sociologia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Para a defensora Fernanda Balera, “a não responsabilização dos crimes de tortura que ocorreram na ditadura acaba dando ensejo para que hoje haja uma polícia que ainda é estruturada de forma militar, o que de certa forma também é um resquício da ditadura. Não houve uma reforma efetiva da polícia no período democrático”. A impunidade dos agentes que cometeram crimes de assasinato e tortura é tratada no recém-lançado livro _Nunca Mais_ , do jornalista Camilo Vannuchi, onde ele reconstrói os bastidores do projeto _Brasil: Nunca Mais_ , publicado em 1985 pela primeira vez. O trabalho foi uma iniciativa secreta que copiou e analisou 707 processos do Superior Tribunal Militar, identificou 444 torturadores e mapeou 242 centros de tortura. “Nos meus trabalhos, não estou falando do passado. Estou falando do presente, estou falando do futuro”, explica Vannuchi. O fato de, entre os 444 torturadores citados na obra, “nenhum deles ter sido colocado no banco dos réus, nenhum deles ter sido condenado indica que qualquer pessoa pode torturar na delegacia, no morro, nas quebradas. A ideia é de que a tortura de ontem funciona como um salvo conduto, um estímulo à tortura de hoje”, diz. Para quem vive nas periferias, “apanhar de polícia na rua é tão normal quanto beber água. Eu tô acostumado a apanhar, levar soco mesmo”, afirma Mezette, que faz coro à frase usada por ativistas que denunciam a violência policial hoje, “nas favelas, a ditadura nunca acabou”. “Mas nunca acabou mesmo, e não vai chegar nem perto de acabar. Ela acabou para quem mora num bairro bom, ou numa bolha”, completa. Repressão policial durante manifestação estudantil contra a Ditadura Militar ## **Lei da tortura vai completar 30 anos** Após o final da ditadura, a Constituição de 1988 estabeleceu que “ninguém será submetido a tortura nem a tratamento desumano ou degradante”, mas foi só em 1997 que o dispositivo foi regulamentado com a sanção da lei 9.455, que define o crime de tortura no Brasil. De acordo com a lei, constitui crime de tortura constranger alguém com violência ou grave ameaça, causando sofrimento físico ou mental, para obter confissões, provocar ações criminosas ou por motivos discriminatórios. Na avaliação da defensora pública Fernanda Balera, a lei, que vai completar 30 anos no ano que vem, é um avanço “por permitir nomear uma prática. Temos um repertório para identificar quando um caso é de tortura”, afirma. Porém, avalia, há dificuldades, “pois ainda não há uma política bem estruturada em nível nacional, tanto de acesso à informação como de prevenção e combate à tortura”. Para a professora Maria Gorete Marques de Jesus, da UfSCar, há algumas legislações interessantes, mas que são incapazes de dar conta quando as torturas são promovidas por um agente estatal, afirma. Hoje, segundo ela, há um cenário bastante parecido ao dos familiares de vítimas da ditadura, que ficaram com a responsabilidade de produzir o ônus da prova dos crimes cometidos pelo Estado. “Elas assumem o papel de correr atrás da justiça, das provas, acolher as vítimas, entrar em contato com a promotoria…Não há uma organização do poder público, com uma política consolidada, apesar de experiências em alguns estados”. As experiências nos estados às quais ela se refere são os Mecanismos Estaduais de Prevenção e Combate à Tortura (MEPCT), órgãos independentes criados por leis estaduais para fiscalizar locais de privação de liberdade (presídios, delegacias, abrigos). Compostos por peritos da sociedade civil, eles visitam unidades, entrevistam pessoas presas e recomendam medidas para prevenir a tortura e maus-tratos. Eles existem em alguns estados e em âmbito nacional em função do Mecanismo Nacional de Prevenção e Combate à Tortura, que faz parte do Sistema Nacional de Prevenção e Combate à Tortura, aprovado pela lei 12.847, em 12 de agosto de 2013, ligado ao Ministério dos Direitos Humanos. “O mecanismo tem alguns problemas, como peritos que às vezes não são remunerados, e não dá para dizer que temos uma política pública estruturada coletando dados, pesquisando, fazendo relatórios sobre a questão da tortura”, diz Fernanda. Para Gorete, a dificuldade do Estado em conseguir sistematizar dados sobre tortura é uma espécie de legado da ditadura. “O que não é registrado não existe. Se a gente tivesse um sistema de produção desses registros de casos a gente levanta o problema, mas quando a gente não tem essa sistematização o problema não é tornado real”, pontua. ## **Falta entendimento do que é tortura no Brasil** Outro desafio em relação ao combate à tortura no país, apontam especialistas, é a compreensão do que é visto como tortura por parte dos agentes do direito. “Temos a legislação, mas se concretamente quem tem papel de atuar de forma incisiva sobre o caso e não reconhece isso como tortura acaba normatizando uma violência contra um grupo específico”, afirma Gorete. Um exemplo disso é o que ocorre em audiências de custódia. Elas são momentos em que o preso em flagrante é apresentado ao juiz 24 horas após a detenção para que se decida se a prisão será mantida ou não. A audiência de custódia foi implementada no Brasil em fevereiro de 2015 pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Além de avaliar a legalidade da prisão, o objetivo da audiência é averiguar possíveis casos de violência policial e tortura praticadas contra presos. O relatório _Caminhos da tortura na Justiça juvenil brasileira: o papel do Poder Judiciário_ , encomendado pelo CNJ e publicado em 2025 analisa audiências de apresentação (equivalentes às audiências de custódia) de adolescentes. O levantamento foi feito entre setembro de 2023 e setembro de 2024 em seis estados do país para entender como ocorre a tortura contra os adolescentes e como magistrados agem nesses casos. Foram estudadas 185 audiências e em apenas 38% delas os magistrados questionaram os adolescentes sobre como foram realizadas as abordagens. Em 18,9% houve questionamento direto sobre tortura. Foram feitas 23 denúncias de tortura e em 91,3% delas os autores da violências foram policiais militares. De acordo com o documento, houve relatos de violências físicas e psicológicas, incluindo ameaças de morte. Entre as violências, há socos, chutes, asfixias, tapas, choques, afogamentos, atropelamentos. São usados como instrumentos mãos, pés, cassetetes, armas de fogo, alicates, teasers, spray de pimenta, paus e veículos automotores.. Segundo a pesquisa, o tema da tortura aparece muito pouco nas audiências de apresentação, porque os juízes não perguntam diretamente ao adolescente. ## **Na prática, audiências fazem pouco para investigar e punir tortura** Na avaliação da defensora Fernanda Balera, a criação da audiências de custódia veio com uma grande expectativa de ser mais um mecanismo de combate e prevenção à tortura. “Mas, na prática, o que fomos vendo é que os agentes que estavam na audiência de custódia, tanto juiz, promotor ou defensor, eles pouco se responsabilizavam sobre a apuração daqueles casos”, diz. Ela conta que a Defensoria Pública de São Paulo criou um formulário para defensores que atuam nas audiências de custódia para coleta de dados de violência e tortura. Os dados foram coletados entre 2023 e 2024. Foram 146 casos de violência registrados a partir da autodeclaração da pessoa, a maior parte da violência era física, em 80% dos casos ela acontecia no momento da abordagem e em 50% dos casos tinha algum indício de lesão corporal. A maior responsável pelos atos de violência, segundo a pesquisa, foi a polícia militar, em 74% dos casos. E em 70% dos casos não houve atendimento médico após a violência. “Também chama a atenção que nesses casos, o juiz da custódia apenas encaminhava o caso pra corregedoria do órgão do agente que tinha praticado a violência, sem a preocupação de investigar o crime de tortura”, aponta Fernanda Balera.

Da ditadura à democracia, tortura segue praticada e falta punição.
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Quanto custa montar um aparato repressivo? Em setembro de 1969, a Força Pública do Estado de São Paulo encaminhou ao governador do Estado um orçamento para a constituição de um “Plano de Mobilização Anti-Insurrecional” no valor total de 7.253.100 cruzeiros novos, a moeda da época, pouco depois da constituição da Operação Bandeirante, a Oban. Criada em julho de 1969, na esteira do Ato Institucional nº 5, de 13 de dezembro de 1968, a Oban era um órgão semiclandestino e supostamente não possuía verba oficial para operar. Nos primórdios, funcionou nas dependências do 2º Batalhão da Polícia do Exército, na rua Tomás Carvalhal, Vila Mariana, cidade de São Paulo. Mas a quantidade de presos aumentou, assim como a quantidade de pessoas envolvidas no órgão, e foi necessário mudar de local. Foi quando o governador Abreu Sodré cedeu parte das dependências nos fundos da 36ª Delegacia de Polícia que ficava na rua Tutoia, onde passou a funcionar efetivamente. Para ajudar, o prefeito da cidade à época, Paulo Maluf, mandou que fossem instalados postes de iluminação e asfaltou uma área próxima ao distrito policial, na avenida Sargento Mario Kozel Filho, cujo nome foi dado em 13 de agosto de 1969. Na mesma época, a prefeitura gastou 140 mil cruzeiros novos em uma construção para isolar o Quartel General do II Exército. “Havia uma corrida para reorganizar a repressão e a Força Pública, sugere este documento, que parece buscar os recursos para se transformar na Polícia Militar”, avalia Marcelo Godoy, autor do _A Casa da Vovó_ – uma biografia do DOI-Codi (2014). Ao propor um orçamento para sua atuação como “força anti-insurrecional”, a Força Pública de São Paulo inseria-se no debate sobre a segurança pública imaginada pelo regime militar. As datas e valores corroboram a ideia que o investimento do Estado nesse Plano foi aproveitado na estrutura da Oban/DOI-Codi, mas não se conhece comprovação documental desse fato. Ligada ao II Exército, a Oban ganhou o nome de DOI-Codi (Destacamento de Operações e Informações – Centro de Operações de Defesa Interna) em 1970, quando o sistema passou a ser institucionalizado, antes de se espalhar pelo país. Ainda em 1969, a Força Pública do Estado foi transformada pelo governo ditatorial na Polícia Militar como parte da reorganização da repressão política e também para crimes comuns. A essa altura, a força da guerrilha armada já não era segredo: em 13 de agosto de 1969, a revista _Veja_ colocara em sua capa o título “Os terroristas – Quem são? Onde estão? O que querem?” O valor do orçamento elaborado pela Força Pública, atualizado até novembro de 2025 pelo IGP-DI (FGV), alcança a casa de R$ 83,8 milhões. A título de comparação, a indenização para vítimas da ditadura militar no Brasil – mortos e desaparecidos políticos – é calculada com base em critérios estabelecidos por lei. Esse valor máximo hoje é de R$ 100 mil – ou seja, o orçamento para criação de um aparato de repressão tal qual planejado seria suficiente para indenizar 838 vítimas da ditadura no país. Era também um valor maior do que o previsto para o policiamento motorizado do Estado, de acordo com o próprio autor do documento. Para o policiamento, estariam previstos, em 1969, 5.617.862 cruzeiros novos – mas o recurso teria sido totalmente cortado. ## **Os militares que assinaram o orçamento** Localizado no Arquivo do Estado de São Paulo por pesquisadores que subsidiaram os trabalhos da Comissão Nacional da Verdade, o orçamento foi encaminhado ao então governador Roberto Abreu Sodré em 9 de setembro de 1969 (pouco mais de três semanas após a reportagem da _Veja_) pelo General Olavo Viana Moog (que atualmente dá nome a uma escola estadual no Jardim Celeste, na zona oeste de São Paulo). Na primeira página dele, uma anotação à mão pede “muita atenção a esse pedido”, seguida da assinatura de Moog e antecedida pela definição, essa a máquina, de “reservado”. Moog ocupou o cargo de secretário de Segurança de São Paulo entre agosto de 1969 e março de 1970. Depois, foi um dos responsáveis pela repressão aos guerrilheiros do PC do B na Guerrilha do Araguaia, no início da década de 1970. A proposta de reequipamento da Força Pública foi aprovada pelo coronel Confúcio Danton de Paula Avelino, de acordo com o despacho nº 23-607/F4. O comandante geral da corporação determinou ainda a elaboração de lista de preços para custeio das despesas apontadas no relatório, no que foi prontamente atendido, de acordo com o ofício nº 1-047-S01, pelo chefe do Serviço de Finanças da Força Pública, major Eleuses Dias Peixoto. “Documentos administrativos têm muito a contar sobre a forma de funcionamento dos órgãos de repressão. Cada vez mais, a busca em arquivos não convencionais traz informações que, associadas a documentos da Oban/DOI-Codi, elucidam dúvidas e lacunas”, avalia a historiadora Deborah Neves, coordenadora do GT Memorial DOI-Codi e pesquisadora da Unifesp, autora da tese _Construindo o Poder; ditadura e obras públicas em São Paulo_ (1965-1978). Ela também é autora do livro “ _A persistência do passado_ : patrimônio e memoriais da ditadura em São Paulo e Buenos Aires”. Ato Público de Memória “DOI-Codi 50 anos do golpe”, em 2014. “Foi assim durante o estudo de tombamento que identificamos na Procuradoria do Patrimônio Imobiliário o processo que tratou da cessão do terreno da Rua Tomás de Carvalhal firmada entre o Governo do Estado de São Paulo e o II Exército, além da identificação do Projeto de Lei que viabilizou a construção do muro do Quartel por parte da Prefeitura de São Paulo. Esses documentos provam a articulação no uso do orçamento dos diferentes entes federativos para atuar na repressão”, diz Neves. O orçamento feito pelo major Eleuses Dias Peixoto tem um preâmbulo, um plano de mobilização contra as forças anti-insurrecionais assinado pelo coronel João Áureo Campanha que detalha as necessidades materiais e de organização de uma Força Anti-Insurrecional. Neste texto, Campanha avalia que “a Força Pública não tem condições de concentrar seus efetivos, a não ser que prejudique os serviços policiais. Entretanto, as unidades do Exército Brasileiro, que estão, estrategicamente, localizadas no Estado, possuem a necessária concentração de forças”. No desenho feito pelo coronel, “a solução consequente será coordenar os órgãos de segurança da corporação com as unidades do Exército Brasileiro”. O coronel prevê ainda que toda operação que supere o âmbito regional deve ser coordenada pelo Estado Maior da Força Pública e que “dispositivos especiais deverão ser montados visando surpreender o inimigo em suas atividades” – para Campanha, toda ação policial deve ser “ofensiva”, “seja no combate à delinquência comum, seja contra dispositivos de insurreição armada”. Para Marcelo Godoy, o fortalecimento da repressão exigia alguma acomodação entre a Polícia Civil, a Força Pública e o Exército. A elaboração deste documento pela Força Pública mostra uma disposição deste grupo policial com a ideia de colaborar fortemente na repressão política e, assim, colocar-se também numa posição de disputar os recursos para se reequipar e se expandir. De acordo com o livro _A Casa da Vovó_ , a Polícia Militar, criada a partir da Força Pública, “forneceu ao longo dos anos 70% do pessoal” do DOI-Codi, que atuou em “todos os setores da unidade”. Antes de chegar a Moog, o relatório de Campanha e o orçamento de Peixoto foram entregues e aprovados pelo então coronel Confúcio Danton de Paula Avelino. ## **A contribuição de banqueiros e empresários** O custo da compra de equipamentos coincide com um número igualmente relevante para o período: o valor supostamente arrecadado por banqueiros e empresários durante encontro realizado no Clube São Paulo, no casarão que pertenceu à Dona Veridiana da Silva Prado, na Rua Dona Veridiana, em Higienópolis, na mesma época. O jornalista Elio Gaspari afirma, em seu livro _A ditadura escancarada_(2002), que “a reestruturação da PE [Polícia do Exército] paulista e a Operação Bandeirante foram socorridas por uma ‘caixinha’ a que compareceu o empresariado paulista” no segundo semestre de 1969. Gaspari se baseou em documentos dos arquivos de Golbery do Couto e Silva e Ernesto Geisel, entre outros, além de série de entrevistas concedidas pelo ex-governador de SP Paulo Egydio Martins (1988), o empresário Paulo Sawaya (1990) e o banqueiro Gastão Vidigal (1995). Golbery foi general do Exército e um dos principais ideólogos da ditadura militar no Brasil. Esteve à frente do Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (Ipes), criado em 1961 com o objetivo de defender a iniciativa privada e, principalmente, conspirar politicamente contra governos nacionalistas considerados de esquerda. Ele esteve à frente do SNI durante sua criação em 1964 e manteve enorme influência entre 1960 e 1970, tendo ocupado a Casa Civil do governo do presidente Ernesto Geisel (1975-1979). Ainda segundo Gaspari, o recolhimento de contribuições para financiar o que chamavam de luta contra a subversão foi feita dentro do clube dos banqueiros (oficialmente o nome era Clube São Paulo, um lugar de reuniões da aristocracia e empresariado paulista), que pertencia a Gastão Vidigal, dono do Banco Mercantil de São Paulo, e irmão de Luís Eulálio Bueno Vidigal, dirigente da Cobrasma, onde, em 1968, uma grande greve metalúrgica foi reprimida com ajuda de blindados do Exército. Na citação de Gaspari, sobre a reunião no palacete, é informado ainda que o ministro Antonio Delfim Netto apresentou aos empresários o problema da falta de verbas para a estruturação ao combate à repressão em São Paulo. Eles então assumiram o compromisso de pagar os gastos. Foi Gastão Vidigal quem “mencionou a cifra (‘500 milhões’), mas não se mostrou seguro a seu respeito. Lembra-se, contudo, que ‘era muito dinheiro’”. Um encontro especial no segundo semestre de 1969 contou com a presença de donos de pelo menos 15 grandes instituições financeiras. De acordo com o jornalista, Vidigal havia fixado em 500 mil cruzeiros novos a contribuição aos benemerentes presentes nesse encontro no Clube São Paulo. Aqui, é relevante fazer a conta: 500.000 x 15 = 7.500.000, ou apenas 246.900 cruzeiros novos a mais do que o indicado no orçamento. Apesar desta coincidência de número, Godoy avalia que o orçamento da Força Pública não deve ter sido feito para a constituição da Oban, embora faça parte do contexto de transformações no aparato repressivo da época. Outros pesquisadores também registram as reuniões de empresários na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e os encontros no Clube São Paulo. René Dreifuss, em _1964: A conquista do Estado. Ação política, poder e golpe de classe_ (1981) também conta a história do financiamento da Oban. Os almoços no palacete da Dona Veridiana, feitos só para homens convidados por Gastão Vidigal eram frequentes, praticamente semanais. Discutia-se política e economia. Foi numa dessas reuniões que primeiro se passou o chapéu para o aparelhamento da Oban, segundo ele. Dreifuss também registra a presença de Delfim Netto e de 15 outros sócios num almoço entre agosto e setembro de 1969. Gastão Vidigal e Delfim, então ministro da Fazenda, teriam pedido a ajuda financeira para montar a Oban. O orçamento, neste caso, pode ter sido feito antes ou depois dela, ou seja, pode ter sido montado em torno do valor arrecadado (na hipótese de se inserir numa disputa pelos recursos) ou, num outro sentido, ter orientado o valor das doações. ## **Prática recorrente de financiamento, segundo os relatos** Os comensais já estavam acostumados com tal tipo de solicitação. Meses antes já haviam participado, e contribuído, com outra ‘caixinha’, para ampliar o efetivo da Polícia do Exército na capital. Tal ajuda financeira foi assim descrita pelo general Ernani Ayrosa da Silva, que chefiou o Estado-Maior do II Exército, em São Paulo, de maio de 1969 a janeiro de 1971, de acordo com descrição feita pelo ex-comandante do DOI-Codi, o major Carlos Alberto Brilhante Ustra, no livro _A verdade sufocada_ (2007): “Por uma solicitação do general Canavarro ao Ministro, antes de atingirmos um mês de Comando, já recebíamos autorização para ampliar o efetivo da Polícia do Exército, de Companhia para Batalhão. Somente um óbice iríamos enfrentar: não receberíamos nenhuma ajuda em recursos para a transformação do quartel e melhoria das precárias instalações. Não nos intimidamos com a realidade. Surge aqui com muito vigor a presença infinitamente grande de uma pessoa que já convivia conosco e que de pronto assumiu o encargo de coordenar os recursos para a ampliação do quartel que abrigava 200 homens para 960 policiais”, afirma Ustra no livro, referindo-se ao general Canavarro. Outro jornalista, Sebastião Pereira da Costa, no livro _Não verás nenhum país como este: um relato cronológico da violência e do arbítrio_ , avança mais um pouco no debate sobre a atualização do material e equipamento do aparelho repressivo, através do provimento de capitais privados para a reestruturação das operações militares e policiais contra o inimigo interno. Costa indaga, justamente, acerca da proveniência do financiamento e da cooperação econômica e de agentes privados com a Oban: “E onde conseguir os recursos para tocar essa máquina monstruosa, visto que era um órgão paramilitar e extraoficial? Fácil. Assim como os perdigueiros farejam perdiz a quilômetros de distância, há gente que fareja dinheiro. Corre daqui e dali, alguns telefonemas. Pronto”. Sebastião Pereira da Costa dá nomes: “o grupo Ultra, por seu diretor, Henry Boilesen, a General Motors, a Ford, a Mercedes e a Brown-Boveri e empresários nacionais, contatados por Fuad Lutfalla, se dispõem a bancar os custos da Oban, que se instala, provisoriamente, nas dependências do 36º Distrito Policial, na rua Tutoia, bairro do Paraíso, em São Paulo”. Boilesen frequentava as sessões de tortura na Tutoia e foi morto por um comando da Aliança Libertadora Nacional em abril de 1971. Conforme registro de pesquisa de René Armand Dreifuss, desde os tempos da conspiração das classes proprietárias e dominantes aglutinadas no complexo Ipes, em São Paulo, o grupo Fuad Lutfalla dispunha dos serviços jurídicos do advogado Alfredo Buzaid, além de se vincular, familiar e economicamente, ao político Paulo Salim Maluf, casado com Sylvia Lutfalla Maluf. O cientista político Moniz Bandeira, no livro _Cartéis e desnacionalização. A experiência brasileira_ (1975) destaca um artigo do jornalista Manfred von Conta, do _Süddeutsche Zeitung_ , de Munique, Alemanha, que informa que “as iniciativas de setores radicais do regime e do industrial Henning Boilesen, do Grupo Ultra, se deveram à institucionalização, em 1969, dessas contribuições financeiras, para a formação de um fundo destinado a subvencionar a repressão política”. Boilesen atuava, também, como membro do Conselho Orientador do Ipes São Paulo, ao lado de outras figuras do empresariado paulista ligado ao regime militar. Em sua obra, René Armand Dreifuss acrescenta que “incluía-se entre os responsáveis pela consolidação de um esquema de apoio financeiro para o aparelho repressivo da polícia e das Forças Armadas. H. Boilesen reuniu um grupo de empresários que contribuíam financeiramente e forneciam equipamentos para as organizações de segurança. Esse apoio mostrava uma outra dimensão da coordenação entre empresários e militares”. O Ipes São Paulo teve entre seus fundadores João Baptista Leopoldo Figueiredo, que era primo do ex-presidente general João Baptista Figueiredo. Segundo o jornalista Elio Gaspari, no já citado _A ditadura escancarada_ , embora desde 1964 fosse semeada “a associação entre interesses empresariais e os da segurança”, esta relação colaborativa e solidariedade política, econômica e militar, de fato, “floresceu em julho de 1969”. “A Fiesp atirou com um manifesto em que denunciou o ‘vandalismo’ das ‘falanges da subversão e do genocídio’. O presidente da Federação do Comércio, José Papa Jr., garantiu sua solidariedade às Forças Armadas, ‘que se cobriram de glórias nas trincheiras e nos céus da Europa’ […] Chegou o momento de dizer basta!, acrescentou o presidente da Confederação Nacional do Comércio, Jessé Pinto Freire. O governador Abreu Sodré advertiu: ‘Não há lugar para fracos ou covardes na presente situação: ou se está a favor da ordem que constrói ou pela desordem que destrói’”. O texto ainda apresenta mais detalhes da colaboração de empresários paulistas para com a repressão promovida pela ditadura. Importante citar que já naquela época a federação dos industriais mantinha uma diretoria formada por militares. No filme _Cidadão Boilesen_ , o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso faz uma avaliação do significado da contribuição dos empresários para a repressão. “Isso foi importante politicamente para o regime, porque solidarizaram-se setores empresariais com o regime: ‘vocês também estão com a mão aqui’. Não é por causa do dinheiro em si, dinheiro, o governo tinha, foi um apoio político, selado através do dinheiro”. ## **Inimigos internos: quem eram os alvos da operação** Diagrama apresenta o que os militares chamavam de “Mecanismo da Subversão”; nele estão ‘potências estrangeiras’, ‘agente locais’, ‘sistema de segurança’, ‘sistema econômico’, ‘estrutura psico-social’ e ‘sistema político’ O documento da Força Pública apresenta um desenho de como deveria ser o combate à esquerda e afirma haver a necessidade de renovar os equipamentos e materiais utilizados na luta contra os “inimigos internos”. A polícia, segundo o Plano Político e Militar de Segurança Interna, estava defasada e não possuía os equipamentos necessários para combater os supostos subversivos. A lista de compras presente no orçamento possui diversos itens, que vão desde veículos até linhas telefônicas e outros itens que foram incorporados por militares no combate aos opositores do golpe militar. O objetivo era comprar 100 viaturas para a Rádio Patrulha; 10 carros de transporte de presos e recuperação de 60 viaturas. Para as operações anti-insurrecionais seriam compradas 8 caminhonetes para transporte de materiais, 8 furgões e 5 peruas. Já para as operações de surpresa e assalto seriam necessários 10 caminhões 4 x 4 para transporte de tropa, 50 geradores portáteis e respectivos conjuntos de iluminação. Também pede a aquisição de 54 armários de aço, com chave de segredo, para guardar armas. O negócio incluiria ainda obras de instalação de um Centro de Operações e Comunicações, 300 transceptores VHF móvel, 100 rádios HT e 50 linhas telefônicas da Companhia Telefônica Brasileira; combustível, lubrificantes e manutenção de viaturas durante período de quatro meses e reforço de alimentação dos agentes. Nessa época, não havia um centro de recepção de chamados policiais (como funciona hoje o número 190), e essa questão parecia ser urgente para a Força Pública. Todos esses veículos listados – perua, viaturas básicas, furgões, camionete, picape, caminhões de transporte de tropas e de carga – tinham como fabricantes e fornecedores General Motors, Volkswagen, Ford, Scania, Mercedes Benz, Chrysler e FNM. São empresas que tiveram seus nomes atrelados à cooperação para com a repressão militar aos opositores da ditadura e lideranças de trabalhadores e de organizações civis, além, claro, de constar no relatório final da Comissão Nacional da Verdade (CNV). Segundo destaca o jornalista Marcelo Godoy no seu livro, para equipar o Exército no combate à subversão, montadoras de veículos, como Volkswagen, GM e Ford, enviaram carros à Oban. Além das fabricantes de veículos, destaca o repórter, outras empresas colaboraram para o funcionamento da Oban/DOI-Codi. “A Supergel mandava comida congelada, que se transformava nas quentinhas do DOI, e a Ultragaz emprestava-lhe caminhões”. ## **Orçamento foi localizado em pesquisas para a Comissão Nacional da Verdade (CNV)** O orçamento da Força Pública para a ação anti-insurrecional está detalhado no livro _Repressão sociedade anônima – Banqueiros, fabricantes de veículos e metalúrgicas na repressão aos trabalhadores na ditadura militar_ , de Eduardo Reina e Maria Angélica Ferrasoli, que será lançado pela Alameda Casa Editorial no início de 2026. A documentação foi localizada pela equipe de pesquisadores coordenada por Joana Monteleone e Haroldo Ceravolo Sereza em 2013, num trabalho para subsidiar a Comissão Nacional da Verdade. Em 2016, eles, junto com Rodolfo Machado, Vítor Sion e Felipe Amorim, lançaram o livro _À espera da verdade_ – histórias de civis que fizeram a ditadura militar, também publicado pela Alameda. Havia, por parte dos pesquisadores, alguma dúvida se a peça tinha tido uso ou não para a criação da Oban, o que ainda permanece como uma dúvida. O cruzamento com os valores declarados por testemunhas, feito recentemente pelos jornalistas Eduardo Reina e Maria Angélica Ferrasoli, por outro lado, deu a certeza de que o orçamento em alguma medida foi relevante no contexto, podendo ter sido resultado ou um dos fatores ligados à reorganização repressiva do período. A leitura do documento permite inferir, também, que o desenho institucional do DOI-Codi, combinando a participação de militares do Exército e policiais civis e militares de São Paulo, também estava ligado ao contexto em que o documento foi produzido.

Ditadura: Polícia de SP tinha orçamento de R$ 84 milhões para montar aparato repressivo.
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