Advertisement · 728 × 90
#
Hashtag
#Portugus
Advertisement · 728 × 90
Evolução dos TT nas últimas horas

Evolução dos TT nas últimas horas

Trending Topics Brasil:
1- Aparentemente (+9▲)
2- Atenção (+8▲)
3- Brasileirão (🔥)
4- Peruco (🔥)
5- Nato (+5▲)
6- Previa (+4▲)
7- #GranadaEnJuego (-4▼)
8- Noticia (-4▼)
9- #Portugus (-1▼)
10- #Direitoshumanos (-1▼)

✉️419|🙍‍236 |⏳60m
V0.21

0 0 0 0
Evolução dos TT nas últimas horas

Evolução dos TT nas últimas horas

Trending Topics Brasil:
1- Salvador (+7▲)
2- Ministério Público (+8▲)
3- #GranadaEnJuego (+7▲)
4- Noticia (+6▲)
5- #Catolicismo (+5▲)
6- Valdemar (+4▲)
7- Molchat Doma (+3▲)
8- #Portugus (🔥)
9- #Direitoshumanos (🔥)
10- Se Eu N (🔥)

✉️360|🙍‍215 |⏳60m
V0.21

0 0 0 0
Há quarenta anos, o último domingo de março deixou de ser apenas um dia no calendário para José. Transformou-se em um rito, uma peregrinação solitária que ele cumpria com devoção até o antigo DOI-CODI, um porão da tortura no Brasil ditatorial. Quando os velhos amigos daquela época sombria, companheiros das prisões no Congresso da UNE em Ibiúna, perguntavam o motivo de tal penitência, a resposta vinha serena: “Não é por mim, é por Maria”. O tempo, que costuma apagar tantas coisas, trouxe companhia a José. Desde 2019, as ruas de São Paulo passaram a abrigar a Caminhada do Silêncio. Velhos camaradas da geração de 1968 juntaram-se a jovens militantes em uma marcha sem palavras de ordem, sem cânticos inflamados. Apenas passos mudos, lutando pela memória, pela verdade e pela justiça, lembrando as vítimas de um Estado que se voltou contra os seus. A caminhada percorre o que chamam de “circuito militar”. Parte daquele conjunto de edifícios onde funcionou a maior máquina de dor da ditadura brasileira. A multidão silenciosa avança, passa pela praça que homenageia os pracinhas da Segunda Guerra, desce a Abílio Soares e cruza o Círculo Militar e o Comando Militar do Sudeste. Chega, por fim, à Assembleia Legislativa, onde discursos no passado selaram destinos trágicos, como o do jornalista Vladimir Herzog. Mas a história de José e Maria tem suas próprias cicatrizes, desenhadas muito antes dessas caminhadas. Em 1976, José, formado em desenho industrial e trabalhando como projetista, foi traído. Um falso colega, um agente infiltrado que se dizia chamar Carlos, mas que a história revelaria ser Adolfo, escutou os planos de greve e os entregou. A noite de março estava quente quando José chegou em casa e encontrou o terror sentado em sua sala. Maria estava algemada, o rosto já marcado pela violência. Os invasores, vestidos com roupas comuns para não despertar suspeitas na vizinhança, jogaram os dois em uma Kombi. No DOI-CODI, a separação. Maria, alheia à militância do marido, sofreu o indizível. José, preso ao pau-de-arara, recebia choques enquanto seu corpo suportava o peso do mundo. Ele não entregava ninguém. A resistência de José enfureceu os torturadores, que trouxeram Maria. Diante das ameaças e do abuso sofrido pela mulher que amava, José cedeu. Assinou uma confissão forjada e entregou alguns nomes para “os filhos da puta” (era assim que eles os chamavam). Maria foi solta no dia seguinte. Ele, dias depois, voltou para casa em 31 de março. Uma data que o país lembrava por um motivo, mas que para ele ganhou o peso do fim. A vida de José desmanchou-se aos poucos. Maria nunca mais foi a mesma. O trauma lhe roubou a fome, a paz e o amor. Em 15 de janeiro de 1985, enquanto o Brasil assistia à eleição indireta de Tancredo Neves e o Barão Vermelho cantava que o dia nasceria feliz, o coração de Maria parou. Foi a partir de 1986 que José começou a se reerguer, cultivando o hábito de voltar àquele portão de ferro. Ele, um homem sem religião, não rezava. Apenas ficava ali, murmurando a canção de Roberto Carlos que Maria tanto amava: “Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos”. Uma música que, como ele descobriria mais tarde, também falava de exílio e de saudade. E assim, em um dia bonito de outono em São Paulo, fotografei José de costas no instante exato de sua comunhão silenciosa. De cabelos brancos e escassos, vestindo uma camisa social azul de mangas curtas, suas mãos calejadas agarram com firmeza as grades cinzentas e espessas do portão do antigo porão ditatorial. Ele olha para dentro, para o pátio vazio e para os prédios de janelas basculantes que guardam tantos ecos. Atrás das grades, o passado; Vlado e tantos outros, do lado de cá, um homem que não esquece. O silêncio coletivo da caminhada encontra o silêncio particular de José. Sem palavras de ordem, apenas pessoas caminhando democraticamente. Um país, e um homem, sempre em busca de sentido. *** _Os nomes e os eventos narrados na crônica são todos ficcionais, porém baseados em centenas de depoimentos de vítimas da repressão ouvidos pelo autor ao longo de seu trabalho como repórter e coordenador de comunicação da Comissão Nacional da Verdade (CNV). A foto de “José” foi tirada no dia 29 de março de 2026, na sexta edição da Caminhada do Silêncio, em São Paulo, aos 62 anos do golpe militar de 1964._

O silêncio de março.
- bsapub
apublica.org/2026/04/doi-codi-e-ditad...
#Portugus #Direitoshumanos #Ditaduramilitar #Militares #Poltica

0 0 0 0
> _Aviso de conteúdo sensível: este texto inclui descrições de comentários sexuais envolvendo menores de idade_ Conteúdos que erotizam e sexualizam crianças e adolescentes seguem em circulação nas plataformas digitais na primeira semana de funcionamento do ECA Digital, conhecido popularmente como Lei Felca. A Lupa encontrou publicações que expõem menores a comentários com teor sexual no Facebook, Instagram, TikTok e Kwai, incluindo anúncios pagos, usados para aumentar o alcance nas redes. Entre os dias 17 (dia que a lei entrou em vigor) e 24 de março, foram identificados cinco perfis com publicações impulsionadas na Biblioteca de Anúncios da Meta (empresa que congrega o Instagram, Facebook, Threads e WhatsApp) com a promessa de “conteúdos vazados” de “novinhas, estudantes e incesto”. A monetização desse tipo de conteúdo é proibida pelo ECA Digital. Antes de serem divulgados nas redes, a Meta aprova quais anúncios podem circular. > Art. 23. São vedados aos provedores de aplicações de internet a monetização e o impulsionamento de conteúdos que retratem crianças e adolescentes de forma erotizada ou sexualmente sugestiva ou em contexto próprio do universo sexual adulto. No Kwai e no TikTok, vídeos de adolescentes e crianças publicados após a vigência da lei foram alvo de perfis predatórios. Em um destes conteúdos, publicado no dia 21, constam comentários como “go_zei” e “delicinha. Princesinha linda”. Eles indicam que, apesar de o ECA Digital ter sido criado para evitar a exploração sexual infantil, perfis de menores de idade continuam vulneráveis a esse tipo de abordagem, ao menos nesta primeira semana. Segundo a professora e pesquisadora em comunicação na Universidade de São Paulo (USP), Issaaf Karhawi, isso mostra como algoritmos de plataformas digitais cumprem um papel facilitador da exploração sexual infantil, mesmo após a lei. “Os algoritmos, quando a gente pensa na lógica de compartilhamento acelerado, potencializam essa circulação. É uma discussão urgente a ser feita”, declarou. Para a psicóloga e co-fundadora da organização de educação digital com foco em proteção à criança Aldear, Nay Macêdo, a existência de comentários dias após a lei entrar em vigor indica uma insuficiência para lidar com o problema. “A velocidade da violência é muito maior que a velocidade da regulação, um ponto crítico, que nos faz reforçar a importância dos adultos cuidadores como primeira linha de defesa desses direitos”, afirmou. ## **Anúncios comercializam conteúdos de menores** Nos anúncios identificados na Biblioteca de Anúncios da Meta, garotas são retratadas com os rostos expostos e descritas como “estudantes”, parte delas, inclusive, em ambiente escolar. As legendas direcionam o usuário para grupos no aplicativo de mensagens Telegram, que recebem nomes em alusão a menores de idade, como “grupo novinha sub18” e “estudante”. Anúncios e grupos semelhantes já haviam sido identificados pela **Lupa** em agosto, dias após o influenciador Felipe Bressanim Pereira, mais conhecido como Felca, expor como os algoritmos de plataformas digitais permitiram que conteúdos de crianças e adolescentes fossem alvo de criminosos e perfis predatórios. Na ocasião, foram encontrados 15 perfis com anúncios que erotizavam menores de idade — um volume três vezes superior ao identificado na busca atual. Para evadir a fiscalização das plataformas, os perfis codificam as legendas com caracteres alfanuméricos, dificultando a identificação automatizada. Em nota à Lupa, a Meta (empresa dona do Facebook, Instagram, Threads e WhatsApp) afirmou que age “em total conformidade com a legislação vigente” e que atua de forma proativa para identificar conteúdos que violem as regras. “Entre outubro e dezembro de 2025, cerca de 97% das remoções no Instagram e do Facebook ocorreram por detecção de nossas próprias equipes, antes de qualquer denúncia”. Ao direcionar os usuários para o Telegram, os anúncios levam a uma outra dinâmica, com um risco maior de exposição, avaliou Karhawi. “O ECA prevê proteger a integridade dos menores. Mas como fazer isso nos grupos que são fechados?”, questiona a pesquisadora. Para ela, esse papel cabe às plataformas. “É possível desenvolver algoritmos que diminuam o alcance de conteúdos sexualizados”, pontuou. A Lupa também entrou em contato com o Telegram para questionar as medidas adotadas para evitar esse tipo de prática da plataforma. Em comunicado, a plataforma afirmou que existe uma dificuldade de monitorar conversas, pois os chats são criptografados.“ Grupo no Telegram promete conteúdos de menores de idade. Foto: Link que leva para o Telegram ## **Vídeos de ‘dancinhas’ são alvo nas plataformas de vídeos curtos** No Kwai e no TikTok, onde os vídeos curtos de danças são populares, a Lupa verificou que a ferramenta de busca de ambas as plataformas permitem localizar conteúdos que expõem crianças e adolescentes, embora o ECA Digital exija medidas para prevenir o acesso de adultos a esse tipo de material. > Art. 6º Os fornecedores de produtos ou serviços de tecnologia da informação direcionados a crianças e a adolescentes ou de acesso provável por eles deverão tomar medidas razoáveis desde a concepção e ao longo da operação de suas aplicações, com o objetivo de prevenir e mitigar riscos de acesso, exposição, recomendação ou facilitação de contato com os seguintes conteúdos, produtos ou práticas: > > I – exploração e abuso sexual; > > II – violência física, intimidação sistemática virtual e assédio. Publicados antes de o ECA Digital entrar em vigor, parte dos vídeos analisados foi alvo de interações predatórias. “Você vai matar os machos de tanto bater”: comentário feito no dia 2 de março. Em outra publicação, de 18 de março, um perfil adulto utiliza o termo “mulherão” acompanhado de emojis de cunho sexual. Em fevereiro, a jovem, que soma mais de 20 mil seguidores no TikTok, publicou fotos celebrando seu aniversário de 15 anos. Um dos perfis identificados demonstra como a exposição de menores extrapola fronteiras. Um dos perfis, pertencente a uma garota com mais de 10 mil seguidores, tem comentários em inglês e espanhol em vídeos nos quais ela aparece dançando. Mensagens como “Hola, bonita. Por favor cásate conmigo” e “Beautiful” aparecem em 2025. Outra, que diz “Hola que tal eres muy linda, hermosa”, foi publicada no dia 16 de março em um vídeo de dezembro, no qual a garota aparece de pijama. O intervalo de três meses entre o post e o comentário reforça que perfis predatórios buscam gravações antigas para estabelecer contato e realizar abordagens inadequadas independentemente da data de publicação. Em um dos vídeos, a menina aparece dançando com uniforme escolar. O acesso de perfis predatórios a conteúdos de crianças e adolescentes tende a acontecer por incentivo do próprio algoritmo das plataformas, como demonstrou o influenciador Felca em agosto. Na área de tecnologia, essa lógica é descrita como “comportamento do algoritmo” — a forma como o sistema processa dados para tomar decisões. Nas redes sociais, o mecanismo identifica as preferências do usuário a partir de visualizações e interações para, então, hierarquizar o que é exibido no feed. Para Issaaf Karhawi, a reorganização desses mecanismos pelas plataformas é fundamental para criar filtros mais eficazes de proteção a menores. “No desenho do Instagram, que a gente tem inclusive dois feeds – de quem estamos seguindo e o algorítmico — já existe processo de hierarquia, moderação e filtragem das plataformas”, explica a pesquisadora. Já na avaliação de Macêdo, da Aldear, a presença desses conteúdos não indica necessariamente uma falha imediata do ECA Digital, mas sim a baixa responsabilidade operacional das plataformas. “Elas precisam ser pressionadas a agir, assim como aconteceu com a indústria do tabaco ou do cinto de segurança”, compara. Ainda não está claro se houve mudanças estruturais nos algoritmos após a vigência do ECA Digital. Desde que a lei entrou em vigor, o TikTok anunciou atualizações para ampliar a privacidade de usuários menores de 16 anos. A partir do dia 17 de março, todas as contas nessa faixa etária passaram a ser privadas por padrão, exigindo autorização dos responsáveis para se tornarem públicas. ## **Impacto no desenvolvimento de crianças e adolescentes** Segundo Macêdo, crianças e adolescentes muitas vezes não reconhecem a violência em situações de abordagem virtual, podendo interpretar comentários predatórios como validação positiva. “O cérebro adolescente não foi feito para lidar com isso. O sistema de recompensa é altamente sensível à validação social. O córtex pré-frontal (responsável pela tomada de decisão) está em desenvolvimento (nesta fase)”, afirma a psicóloga. Para a especialista, a exposição digital faz com que adolescentes passem a medir o próprio valor pelo olhar externo, amplificado no universo digital. “Eles podem entrar em ciclos de validação, risco e vulnerabilidade”, acrescenta. Somado a isso, a lógica atual das plataformas facilita que os conteúdos de menores sejam capturados para “aliciar, extorquir, produzir, armazenar ou disseminar material de abuso”, conforme apontou um estudo do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) publicado este mês. A Lupa identificou exemplos reais dessa disseminação persistente. É o caso de Caroliny Dreher, citada no vídeo do influenciador Felca em agosto. Na época, o perfil da adolescente – que continha vídeos de dança e ofertas de conteúdo “VIP” – foi removido. Apesar disso, suas gravações continuam em circulação por meio de perfis de terceiros. Entre os dias 17 e 24, a Lupa encontrou mais de 30 contas que utilizam o nome e a imagem da garota para replicar o conteúdo original. Busca inclui conteúdos encontrados antes e depois da implementação do “Eca Digital”. “As imagens, os comentários e todo o material mostram que existe, primeiro, uma captura silenciosa. Um estudo da Universidade Oberta da Catalunha junto com a Policia Nacional, por exemplo, fala em 72% das imagens em posse de predadores sexuais sendo retiradas de páginas de familiares”, destacou Macêdo. “Depois, é atribuído um contexto sexualizado ao conteúdo para que, logo após, ocorra a circulação em redes, grupos, listas e espaços de ‘acesso premium’. A distribuição também inclui, como vimos, a linguagem codificada”, concluiu a psicóloga. A Lupa também identificou um perfil em que uma mulher, que se apresenta como mãe de uma menina, publica uma série de conteúdos expondo a filha. A criança aparece em situações habituais: conversando, brincando, dormindo e falando com a câmera. Um dos vídeos, de novembro de 2025, acumula um milhão de visualizações. “Assim eu me apaixono”, comenta um usuário em um vídeo no qual a garota aparece deitada em um colchão. “Quero vê-la sozinha” comenta um usuário com nome masculino em um vídeo onde a menina aparece, de uniforme escolar, com a mãe. “A imagem deixa de ser ‘uma criança dormindo’, ‘dançando’, ‘tirando foto’ e passa a ser tratada como objeto de desejo predatório”, disse Nay Macêdo sobre a configuração do pensamento do assediador. Para ela, o cuidado dos responsáveis começa no entendimento de que nem tudo pode ser publicado nas redes. “Perfis de meninas muitas vezes gerenciados por adultos, na maioria, são seguidos e monitorados por homens com comportamento predatório”, acrescentou. ## **Hashtags e palavras-chave** No X, a Lupa observou uma queda, após a implementação do ECA Digital, nas menções a hashtags usadas para compartilhar ou solicitar conteúdos que exploram sexualmente menores. Dados da ferramenta de monitoramento de redes sociais Meltwater indicam que perfis que costumavam usar essas tags foram excluídos pela plataforma. Na semana anterior à implementação do ECA Digital, entre os dias 10 e 17, a Meltwater identificou cinco mil menções a duas hashtags utilizadas por assediadores e pedófilos. A quantidade foi reduzida para 4 mil na primeira semana da lei, entre os dias 17 e 24. Plataformas, Estado e pais devem agir juntos, dizem especialistas. Apesar de legislações anteriores ao ECA Digital — como o próprio Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) — já preverem proteção em todos os espaços, incluindo o virtual, a pesquisadora Issaaf Karhawi afirma que a nova lei esclarece como isso deve ser feito na internet. “O ECA Digital intensifica a discussão nesse sentido, deixando as regras muito mais claras e sem manobras”, disse. “Por parte das plataformas, é preciso responder e atender as prerrogativas. Acho que é o ponto central”, pontuou. Para ela, também é necessário que outros atores sociais se responsabilizem pelo problema. “Tem a ver com um enfrentamento multisetorial: uma regulação adequada, responsabilização das plataformas e investimento em educação, espaços facilitados para a denúncia e acolhimento de famílias. É uma abordagem complexa e urgente”. De acordo com o ECA digital, as plataformas devem tomar providências diante das denúncias dos usuários. Com a nova lei, o governo criou o Centro Nacional de Proteção à Criança e ao Adolescente, responsável por receber, classificar e encaminhar denúncias de crimes sexuais contra crianças e adolescentes. O órgão recebe as denúncias diretamente das plataformas e atua a partir delas. “Ao identificar conteúdo criminoso, a plataforma deve removê-lo imediatamente, sem necessidade de ordem judicial prévia, e encaminhar o caso ao Centro, que atuará junto à Polícia Federal para investigar e tomar as medidas cabíveis”, detalhou o MJSP sobre o fluxo da denúncia. Segundo o ECA Digital, no capítulo 15, se uma plataforma não cumprir as medidas, ela pode sofrer sanções que dependem da gravidade do caso. Inicialmente, a empresa pode receber uma advertência, com prazo de até 30 dias para adoção de medidas corretivas. Caso a irregularidade persista ou seja considerada mais grave, podem ser aplicadas multas que chegam a até 10% do faturamento da plataforma no Brasil. Em situações mais severas, a legislação prevê a suspensão temporária das atividades ou até mesmo a proibição do exercício das atividades no país. A definição das penalidades leva em conta fatores como a extensão do dano, a reincidência e a capacidade econômica da empresa. ## **O que dizem as redes** A Lupa entrou em contato com Meta, TikTok, Telegram, Kwai e X para questioná-las sobre as mudanças nas plataformas após o ECA Digital. Apenas as três primeiras responderam até a publicação desta reportagem. A Meta afirmou estar comprometida com a legislação e com a proteção de menores. “Nossas políticas contra exploração sexual, abuso e nudez infantil estão em total conformidade com a legislação vigente. Atuamos de forma proativa para identificar conteúdos que violem essas regras: entre outubro e dezembro de 2025, cerca de 97% dos das remoções no Instagram e do Facebook ocorreram por detecção de nossas próprias equipes, antes de qualquer denúncia”, diz a nota da empresa. Já o TikTok informou que não permite conteúdos que coloquem jovens em risco de danos psicológicos, físicos ou de desenvolvimento, incluindo o compartilhamento, exibição, a promoção ou o envolvimento em abuso ou exploração. “Em nosso Centro de Transparência, publicamos trimestralmente relatórios de moderação. O mais recente, referente ao terceiro trimestre de 2025, aponta que 99,8% dos vídeos que violavam nossas diretrizes de abuso sexual e físico de jovens foram removidos proativamente, e 97,5% deles foram retirados do ar em menos de 24 horas”, informa a nota. Em comunicado, o Telegram disse que não tolera o compartilhamento de materiais de abuso sexual infantil. A plataforma assumiu que existe uma dificuldade de monitorar conversas, pois os chats são criptografados. “Embora nenhuma plataforma criptografada possa monitorar proativamente chats privados, o Telegram processa denúncias de usuários e ONGs para aplicar seus termos de serviço lá. O fato de agentes mal-intencionados precisarem anunciar em outras plataformas significa que eles não conseguem existir publicamente no Telegram como resultado dos nossos esforços de moderação. Somente no ano passado, removemos mais de 952.318 materiais infratores”, disse o Telegram. A **Lupa** segue com o espaço aberto para a resposta do Kwai e X.

ECA Digital: conteúdos de crianças e adolescentes seguem alvo de sexualização nas redes.
- bsapub
apublica.org/2026/04/eca-digital-post...
#Portugus #Direitoshumanos #Exploraosexual #Infnciaejuventude #Violnciasexual

1 1 0 0
A primeira paciente chegou há pouco mais de dois anos. Janeiro deveria ser um mês tranquilo no Hospital Santa Rosa, no bairro de classe média Pueblo Libre, em Lima, no Peru. A paciente, uma mulher na casa dos 20 anos, havia viajado 430 quilômetros com a mãe até a cidade. Ela tinha febre alta e uma dor abdominal insuportável, que ela temia ser resultado de um aborto recente que havia dado errado. Os médicos fizeram radiografias e encontraram sangue na cavidade abdominal. Em uma tentativa desesperada de estancar a hemorragia, decidiram remover seu útero. Mas a hemorragia continuou. Os médicos pediram todos os exames possíveis. Apenas um deu positivo, e era algo que a maioria deles nunca havia visto. A paciente não estava com complicações relacionadas à gravidez ou ao aborto. Ela estava na fase mais grave da dengue, doença rara em Lima naquela época, devido ao clima temperado da cidade. Em outro ano, o caso teria sido um ponto fora da curva. Afinal, a paciente não era da cidade e vinha de uma área pouco povoada da Amazônia peruana, onde doenças transmitidas por mosquitos, como a dengue, são riscos constantes. Mas, dessa vez, era o início de uma epidemia. Entrada da sala de emergência do hospital Santa Rosa, no bairro de Pueblo Libre, em Lima. O hospital enfrentou um surto sem precedentes de dengue em 2024. A dengue já foi um risco nas Américas, mas campanhas de pulverização com o uso de pesticidas aparentemente erradicaram a doença em meados do século XX. O Peru declarou o _Aedes aegypti_erradicado em 1958. Mas, com um surto em 1990, a situação começou a mudar, no país e em todo o mundo. Agora, o número de casos de dengue registrados no mundo vem crescendo há décadas, passando de 500 mil reportados à Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2000 para mais de 5 milhões em 2019. Embora a melhoria na notificação de doenças explique parte desse aumento, especialistas atribuem o crescimento principalmente à urbanização — que cria condições ideais para o _Aedes_ se reproduzir e aumenta a densidade demográfica para picar mais pessoas — e à explosão das viagens aéreas, que permite que a doença escape de zonas endêmicas. Como resultado, a dengue é hoje a doença mais comum e de crescimento mais rápido a ser transmitida por mosquitos no mundo. Mas algo mais aconteceu nos últimos anos. Em 2023, o número global de casos se aproximou de 7 milhões, salto de 40% em um ano. E mesmo esse novo recorde foi superado em 2024, quando 14 milhões de casos de dengue e 9 mil mortes foram registrados no mundo, a maioria nas Américas. “É diferente de anos anteriores, quando a dengue existia, mas a gente não via tanto”, diz Luciano Andrade Moreira, engenheiro agrônomo e entomologista brasileiro. Em 2024, 17 cidades do Brasil declararam estado de emergência. Hospitais ficaram superlotados. No hospital Santa Rosa, em Lima, a cirurgiã Yolanda Sánchez lembra que os primeiros pacientes com dengue “chegaram como uma onda”. Assim que a jovem que, sem saber, se tornou a paciente zero e recebeu alta, seu leito foi imediatamente ocupado por outro paciente com dengue, e depois por outro. Alguns corredores ficaram tão lotados de pacientes que os funcionários tinham dificuldade para atravessar a multidão. Os doentes ocuparam todas as salas disponíveis, se espalharam pela rua e se aglomeraram perto do portão de ferro na entrada. No auge do surto, em fevereiro e março de 2024, o Santa Rosa atendia entre 40 e 60 pacientes com dengue por dia, número sem precedentes para uma unidade que havia recebido apenas 13 pacientes desse tipo em todo o ano de 2022. Os doentes pareciam uma amostra aleatória da população peruana: jovens, idosos, pessoas com doenças crônicas e outras perfeitamente saudáveis. Quando uma mulher com menos de 60 anos, sem comorbidades, deu entrada no hospital e morreu menos de 24 horas depois, um médico chamado Solomon Durand percebeu que o Santa Rosa precisaria se adaptar se quisesse sobreviver à epidemia. Durand, epidemiologista, havia chegado recentemente ao Santa Rosa após passar 15 anos em um hospital em Iquitos, cidade amazônica no norte do país há muito tempo considerada um foco de doenças transmitidas por mosquitos. Ele era o único médico do Santa Rosa que já havia trabalhado durante surtos de dengue, e sabia o que fazer. Durand montou uma tenda no estacionamento dos fundos do hospital para avaliar rapidamente os novos pacientes. Aqueles com dengue grave eram transferidos para a unidade de terapia intensiva. Todos os demais eram encaminhados para diferentes alas do hospital, tratados e liberados o mais rápido possível. Durand acompanhava os prontuários dos pacientes internados. O que lhe chamou atenção foi a proximidade do surto. Cada vez mais pacientes vinham de distritos ao redor do hospital. Esses bairros não sofriam com a superlotação e as condições sanitárias precárias que geralmente favorecem a disseminação da dengue em áreas urbanas. “Isso chamou nossa atenção”, contou Durand. Ele sabia que algo mais havia mudado. Entrada de um quarto no Hospital Santa Rosa, em Lima. Perto dali, uma funcionária transporta suprimentos entre os quartos. No auge do surto de dengue em 2024, a unidade chegou a atender até 60 novos pacientes por dia. Entrada de um quarto no Hospital Santa Rosa, em Lima. Perto dali, uma funcionária transporta suprimentos entre os quartos. No auge do surto de dengue em 2024, a unidade chegou a atender até 60 novos pacientes por dia. A pista seguinte surgiu quando o surto se estendeu durante um verão excepcionalmente quente e avançou pelo outono. Um ano antes, o fenômeno climático El Niño havia se desenvolvido nas regiões tropicais do Pacífico, alterando os padrões de chuva e elevando as temperaturas médias em todo o mundo pelos 12 meses seguintes. Durand percebeu os efeitos do El Niño em Lima. Antes e depois da chegada da primeira paciente com dengue, chuvas muito intensas haviam inundado a cidade, que normalmente vive em um estado quase permanente de seca, levando o governo peruano a declarar estado de emergência. As chuvas deram lugar a um sol de verão implacável. “Naquele ano houve mais sol em Lima”, lembrou Durand. “O verão durou mais.” Foi o ano mais quente do país em mais de seis décadas. Durand começou a se perguntar se o fator desconhecido que impulsionava o surto era a mudança climática. Após monitorar os prontuários de pacientes com dengue internados no Santa Rosa, Solomon Durand começou a se perguntar se as mudanças climáticas poderiam ser um fator que impulsionou o surto. Condições mais quentes atuam como um acelerador da dengue. O aumento das temperaturas não apenas favorece o desenvolvimento dos mosquitos _Aedes aegypti_ e do mosquito-tigre-asiático, que transmitem a doença, como também acelera a replicação do vírus da dengue dentro desses insetos. Nos últimos anos, pesquisadores têm buscado isolar o efeito do aquecimento global sobre a disseminação da doença. Em setembro de 2025, cientistas da Universidade de Washington mostraram que, nos 21 países da Ásia e das Américas com maior exposição à dengue, 18% dos casos entre 1995 e 2014 não teriam ocorrido na ausência de mudanças climáticas causadas pelo ser humano. Trata-se da primeira evidência científica direta que liga o aquecimento global à expansão da dengue no mundo, confirmando a suspeita que Durand teve mais de um ano antes, quando percebeu a propagação da doença em um ambiente antes considerado inóspito. O problema tende a piorar. Até meados do século, descobriram os autores do estudo, as mudanças climáticas poderão levar a um aumento adicional de 50% nos casos nos países analisados. E isso se novas emissões de gases de efeito estufa ficarem suficientemente baixas para limitar o aquecimento a menos de 2 graus Celsius. Mais de 30 anos de pesquisas e esforços para encontrar uma vacina que proteja simultaneamente contra os quatro sorotipos da dengue em circulação produziram sucesso limitado. O Brasil aprovou uma vacina de dose única. Mais de um milhão de doses estão sendo distribuídas em cidades-piloto. Enquanto isso, cerca de metade da população mundial tem risco de contrair dengue. Em Lima, a epidemia de 2024 atingiu 40 dos 43 distritos da cidade ao mesmo tempo. Mas, graças à rapidez de raciocínio de Durand e à sua experiência anterior, apenas quatro dos quase 2 mil pacientes diagnosticados no Santa Rosa morreram. Mesmo depois de a crise finalmente diminuir em junho, o médico continuou estudando o que havia acontecido, publicando posteriormente um artigo sobre o surto em uma revista de ciências da saúde. Em toda a América do Sul, pesquisadores e departamentos de saúde pública trabalham intensamente para dar esse tipo de alerta. A estratégia, que vem sendo desenvolvida há anos, tem duas vertentes. Uma delas é o uso de inteligência artificial para prever surtos com meses de antecedência. A outra recorre à natureza para impedir a disseminação da dengue desde o início: a liberação de centenas de milhões de mosquitos infectados com uma bactéria que bloqueia a transmissão da dengue, para que se reproduzam com os mosquitos selvagens, reduzindo a transmissão da doença no processo. Diferentemente das campanhas reativas de pulverização de pesticidas que definiram o controle de doenças transmitidas por vetores ao longo do século XX, esses programas buscam uma cooperação mais deliberada com os ecossistemas existentes. Mas também enfrentam desafios logísticos e políticos significativos, exigindo que autoridades públicas invistam recursos em programas cujos resultados não serão evidentes por anos. Mas à medida que a dengue muda de perfil, autoridades de saúde em países como Peru e Brasil começaram não apenas a reconhecer o valor dessa abordagem, mas a exigi-la. ## A experiência do Brasil Nos arredores de Curitiba, um prédio baixo no campus universitário do Instituto de Tecnologia do Paraná abriga milhões de Aedes aegypti. Os ovos desses mosquitos, infectados com a bactéria _Wolbachia_ , serão enviados para cidades de todo o país, onde serão incubados e liberados para se reproduzirem com mosquitos selvagens. Luciano Andrade Moreira conheceu a Wolbachia na Austrália, quando visitou o pesquisador Scott O’Neill, em Queensland, em 2008. A hipótese de O’Neill era que a bactéria reduziria o tempo de vida dos mosquitos e isso lhes daria menos tempo para transmitir doenças. Moreira chegou à Austrália a tempo de ver O’Neill fazer uma descoberta surpreendente: a bactéria fazia algo ainda mais poderoso, pois impedia que o vírus da dengue se replicasse dentro dos insetos. A _Wolbachia_ cria um ambiente hostil para o vírus da dengue no intestino do mosquito ao ativar o sistema imunológico do inseto para combater a doença, competir com o vírus por recursos celulares e literalmente expulsar a dengue das células. Dezenas de milhares de ovos de mosquito na sede da empresa Wolbito Agora, quase duas décadas depois, na fábrica de mosquitos em Curitiba, chamada Wolbito do Brasil, filas de grandes máquinas armazenam tubos com ovos de mosquito. Quando eclodem e se transformam em pupas, os insetos recebem uma mistura de água e proteína em pó. Em seguida, as pupas são levadas para uma sala, onde são lavadas entre duas placas de vidro: as pupas menores, os machos, saem primeiro pela parte inferior da máquina, seguidas pelas fêmeas maiores. Todas as fêmeas que botam ovos e um em cada três machos seguem para outra sala, quente e úmida, onde são colocados em compartimentos de malha e alimentados com sangue quente de cavalo e água com açúcar. Essas gaiolas de malha são a etapa final de um processo de criação de mosquitos que, até esse ponto, foi realizado quase inteiramente por máquinas, supervisionadas de perto pelos cerca de 70 funcionários da fábrica. Depois que as fêmeas depositam seus ovos em tiras de papel branco no fundo das gaiolas, os trabalhadores levam as gaiolas para uma sala refrigerada, onde os mosquitos finalmente encontram seu fim. São cerca de 1 milhão de ovos coletados por gaiola, o que significa 100 milhões produzidos por semana. Desde que a fábrica começou a operar em meados de 2025, seis cidades no Brasil começaram a espalhar mosquitos que combatem a dengue em seus bairros, além das 10 cidades que já recebiam ovos produzidos manualmente por Moreira e outros funcionários que trabalharam arduamente para popularizar o método Wolbachia antes de o processo ser automatizado, em 2025. Funcionária do Departamento de Saúde Pública de Joinville mostra um recipiente com mosquitos que combatem a dengue. A cidade está em uma campanha para introduzir a bactéria _Wolbachia_ na população de mosquitos selvagens. Joinville (SC) é uma dessas cidades. Em uma manhã de meio de semana, funcionários do Departamento de Saúde local e da Wolbito se reuniram em um centro de distribuição para carregar um carro com recipientes de mosquitos. Os mosquitos haviam eclodido de sacos de pellets. Cada pellet contém ovos e uma mistura para alimentação. Nas cidades participantes, os pellets são inseridos na água e os insetos nascem. Enquanto o carro saía do centro de distribuição e percorria lentamente Joinville às 7h da manhã, a agente de saúde Lúcia Jordan abaixou a janela e segurou um recipiente aberto no ar, sacudindo-o algumas vezes com força para liberar os mosquitos. Ela repetiu o gesto várias vezes enquanto o carro fazia lentas curvas pelos bairros da cidade. Agentes de saúde pública liberam mosquitos infectados com Wolbachia em uma manhã de meio de semana em Joinville. Campanhas de conscientização pública alertaram os moradores sobre essas liberações. Niterói (RJ) foi um das primeiras cidades do Brasil a ser totalmente protegida pelo método. As liberações ocorreram entre 2017 e 2019. Os casos de dengue caíram quase 90% em toda a cidade após o tratamento, em comparação com a média dos 10 anos anteriores a 2017. Durante o surto histórico de dengue em 2024, quando muitas cidades brasileiras registraram números recordes de casos, Niterói contabilizou menos de 2 mil, cerca de um quarto da média anterior ao tratamento. “Não é comum lidar com um projeto para liberar mosquitos quando toda a nossa história de prevenção de doenças foi justamente lutar contra eles”, disse Ana Eppinghaus, coordenadora de vigilância em saúde da Fundação Municipal de Saúde de Niterói, na época. “Aceitamos o desafio.” Na próxima década, Luciano Andrade Moreira pretende proteger metade da população brasileira usando a _Wolbachia_. O método pioneiro de Scott O’Neill na Austrália já é utilizado por 15 países, e evidências de várias regiões mostram que a incidência de dengue cai drasticamente depois que os mosquitos com Wolbachia se estabelecem. O número de casos diminuiu em todas as cidades do Brasil onde a Wolbachia se consolidou. Moreira diz que seu maior problema agora é produzir mosquitos rápido o suficiente para atender à demanda. Mesmo com os avanços, as novas tecnologias de combate aos mosquitos não são 100% à prova de falhas de implementação e até interesses particulares. Série de reportagens da Pública mostrou que em São Paulo, um empresário conseguiu lucrar com armadilhas usando sua influência com a prefeitura, e falhas na manutenção dos produtos os transformaram em verdadeiros criadouros de mosquitos. Alguns políticos também continuam relutantes em se comprometer com o programa dos mosquitos com Wolbachia, especialmente quando Moreira diz que os resultados podem levar um ano ou mais para aparecer. “Nosso programa não é como um spray que mata todos os mosquitos e resolve o problema”, disse ele.

Enquanto casos aumentam no mundo, América do Sul avança no combate à dengue.
- bsapub
apublica.org/2026/04/dengue-casos-cre...
#Portugus #Dengue #ElNio #Sade #Sadepblica

0 0 0 0
## EP 210 O que é sionismo cristão? 3 de abril de 2026 · Teólogo e ativista de direitos humanos, Ronilso Pacheco fala sobre sionismo cristão e sua influência na política mundial __ __ 0:00 -:-- __15 __15 ______ ____ Veja mais episódios desta série O termo sionismo cristão ganhou visibilidade em meio aos atuais conflitos no Oriente Médio, mas está longe de ser uma ideia recente. Em linhas gerais, pode ser definido como um conjunto de crenças e práticas que articulam apoio religioso, simbólico e político ao Estado de Israel, e que apoiar Israel é, para parte dos cristãos, uma forma de cumprir o plano de Deus. Para entender como esse movimento pode influenciar os rumos da política nacional e internacional, Andrea Dip entrevista o teólogo e ativista de direitos humanos Ronilso Pacheco. Ele mostra que o sionismo cristão se estrutura a partir da fusão entre um cristianismo conservador e uma defesa quase incondicional de Israel, que mistura elementos religiosos, culturais e políticos. Afinal, o que está em jogo quando fé, política e disputas territoriais se misturam dessa forma?

O que é sionismo cristão?.
- bsapub
apublica.org/podcast/2026/04/podcast-...
#Portugus #Israel #OrienteMdio #Poltica #Religio

0 0 0 0
Preview
Os últimos gritos que os vizinhos ouviram foram de Guilherme Moisés de Jesus chamando pela mãe. O quarto filho de Sandra Helena não costumava sair muito de casa e, segundo eles, não foi diferente naquele dia. “Ele era meu protetor”, diz a mãe. Aos 26 anos, o rapaz que trabalhava como segurança e “chapa”, fazendo a carga e descarga de caminhões, estava desempregado. Desde o dia anterior estava capinando o pátio – como os gaúchos chamam o quintal – e passava bastante tempo no computador. A mãe conta que ele vivia rodeado dos sobrinhos e era bem próximo da família. Ocupada com a filhinha de três meses, Ana, a irmã mais velha, não viu que Jesus tinha mandado mensagem por volta das 19 horas daquele inesquecível 16 de janeiro de 2026. No status dele no Whatsapp, atualizado às 20h30, havia uma mensagem de “Boa Noite”. Já passava das 21 horas quando Ana tentou falar com o irmão, mas as mensagens ficaram sem resposta. Não muito longe dali, Sandra, que também é cuidadora de idosas e acompanhante hospitalar, estava ajudando uma moça “a cuidar de uma guriazinha”, quando recebeu um telefonema da vizinha, que morava bem perto da casa onde morava com o filho, no bairro Cabo Luiz Quevedo, em Uruguaiana, cidade gaúcha de 120 mil habitantes na fronteira do Brasil com a Argentina. “Sandra, vem pra cá, a “choque” invadiu sua casa”, disse. “A choque” é como os moradores chamam o 6º Batalhão de Choque da Brigada Militar (a PM gaúcha), responsável pelo policiamento na cidade. Criado em 2021 por um decreto do governador Eduardo Leite (PSD), é um dos seis batalhões “superespecializados”, segundo o governo gaúcho, que patrulham o interior do estado. Em comentários nas redes sociais e em conversas com moradores, a truculência da “choque” é citada com frequência, bem como a reivindicação de que – a exemplo da Brigada Militar da região metropolitana de Porto Alegre – os policiais do interior também sejam obrigados a usar câmeras corporais. Um dia antes de Jesus ser brutalmente torturado e assassinado por sete homens e uma mulher do 6º Batalhão de Choque, 18 policiais do 5º Batalhão de Choque e do 4º Batalhão da Polícia Militar invadiram uma chácara em Pelotas. Marcos Nornberg, um agricultor de 48 anos, foi morto pela polícia e sua esposa, Raquel, foi torturada. Depois da mobilização dos familiares, que incluiu uma carta da viúva ao governador, a polícia reconheceu que havia cometido “um equívoco”: teria seguido uma pista falsa de uma quadrilha de traficantes. Mas não se desculpou pela violência extrema – como se tivesse sido empregada contra criminosos fosse legítima. No caso de Jesus, embora a motivação do crime não esteja clara para ninguém, não há engano possível. Um dos policiais que participou dos atos bárbaros que levaram à morte de Jesus conhecia a vítima desde que ele frequentava o cybercafé de seu pai. “O Gui devia ter uns nove anos, então eu deixava ele jogando videogame, e quando acabava o tempo dele, o pai desse que hoje é policial me ligava e eu ia buscar”, lembra Sandra. ## **Portão arrebentado, luzes acesas** Naquela noite em que o filho seria morto, a mãe achou que os policiais tinham errado de endereço. Afinal, o filho nunca foi preso e não tem antecedentes criminais, e ela sabia que ele estava sozinho em casa – nem tinha levado a chave. Ainda assim, tentou conseguir um carro de aplicativo ou uma carona para ver o que tinha acontecido. Logo depois, porém, a vizinha ligou novamente para dizer que os policiais já tinham ido embora. Mesmo achando que tinha sido um engano, Sandra ligou para o irmão, Dinho, para pedir que ele fosse com ela até a sua casa na rua Marechal Floriano. Sua filha, Ana, foi junto. “A mãe parou um pouco antes de casa pra ir nos vizinhos perguntar o que tinha acontecido, aí, quando a gente chegou, o portão estava arrebentado, e as grades da porta também, mas tinha uma luz ligada no quarto dele. Eu desci do carro e chamei por ele umas três vezes. E aí o meu tio falou: “não, ele não está aqui, vamos na delegacia, devem ter levado ele pra lá”. Quando os dois estavam saindo, viram uma viatura parada mais à frente e fizeram a volta para falar com os policiais. “Aí eles ligaram o carro, vieram subindo, e meu tio atacou [abordou] eles e perguntou o que tinha acontecido com o rapaz daquela casa. O policial perguntou quem ele era, quem eu era, mandou descer do carro. E aí o policial me perguntou se o Guilherme sofria do coração ou tomava algum remédio controlado. Eu falei que não, ele não sofria de nada. E aí eu perguntei ‘por que, o que aconteceu?’ Aí ele falou que ele tinha passado mal e que eles tinham levado para o Pronto Socorro da Santa Casa. Eu liguei pra mãe pra avisar e fomos pro hospital”, lembra Ana. ## **Deixado morto no hospital** Antes mesmo de entrar na Santa Casa da Caridade de Uruguaiana, Ana e o tio descobriram que Jesus estava morto. “A gente perguntou pro guarda do hospital se ele sabia para onde tinham levado o rapaz que a choque socorreu, e ele respondeu: “Como? O rapaz que deixaram aqui, eles já deixaram ele a óbito”. Ana correu para o carro para avisar a tia, ainda com esperança de que poderia não se tratar do irmão. As duas entraram no hospital, cheio de policiais, e a tia voltou lá de dentro com uma enfermeira. — “É ele? A polícia matou ele?”, Ana perguntou, em desespero. — “A enfermeira balançou sim com a cabeça, e me abraçou”, ela contou. Ana repetiu a pergunta dessa vez para o médico que a levou até o corpo do irmão. — “A polícia matou meu irmão?”, perguntou. — “Ele me falou bem assim, ‘ó, entra ali, maninha, pra tu ver como eles deixaram ele aqui’.” Ana não podia acreditar que aquele corpo era o do seu irmão. “Ele tava sem camisa. O tórax dele estava roxo, e tinha um hematoma grande, tipo uma paulada, perto do coração. O rosto dele também estava roxo, muito inchado, a cabeça muito, muito inchada. As mãos estavam queimadas em vários pontos, os pulsos muito machucados. Mas no corpo dele não tinha sangue, a calça estava limpa. E ele estava com os olhos e a boca entreabertos, eu vi que tinha sangue por dentro da boca e que as narinas dele estavam tapadas de terra.” Detalhe da mão de Guilherme com marcas de queimadura As fotos do corpo, que revelam as marcas da tortura, foram feitas já com maquiagem funerária, antes do enterro, já que a Ana, em choque, nem pensou em fotografar o corpo no hospital. “Até as palmas das mãos dele, que estavam queimadas, tiveram que ser maquiadas”, conta Ana. Ainda assim, as marcas de tortura são bem visíveis nas fotos da funerária enviadas por dona Sandra para a **Pública** – que não serão publicadas nesta reportagem em respeito ao público. Mas o que a **Pública** , e colegas da imprensa gaúcha, vimos não dá margem à dúvida: Guilherme de Jesus foi barbaramente torturado dentro da sua casa invadida por oito policiais do 6º Batalhão de Choque. “Morte violenta”, registra laconicamente a certidão de óbito, o único documento relacionado à morte de Jesus a que a família teve acesso até o momento. A hora da morte – 22h – coincide com o horário de sua chegada à Santa Casa da Caridade de Uruguaiana. Certidão de óbito de Guilherme registra “morte violenta” Além das marcas no corpo, e de evidências negligenciadas pela perícia na casa de Sandra e Jesus – como a bermuda encontrada molhada dentro do box do chuveiro, ainda com o maço de cigarros, também molhado, dentro do bolso, sugerindo que o corpo dele foi lavado – e o desaparecimento da cama em que ele dormia, um dos vizinhos gravou em vídeo um depoimento com o que ele viu e ouviu na noite do crime. “Moro na rua Marechal Floriano, e eu vi a polícia chegar. Dois policiais invadiram, e seis quebraram o portão. Eu não vi o rapaz entrar nem sair de casa; espancaram o rapaz lá dentro, eu não sei porquê. O que vi foi que uma caminhonete parou na frente de casa, a outra um pouquinho mais pra frente, nunca na frente da casa desse rapaz, entendeu? E ali eles entraram, bateram nele, bateram muito nele, pelos gritos, sabe? E depois, as últimas palavras que eu ouvi, que ele falou ali, ele gritou por socorro duas vezes e chamou pela mãe dele, entendeu? E depois silenciou completamente. Daqui a um pouquinho eu vi que duas caminhonetes vieram e entraram de bunda, de bunda que eu digo de ré, pra lá onde eles estavam batendo no rapaz lá, entendeu? Acho que levaram o corpo do rapaz, mas aí eles voltaram depois, mais uma vez, não sei o que vieram fazer”, contou. Até hoje nem Ana, nem os profissionais de saúde foram chamados a depor no inquérito civil, aberto na 1ª Delegacia de Polícia Civil de Uruguaiana. Também esse vizinho, que gravou o vídeo em frente à delegacia, onde familiares e amigos se reuniram depois da morte de Jesus para pedir esclarecimentos, denunciou não ter sido ouvido pela polícia, embora seu nome e sobrenome constem na gravação. A **Pública** não divulgou os nomes aqui a pedido da família dele, que ficou assustada depois que ele não foi chamado para depor. Guilherme, pouco antes de sua morte, com a sobrinha no colo ## **Dúvidas, versões insustentáveis e inquérito que não anda** Dias depois do crime, a Brigada Militar publicou a versão dos policiais em uma nota enviada à imprensa. De acordo com eles, “durante um patrulhamento tático motorizado”, a equipe do 6º Batalhão de Polícia de Choque, “visualizou um indivíduo em atitude suspeita que ao perceber a presença policial empreendeu fuga em direção ao interior de uma residência, portando na cintura objeto com características semelhantes às de uma arma de fogo, desobedecendo às ordens legais de parada emanadas pela guarnição (…). Após a contenção física e algemação, o indivíduo apresentou mal súbito, vindo a perder a consciência. De imediato, a guarnição prestou atendimento pré-hospitalar, realizando manobras de ressuscitação cardiopulmonar (RCP), e procedeu o encaminhamento ao Pronto Socorro. Após o referido atendimento médico, foi constatado o óbito”. Até hoje a família diz não compreender porque Jesus foi torturado, ainda mais porque ele não tinha envolvimento com o crime – como atestam a ficha criminal limpa e os que conviviam com ele. “Não teria informações pra tirar dele, nem [chance] dele ter revidado já que eram oito policiais que o amarraram, queimaram, bateram, como mostra o corpo dele. Tava rendido, se quisessem levar preso tinham levado”, diz Sandra. A hipótese da família é que foi um crime premeditado, por vingança pessoal, embora não saibam dizer o que Jesus teria feito ou visto para atrair o ódio dos policiais – um dos membros da equipe envolvida no assassinato já foi flagrado pedindo dinheiro para livrar um suspeito da prisão, mas não foi afastado do batalhão. Também se falou, entre os policiais, que o jovem teria sido morto como queima de arquivo, segundo uma fonte relatou a um familiar de dona Sandra. “Um mês antes do crime, o Guilherme postou nas redes sociais uma foto dessas feitas com inteligência artificial em que ele estava com uma farda do Batalhão de Choque, e escreveu: “Mais um dia de trabalho no 6º Batalhão de Choque kkk”. Não sei se eles se ofenderam com isso”, diz dona Sandra, afirmando que o filho postou a foto porque se achou bonito de farda. À irmã, que comentou que parecia que ele trabalhava mesmo no batalhão, respondeu em tom de brincadeira: “Quem disse que eu não trabalho?”. Guilherme com a foto feita por IA vestindo farda do 6º Batalhão de Choque Ele também contou à família que uma policial da “choque” tinha mandado um convite de amizade por uma rede social, lembra Ana. “Ele me mostrou a foto, era uma mulher branca de cabelos pretos, mas nem prestei muita atenção porque era tarde eu já estava com sono”, ela diz. Eu falei que ela podia ser casada, ele ia arrumar encrenca, e ele falou “é, pode ser uma armação pra cima de mim” e apagou a foto do Instagram. Dias depois ele apagou a foto também do seu perfil no WhatsApp e contou para a mãe que estava vendo uma caminhonete branca passando devagarinho na porta de casa várias vezes, que ele disse que “era a viatura civil da choque”. Mas não relatou outras ameaças à família nem o que poderia ter irritado os policiais. “Eu até disse pra ele, mas tu não deve nada, por que eles viriam atrás de ti?”, ele não falou nada”. Até o momento não há sinal de que os policiais envolvidos vão revelar como e porquê Jesus foi torturado e morreu dentro de casa. O inquérito civil caminha a passos de tartaruga, embora a advogada da família, Franciele Botelho, tenha enviado fotos, vídeos e pedidos de depoimentos que poderiam esclarecer o caso, de acordo com Sandra. Até hoje a família não recebeu nem o laudo do exame de corpo delito – a perícia do corpo foi feita em um posto médico legal que fica no hospital e foi levado de lá para a funerária. No celular de Jesus, recuperado pela família, há um acesso à 1h20 da madrugada do dia 17 de janeiro, quando ele já estava morto. Segundo, Ana, todos os emails foram apagados. “O delegado disse que só vai deixar a gente ver os laudos quando todos ficarem prontos”, diz Sandra. “A advogada entrou com uma ação (cautelar inominada) porque a polícia civil não fez nenhum tipo de diligência, pedimos os laudos e o depoimento das testemunhas”. A advogada afirma que não pode dar entrevistas sobre o caso nem comentar o inquérito, que é sigiloso. Segundo Sandra, os únicos depoimentos que constam no inquérito até o momento são os dela mesma e o dos policiais. “Eu mesma enviei para a delegacia as provas que a perícia não pegou na minha casa, a bermuda que o Guilherme estava usando, um lençol e um chinelo com sangue, meu vestido queimado”, conta. “O delegado tirou férias três dias depois do crime, ficou um mês fora e tirou outra licença, voltou só na semana passada”, reclama. Extraoficialmente, a família já teve informações que nem a arma nem a cocaína que teriam sido encontradas na casa pelo Batalhão de Choque teriam as digitais de Jesus. O exame para a presença de álcool também teria dado negativo. A suspeita da família é que a droga tenha sido “enxertada” na casa dele, como dizem os moradores, acostumados a casos desse tipo – Uruguaiana fica na entrada da ponte sobre o rio Uruguai que leva à Argentina, e é um porto seco de grande movimentação, atraindo o tráfico de drogas e o contrabando. Na semana em que lembramos o golpe militar de 1964, a história de Jesus mostra, na prática, o que disse à **Pública** a professora Maria Gorete Marques de Jesus, da UFSCar: há um cenário bastante parecido ao dos familiares de vítimas da ditadura, que ficaram com a responsabilidade de produzir o ônus da prova dos crimes cometidos pelo Estado (veja reportagem nesse link). “Eu estou cansada, desconfiada, me sentindo sozinha, mas vou até o fim por justiça para o meu filho”, diz Sandra. ## **Outro lado** A **Pública** tentou insistentemente ouvir o delegado Vinícius Seolin, responsável pelo inquérito civil, mas nenhum dos números da delegacia divulgados no site da Secretaria de Segurança Pública funcionava. Os contatos diretos também foram recusados. A assessoria de imprensa da Secretaria de Segurança Pública do Rio Grande do Sul, que centraliza a comunicação da Polícia Civil, disse que há um Inquérito Policial e um Inquérito Policial Militar (IPM) sobre o caso e repete o teor da nota já citada, que foi divulgada pela Brigada Militar. Veja aqui a íntegra da nota.

Portão estourado, luzes acesas: uma história de tortura no Rio Grande do Sul.
- bsapub
apublica.org/2026/04/portao-estourado...
#Portugus #Direitoshumanos #Justia #PolciaMilitar #Violncia

0 0 0 0
Preview
É uma noite de sexta-feira. Dia 28 de agosto de 2020. Um dia comum de trabalho para o motoboy André Mezzette. De moto, ele havia feito uma entrega de pizza em um bairro da Zona Norte de São Paulo, conta à reportagem. Logo depois, ele estaciona em uma rua para uma breve pausa. Um homem, também de moto, se aproxima e começa a encará-lo. — “Você é ladrão? Você quer roubar alguém?’”, questiona. — “Não, eu sou trabalhador”, responde Mezzette, mostrando a mochila e as comandas da pizzaria. — “Vaza mano, sai fora”, grita o homem, que, na sequência, atinge um soco no rosto do entregador. Depois, o homem saca uma arma, aponta para a cabeça do motoboy e começa a dar coronhadas, chutes e pontapés no entregador. Mezzette sai correndo, grita por socorro, mas o homem o alcança e segue as agressões, o tempo todo apontando a arma para a cabeça do entregador: “Vai ser a sua palavra contra a minha, vou arrumar um B.O. pra você” diz o homem. Só então o entregador percebe que seu agressor é um policial militar. Imagem presente no processo de Mezette mostra momento em que entregador é agredido por policial Em seguida, chegam viaturas da Polícia Militar de São Paulo (PMSP) e Mezzette é levado a um pronto atendimento onde seus diversos ferimentos são tratados. Enquanto o jovem está sendo atendido no hospital, o policial apresenta na delegacia uma ocorrência de tentativa de roubo de sua moto. Sem ouvir o acusado, o delegado determina a detenção em flagrante do rapaz. No dia seguinte, Mezzette é preso. Por sorte, a farsa da sua prisão é revelada por meio de vídeos gravados por moradores do bairro, onde há registros das violências e torturas a que foi submetido. As imagens foram entregues à Justiça e à imprensa, que noticiou o caso com bastante destaque. Mezzette foi solto cinco dias depois da prisão por suposta tentativa de furto. Na época da prisão, com apoio da Defensoria Pública de São Paulo, o motoboy moveu um processo de indenização por danos morais contra o Estado. Mezzette venceu a ação, que transitou em julgado em novembro de 2025. Seis anos depois, em entrevista à **Agência Pública** , Mezzette conta que embora ‘tomar enquadro’ seja parte da rotina de sua vida – “eu saio pra comprar pão e já é tradicional tomar enquadro”, ele diz – a violência que sofreu em 2020 saiu da normalidade. “Ficou tipo um trauma. Por um ano e meio, tive depressão. Hoje, quando eu tô na rua e vejo a polícia, já começo a tremer. Não vivo em paz”, conta. “A violência policial física que ele sofreu pode ser classificada como tortura”, afirma Fernanda Penteado Balera, defensora pública que representou Mezette contra o Estado de São Paulo. “O agente público do Estado agiu deliberadamente para causar a ele [Mezzette] um intenso sofrimento”, diz. Ela explica que casos como esse são muito difíceis de serem levados à frente na esfera criminal, mas na esfera cível “um caso ou outro a gente consegue o reconhecimento de que houve falha do Estado”, explica. Polícia Militar é alvo de denúncias de tortura e violência; casos expõem padrão histórico, fraudes e dificuldade de punição no Brasil ## **Uma explosão de violência nas mãos de uma família** Em Uruguaiana (RS), na fronteira da Argentina, Guilherme Moisés de Jesus, segurança e “chapa” – carregador de caminhões – não sobreviveu para lutar por Justiça. No dia 16 de janeiro deste ano, a casa onde morava com a mãe, Sandra, foi invadida por oito policiais do 6º Batalhão de Choque. Os vizinhos ouviram os gritos desesperados do rapaz, que, menos de duas horas depois, chegou morto à Santa Casa de Caridade. Quando perguntou pelo irmão no hospital, Ana, a irmã mais velha de Jesus, ouviu como resposta do médico: “ó, entra ali, maninha, pra tu ver como eles deixaram ele aqui”. Ela demorou a reconhecer o irmão. “Ele tava sem camisa e o tórax dele totalmente roxo, com um hematoma grande, tipo uma paulada, perto do coração. O rosto também estava roxo, muito inchado, a cabeça muito, muito inchada. As mãos estavam queimadas em vários pontos, os pulsos muito machucados. Ele estava com os olhos e a boca entreabertos, e eu vi que tinha sangue por dentro da boca e que as narinas dele estavam tapadas de terra.” Até hoje, a mãe de Jesus, Sandra, não consegue entender o motivo de tanta violência contra o filho, que nunca foi preso nem acusado de nenhum crime (leia a reportagem completa sobre o caso aqui). Policiais do 6º Batalhão de Choque invadem casa, espancam homem e ele chega morto ao hospital; família denuncia tortura Sandra visita a delegacia com frequência e busca ajuda onde pode: liderou manifestações pedindo respostas para o crime contra o seu filho, aproximou-se de movimentos que lutam por familiares de vítimas de agentes de Estado, como as “Mães de Maio”, contratou uma advogada, reuniu evidências, vídeos e fotografias. Mas sente o peso de lutar sozinha sem respostas dos órgãos públicos. Dois meses depois da morte de Jesus, a família não teve acesso nem ao laudo médico-legal, e a mãe diz que nenhuma testemunha foi ouvida pelo delegado. “Só eu prestei depoimento nesse inquérito e também fui eu quem levou as provas que a perícia abandonou na casa para a delegacia. A bermuda dele molhada, no box do chuveiro, ainda com o maço de cigarros no bolso, roupas minhas queimadas, lençol e chinelo sujos de sangue, até a cama que ele dormia sumiu”, conta. Depois que o caso foi divulgado na imprensa gaúcha, a Brigada Militar declarou ter aberto um procedimento investigatório e afastado os policiais envolvidos. E enviou uma nota que traz uma versão da morte de Jesus que não combina com as marcas de tortura no corpo, fotografadas pela família: “após a contenção física e algemação, o indivíduo apresentou mal súbito, vindo a perder a consciência. De imediato, a guarnição prestou atendimento pré-hospitalar, realizando manobras de ressuscitação cardiopulmonar (RCP), e procedeu o encaminhamento ao Pronto Socorro. Após o referido atendimento médico, foi constatado o óbito”. Essa prática se repete desde os “teatrinhos” da ditadura – como os policiais de então chamavam as versões que inventavam para justificar a morte sob tortura de presos políticos. E que ainda encontra eco em todas as instâncias do Judiciário, como explica a defensora Mariana Py Muniz, autora do livro “Polícia para quem precisa de Justiça”. “Existe uma blindagem da prática policial nas estruturas do Judiciário, por isso tanto nas investigações como nas decisões judiciais prevalece a crença na palavra do policial, que opera para o descrédito da vítima e encoraja a violência”, explica, acrescentando que o estigma se estende à família da vítima que luta por Justiça. ## **Juízes relutam diante das vítimas** Muniz, que participou da criação do Núcleo de Defesa de Direitos Humanos da Defensoria do Rio Grande do Sul, conta que passou a investigar a relação entre o sistema de Justiça e a violência policial depois de perceber que maus tratos em abordagens, torturas e homicídios pela polícia representavam a esmagadora maioria dos casos que chegavam ao núcleo. “Tivemos um atrito com o Ministério Público, porque ele sequer respondia aos nossos ofícios, fui percebendo que o Direito não dava respostas ao que eu via, que o sistema de Justiça não enxergava as vítimas de violência de Estado por isso eu acabei fazendo meu doutorado nas Ciências Sociais”, explica. Durante a pesquisa para o doutorado, Muniz analisou 75 ações indenizatórias, observou audiências de custódia e fez entrevistas com vários magistrados. A conclusão é de que os juízes acabam assumindo “visões muito parecidas com a dos policiais”. “Há todo um estigma dessa vítima, de que ela está mentindo para se beneficiar, está querendo acusar o policial injustamente. Como um juiz me falou, ‘eu preciso da polícia para julgar. Se eu não tiver a polícia, eu não julgo’”, conta a defensora. É também por isso que o uso das câmeras corporais pelos policiais é crucial para coibir a violência, já que a apuração dos fatos passa a não depender tanto da palavra dos próprios agentes. Também no Rio Grande do Sul, quatro policiais militares foram condenados em março deste ano depois de invadir duas residências e submeter as vítimas ao que o Ministério Público definiu como “rodízio de terror”, com três pessoas sendo torturadas de forma alternada. O uso de câmeras corporais foi decisivo para a condenação, como explica a promotora Anelise Haertel Grehs. “Eles bloquearam as imagens mas o áudio continuou aberto e aí o auge da tortura foi capturado”, conta a promotora, destacando que a investigação decorreu da própria Corregedoria Geral da Brigada Militar, que instaurou também um inquérito policial militar. “Claro que também foram ouvidas as vítimas, mas em muitos casos, por temor, nós acabamos não conseguindo o depoimento das vítimas em juízo, ou muitas vezes o depoimento delas acaba não sendo levado em conta, ou melhor dizendo, não tendo a mesma credibilidade que uma prova pericial”, explica. O uso de câmeras corporais é obrigatório em Porto Alegre e na maioria das cidades da região metropolitana, com exceção do batalhão de choque e do BOPE. Como o interior do estado é policiado por seis batalhões de choque, um de cada região, os policiais que levaram Jesus morto ao pronto-socorro de Uruguaiana não usavam o equipamento. O uso de câmeras corporais “pela choque”, como eles dizem, é uma das reivindicações da família e amigos de Jesus. Câmera corporal registra ação policial e pode ser decisiva para comprovar abusos e tortura ignorados pela Justiça ## **Tortura policial é herança da ditadura** Histórias como as de Mezette e Jesus não são casos isolados de tortura e violência policial. Eles fazem parte da realidade do país, embora não haja estatísticas oficiais que contabilizem casos de tortura cometidos por agentes do Estado. Passados 41 anos desde o fim da ditadura civil-militar (1964-1985), quando a tortura era utilizada de forma generalizada contra opositores do regime, a prática de torturar segue uma realidade em espaços de privação de liberdade do país, assim como em abordagens policiais, especialmente em bairros periféricos e contra pessoas negras. É importante lembrar que a tortura não foi inventada pela ditadura militar, uma vez que já vinha sendo utilizada sistematicamente no Brasil desde a escravidão. “Com a transição [da ditadura para a democracia] muito do que tinha na segurança pública ficou mantido. E a tortura e a violência contra os grupos marginalizados na ditadura têm um contínuo na democracia”, afirma Maria Gorete Marques de Jesus, Professora do Departamento de Sociologia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Para a defensora Fernanda Balera, “a não responsabilização dos crimes de tortura que ocorreram na ditadura acaba dando ensejo para que hoje haja uma polícia que ainda é estruturada de forma militar, o que de certa forma também é um resquício da ditadura. Não houve uma reforma efetiva da polícia no período democrático”. A impunidade dos agentes que cometeram crimes de assasinato e tortura é tratada no recém-lançado livro _Nunca Mais_ , do jornalista Camilo Vannuchi, onde ele reconstrói os bastidores do projeto _Brasil: Nunca Mais_ , publicado em 1985 pela primeira vez. O trabalho foi uma iniciativa secreta que copiou e analisou 707 processos do Superior Tribunal Militar, identificou 444 torturadores e mapeou 242 centros de tortura. “Nos meus trabalhos, não estou falando do passado. Estou falando do presente, estou falando do futuro”, explica Vannuchi. O fato de, entre os 444 torturadores citados na obra, “nenhum deles ter sido colocado no banco dos réus, nenhum deles ter sido condenado indica que qualquer pessoa pode torturar na delegacia, no morro, nas quebradas. A ideia é de que a tortura de ontem funciona como um salvo conduto, um estímulo à tortura de hoje”, diz. Para quem vive nas periferias, “apanhar de polícia na rua é tão normal quanto beber água. Eu tô acostumado a apanhar, levar soco mesmo”, afirma Mezette, que faz coro à frase usada por ativistas que denunciam a violência policial hoje, “nas favelas, a ditadura nunca acabou”. “Mas nunca acabou mesmo, e não vai chegar nem perto de acabar. Ela acabou para quem mora num bairro bom, ou numa bolha”, completa. Repressão policial durante manifestação estudantil contra a Ditadura Militar ## **Lei da tortura vai completar 30 anos** Após o final da ditadura, a Constituição de 1988 estabeleceu que “ninguém será submetido a tortura nem a tratamento desumano ou degradante”, mas foi só em 1997 que o dispositivo foi regulamentado com a sanção da lei 9.455, que define o crime de tortura no Brasil. De acordo com a lei, constitui crime de tortura constranger alguém com violência ou grave ameaça, causando sofrimento físico ou mental, para obter confissões, provocar ações criminosas ou por motivos discriminatórios. Na avaliação da defensora pública Fernanda Balera, a lei, que vai completar 30 anos no ano que vem, é um avanço “por permitir nomear uma prática. Temos um repertório para identificar quando um caso é de tortura”, afirma. Porém, avalia, há dificuldades, “pois ainda não há uma política bem estruturada em nível nacional, tanto de acesso à informação como de prevenção e combate à tortura”. Para a professora Maria Gorete Marques de Jesus, da UfSCar, há algumas legislações interessantes, mas que são incapazes de dar conta quando as torturas são promovidas por um agente estatal, afirma. Hoje, segundo ela, há um cenário bastante parecido ao dos familiares de vítimas da ditadura, que ficaram com a responsabilidade de produzir o ônus da prova dos crimes cometidos pelo Estado. “Elas assumem o papel de correr atrás da justiça, das provas, acolher as vítimas, entrar em contato com a promotoria…Não há uma organização do poder público, com uma política consolidada, apesar de experiências em alguns estados”. As experiências nos estados às quais ela se refere são os Mecanismos Estaduais de Prevenção e Combate à Tortura (MEPCT), órgãos independentes criados por leis estaduais para fiscalizar locais de privação de liberdade (presídios, delegacias, abrigos). Compostos por peritos da sociedade civil, eles visitam unidades, entrevistam pessoas presas e recomendam medidas para prevenir a tortura e maus-tratos. Eles existem em alguns estados e em âmbito nacional em função do Mecanismo Nacional de Prevenção e Combate à Tortura, que faz parte do Sistema Nacional de Prevenção e Combate à Tortura, aprovado pela lei 12.847, em 12 de agosto de 2013, ligado ao Ministério dos Direitos Humanos. “O mecanismo tem alguns problemas, como peritos que às vezes não são remunerados, e não dá para dizer que temos uma política pública estruturada coletando dados, pesquisando, fazendo relatórios sobre a questão da tortura”, diz Fernanda. Para Gorete, a dificuldade do Estado em conseguir sistematizar dados sobre tortura é uma espécie de legado da ditadura. “O que não é registrado não existe. Se a gente tivesse um sistema de produção desses registros de casos a gente levanta o problema, mas quando a gente não tem essa sistematização o problema não é tornado real”, pontua. ## **Falta entendimento do que é tortura no Brasil** Outro desafio em relação ao combate à tortura no país, apontam especialistas, é a compreensão do que é visto como tortura por parte dos agentes do direito. “Temos a legislação, mas se concretamente quem tem papel de atuar de forma incisiva sobre o caso e não reconhece isso como tortura acaba normatizando uma violência contra um grupo específico”, afirma Gorete. Um exemplo disso é o que ocorre em audiências de custódia. Elas são momentos em que o preso em flagrante é apresentado ao juiz 24 horas após a detenção para que se decida se a prisão será mantida ou não. A audiência de custódia foi implementada no Brasil em fevereiro de 2015 pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Além de avaliar a legalidade da prisão, o objetivo da audiência é averiguar possíveis casos de violência policial e tortura praticadas contra presos. O relatório _Caminhos da tortura na Justiça juvenil brasileira: o papel do Poder Judiciário_ , encomendado pelo CNJ e publicado em 2025 analisa audiências de apresentação (equivalentes às audiências de custódia) de adolescentes. O levantamento foi feito entre setembro de 2023 e setembro de 2024 em seis estados do país para entender como ocorre a tortura contra os adolescentes e como magistrados agem nesses casos. Foram estudadas 185 audiências e em apenas 38% delas os magistrados questionaram os adolescentes sobre como foram realizadas as abordagens. Em 18,9% houve questionamento direto sobre tortura. Foram feitas 23 denúncias de tortura e em 91,3% delas os autores da violências foram policiais militares. De acordo com o documento, houve relatos de violências físicas e psicológicas, incluindo ameaças de morte. Entre as violências, há socos, chutes, asfixias, tapas, choques, afogamentos, atropelamentos. São usados como instrumentos mãos, pés, cassetetes, armas de fogo, alicates, teasers, spray de pimenta, paus e veículos automotores.. Segundo a pesquisa, o tema da tortura aparece muito pouco nas audiências de apresentação, porque os juízes não perguntam diretamente ao adolescente. ## **Na prática, audiências fazem pouco para investigar e punir tortura** Na avaliação da defensora Fernanda Balera, a criação da audiências de custódia veio com uma grande expectativa de ser mais um mecanismo de combate e prevenção à tortura. “Mas, na prática, o que fomos vendo é que os agentes que estavam na audiência de custódia, tanto juiz, promotor ou defensor, eles pouco se responsabilizavam sobre a apuração daqueles casos”, diz. Ela conta que a Defensoria Pública de São Paulo criou um formulário para defensores que atuam nas audiências de custódia para coleta de dados de violência e tortura. Os dados foram coletados entre 2023 e 2024. Foram 146 casos de violência registrados a partir da autodeclaração da pessoa, a maior parte da violência era física, em 80% dos casos ela acontecia no momento da abordagem e em 50% dos casos tinha algum indício de lesão corporal. A maior responsável pelos atos de violência, segundo a pesquisa, foi a polícia militar, em 74% dos casos. E em 70% dos casos não houve atendimento médico após a violência. “Também chama a atenção que nesses casos, o juiz da custódia apenas encaminhava o caso pra corregedoria do órgão do agente que tinha praticado a violência, sem a preocupação de investigar o crime de tortura”, aponta Fernanda Balera.

Da ditadura à democracia, tortura segue praticada e falta punição.
- bsapub
apublica.org/2026/04/da-ditadura-a-de...
#Portugus #Direitoshumanos #Ditaduramilitar #Justia #PolciaMilitar #Tortura #Violncia

0 0 0 0
## EP 54 Um mundo sem petróleo: dá pra ser agora ou na volta a gente compra? 2 de abril de 2026 · Podcast traz atualizações sobre pautas essenciais que a guerra relegou ao esquecimento __ __ 0:00 -:-- __15 __15 ______ ____ Veja mais episódios desta série No episódio desta semana, o **_Bom dia, fim do mundo_** faz um exercício de imaginação: como seria se decidíssemos realmente abandonar os combustíveis fósseis a partir de agora? Quais medidas e investimentos seriam necessários? Giovana Girardi, Marina Amaral e Ricardo Terto debatem as possibilidades e necessidades para uma transição energética total no Brasil nos próximos quinze anos. A notícia é boa, mas demanda investimentos e mudança de rota urgentes, e não se pode deixar de levar em conta os impactos que as novas formas de produzir energia têm na vida das pessoas e na economia do país. Além disso, o programa comenta também sobre um novo vilão no consumo de energia: os datacenters, verdadeiros monstros devoradores de recursos naturais. > **E mais:** > > * Na Trombeta da semana, dois extremos da produção textual contemporânea: a avalanche de textos genéricos escritos por IA, e a já célebre redação feita por um vestibulando que ultrapassou todos os limites da grandiloquência. Ouça agora. >

Um mundo sem petróleo: dá pra ser agora ou na volta a gente compra?.
- bsapub
apublica.org/podcast/2026/04/bom-dia-...
#Portugus #Energia #Meioambiente #Petrleo #Poltica

0 0 0 0
Desde o ano passado, a **Agência Pública** vem investigando o lobby das big techs. No Especial _A Mão Invisível das Big Techs_ , fizemos uma parceria com 17 veículos de 13 países para entender como o lobby funciona nos Congressos nacionais e nos governos. No Brasil, conseguimos mapear 1955 ações de lobby nos últimos anos. Para continuar acompanhando o lobby das big techs, desta vez em âmbito local, lançamos a 21ª edição das Microbolsas da **Pública**. Convidamos repórteres do Brasil todo a investigar a atuação de grandes empresas de tecnologia nos Estados e Municípios. Recebemos pautas de diferentes cantos do país e selecionamos três, que serão contempladas com a bolsa de R$ 8 mil e mentoria da **Agência Pública.** Conheça os repórteres selecionados: * **Luan Matheus Santana** , do Piauí, é jornalista, educomunicador popular, podcaster, realizador audiovisual e doutorando em Comunicação pelo Programa de Pós-graduação em Comunicação Social da UFC (PPGCOM-UFC). É mestre em comunicação social pelo Programa de Pós-graduação em Comunicação Social da UFPI (PPGCOM – UFPI) e Especialista em Marketing e Mídias Digitais pela Faculdade Adelmar Rosado (Pós FAR). É coordenador geral da Plataforma Ocorre Diário e tem experiência na área de Comunicação, com ênfase em comunicação digital e direitos humanos, justiça socioambiental, comunicação popular e comunitária, atuando principalmente nos seguintes temas: comunicação e direitos humanos, decolonialidade, atravessamentos ético-raciais na comunicação, dispositivos móveis, web-jornalismo e comunicação social. * **Naira Hofmeister** é uma premiada jornalista investigativa com 20 anos de experiência em reportagens sobre conflitos socioambientais no Brasil. Seu trabalho foi publicado por importantes veículos brasileiros e internacionais, incluindo The Guardian, Mongabay, El País e Folha de S. Paulo. É especialista em investigar os impactos das cadeias produtivas — como pecuária, cultivo de soja e milho e mineração de ouro — nos biomas brasileiros, incluindo a Amazônia, o Cerrado e o Pantanal, bem como os fluxos financeiros globais que sustentam esses setores. Desde julho de 2024, divide seu tempo entre investigações transfronteiriças e projetos de jornalismo local em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, onde reside. * **Sofia Costa** é estudante de Jornalismo na Universidade Federal de Goiás e de Ciência de Dados e Inteligência Artificial na PUC-GO. Atualmente é estagiária no Núcleo Jornalismo, com foco de cobertura em tecnologia, especialmente envolvendo dados.

Microbolsas Big Techs: repórteres vão investigar lobby em três regiões do Brasil.
- bsapub
apublica.org/2026/04/microbolsas-big-...
#Portugus #Lobby #Poltica #Redessociais #Tecnologia

0 0 0 0
Preview
Quanto custa montar um aparato repressivo? Em setembro de 1969, a Força Pública do Estado de São Paulo encaminhou ao governador do Estado um orçamento para a constituição de um “Plano de Mobilização Anti-Insurrecional” no valor total de 7.253.100 cruzeiros novos, a moeda da época, pouco depois da constituição da Operação Bandeirante, a Oban. Criada em julho de 1969, na esteira do Ato Institucional nº 5, de 13 de dezembro de 1968, a Oban era um órgão semiclandestino e supostamente não possuía verba oficial para operar. Nos primórdios, funcionou nas dependências do 2º Batalhão da Polícia do Exército, na rua Tomás Carvalhal, Vila Mariana, cidade de São Paulo. Mas a quantidade de presos aumentou, assim como a quantidade de pessoas envolvidas no órgão, e foi necessário mudar de local. Foi quando o governador Abreu Sodré cedeu parte das dependências nos fundos da 36ª Delegacia de Polícia que ficava na rua Tutoia, onde passou a funcionar efetivamente. Para ajudar, o prefeito da cidade à época, Paulo Maluf, mandou que fossem instalados postes de iluminação e asfaltou uma área próxima ao distrito policial, na avenida Sargento Mario Kozel Filho, cujo nome foi dado em 13 de agosto de 1969. Na mesma época, a prefeitura gastou 140 mil cruzeiros novos em uma construção para isolar o Quartel General do II Exército. “Havia uma corrida para reorganizar a repressão e a Força Pública, sugere este documento, que parece buscar os recursos para se transformar na Polícia Militar”, avalia Marcelo Godoy, autor do _A Casa da Vovó_ – uma biografia do DOI-Codi (2014). Ao propor um orçamento para sua atuação como “força anti-insurrecional”, a Força Pública de São Paulo inseria-se no debate sobre a segurança pública imaginada pelo regime militar. As datas e valores corroboram a ideia que o investimento do Estado nesse Plano foi aproveitado na estrutura da Oban/DOI-Codi, mas não se conhece comprovação documental desse fato. Ligada ao II Exército, a Oban ganhou o nome de DOI-Codi (Destacamento de Operações e Informações – Centro de Operações de Defesa Interna) em 1970, quando o sistema passou a ser institucionalizado, antes de se espalhar pelo país. Ainda em 1969, a Força Pública do Estado foi transformada pelo governo ditatorial na Polícia Militar como parte da reorganização da repressão política e também para crimes comuns. A essa altura, a força da guerrilha armada já não era segredo: em 13 de agosto de 1969, a revista _Veja_ colocara em sua capa o título “Os terroristas – Quem são? Onde estão? O que querem?” O valor do orçamento elaborado pela Força Pública, atualizado até novembro de 2025 pelo IGP-DI (FGV), alcança a casa de R$ 83,8 milhões. A título de comparação, a indenização para vítimas da ditadura militar no Brasil – mortos e desaparecidos políticos – é calculada com base em critérios estabelecidos por lei. Esse valor máximo hoje é de R$ 100 mil – ou seja, o orçamento para criação de um aparato de repressão tal qual planejado seria suficiente para indenizar 838 vítimas da ditadura no país. Era também um valor maior do que o previsto para o policiamento motorizado do Estado, de acordo com o próprio autor do documento. Para o policiamento, estariam previstos, em 1969, 5.617.862 cruzeiros novos – mas o recurso teria sido totalmente cortado. ## **Os militares que assinaram o orçamento** Localizado no Arquivo do Estado de São Paulo por pesquisadores que subsidiaram os trabalhos da Comissão Nacional da Verdade, o orçamento foi encaminhado ao então governador Roberto Abreu Sodré em 9 de setembro de 1969 (pouco mais de três semanas após a reportagem da _Veja_) pelo General Olavo Viana Moog (que atualmente dá nome a uma escola estadual no Jardim Celeste, na zona oeste de São Paulo). Na primeira página dele, uma anotação à mão pede “muita atenção a esse pedido”, seguida da assinatura de Moog e antecedida pela definição, essa a máquina, de “reservado”. Moog ocupou o cargo de secretário de Segurança de São Paulo entre agosto de 1969 e março de 1970. Depois, foi um dos responsáveis pela repressão aos guerrilheiros do PC do B na Guerrilha do Araguaia, no início da década de 1970. A proposta de reequipamento da Força Pública foi aprovada pelo coronel Confúcio Danton de Paula Avelino, de acordo com o despacho nº 23-607/F4. O comandante geral da corporação determinou ainda a elaboração de lista de preços para custeio das despesas apontadas no relatório, no que foi prontamente atendido, de acordo com o ofício nº 1-047-S01, pelo chefe do Serviço de Finanças da Força Pública, major Eleuses Dias Peixoto. “Documentos administrativos têm muito a contar sobre a forma de funcionamento dos órgãos de repressão. Cada vez mais, a busca em arquivos não convencionais traz informações que, associadas a documentos da Oban/DOI-Codi, elucidam dúvidas e lacunas”, avalia a historiadora Deborah Neves, coordenadora do GT Memorial DOI-Codi e pesquisadora da Unifesp, autora da tese _Construindo o Poder; ditadura e obras públicas em São Paulo_ (1965-1978). Ela também é autora do livro “ _A persistência do passado_ : patrimônio e memoriais da ditadura em São Paulo e Buenos Aires”. Ato Público de Memória “DOI-Codi 50 anos do golpe”, em 2014. “Foi assim durante o estudo de tombamento que identificamos na Procuradoria do Patrimônio Imobiliário o processo que tratou da cessão do terreno da Rua Tomás de Carvalhal firmada entre o Governo do Estado de São Paulo e o II Exército, além da identificação do Projeto de Lei que viabilizou a construção do muro do Quartel por parte da Prefeitura de São Paulo. Esses documentos provam a articulação no uso do orçamento dos diferentes entes federativos para atuar na repressão”, diz Neves. O orçamento feito pelo major Eleuses Dias Peixoto tem um preâmbulo, um plano de mobilização contra as forças anti-insurrecionais assinado pelo coronel João Áureo Campanha que detalha as necessidades materiais e de organização de uma Força Anti-Insurrecional. Neste texto, Campanha avalia que “a Força Pública não tem condições de concentrar seus efetivos, a não ser que prejudique os serviços policiais. Entretanto, as unidades do Exército Brasileiro, que estão, estrategicamente, localizadas no Estado, possuem a necessária concentração de forças”. No desenho feito pelo coronel, “a solução consequente será coordenar os órgãos de segurança da corporação com as unidades do Exército Brasileiro”. O coronel prevê ainda que toda operação que supere o âmbito regional deve ser coordenada pelo Estado Maior da Força Pública e que “dispositivos especiais deverão ser montados visando surpreender o inimigo em suas atividades” – para Campanha, toda ação policial deve ser “ofensiva”, “seja no combate à delinquência comum, seja contra dispositivos de insurreição armada”. Para Marcelo Godoy, o fortalecimento da repressão exigia alguma acomodação entre a Polícia Civil, a Força Pública e o Exército. A elaboração deste documento pela Força Pública mostra uma disposição deste grupo policial com a ideia de colaborar fortemente na repressão política e, assim, colocar-se também numa posição de disputar os recursos para se reequipar e se expandir. De acordo com o livro _A Casa da Vovó_ , a Polícia Militar, criada a partir da Força Pública, “forneceu ao longo dos anos 70% do pessoal” do DOI-Codi, que atuou em “todos os setores da unidade”. Antes de chegar a Moog, o relatório de Campanha e o orçamento de Peixoto foram entregues e aprovados pelo então coronel Confúcio Danton de Paula Avelino. ## **A contribuição de banqueiros e empresários** O custo da compra de equipamentos coincide com um número igualmente relevante para o período: o valor supostamente arrecadado por banqueiros e empresários durante encontro realizado no Clube São Paulo, no casarão que pertenceu à Dona Veridiana da Silva Prado, na Rua Dona Veridiana, em Higienópolis, na mesma época. O jornalista Elio Gaspari afirma, em seu livro _A ditadura escancarada_(2002), que “a reestruturação da PE [Polícia do Exército] paulista e a Operação Bandeirante foram socorridas por uma ‘caixinha’ a que compareceu o empresariado paulista” no segundo semestre de 1969. Gaspari se baseou em documentos dos arquivos de Golbery do Couto e Silva e Ernesto Geisel, entre outros, além de série de entrevistas concedidas pelo ex-governador de SP Paulo Egydio Martins (1988), o empresário Paulo Sawaya (1990) e o banqueiro Gastão Vidigal (1995). Golbery foi general do Exército e um dos principais ideólogos da ditadura militar no Brasil. Esteve à frente do Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (Ipes), criado em 1961 com o objetivo de defender a iniciativa privada e, principalmente, conspirar politicamente contra governos nacionalistas considerados de esquerda. Ele esteve à frente do SNI durante sua criação em 1964 e manteve enorme influência entre 1960 e 1970, tendo ocupado a Casa Civil do governo do presidente Ernesto Geisel (1975-1979). Ainda segundo Gaspari, o recolhimento de contribuições para financiar o que chamavam de luta contra a subversão foi feita dentro do clube dos banqueiros (oficialmente o nome era Clube São Paulo, um lugar de reuniões da aristocracia e empresariado paulista), que pertencia a Gastão Vidigal, dono do Banco Mercantil de São Paulo, e irmão de Luís Eulálio Bueno Vidigal, dirigente da Cobrasma, onde, em 1968, uma grande greve metalúrgica foi reprimida com ajuda de blindados do Exército. Na citação de Gaspari, sobre a reunião no palacete, é informado ainda que o ministro Antonio Delfim Netto apresentou aos empresários o problema da falta de verbas para a estruturação ao combate à repressão em São Paulo. Eles então assumiram o compromisso de pagar os gastos. Foi Gastão Vidigal quem “mencionou a cifra (‘500 milhões’), mas não se mostrou seguro a seu respeito. Lembra-se, contudo, que ‘era muito dinheiro’”. Um encontro especial no segundo semestre de 1969 contou com a presença de donos de pelo menos 15 grandes instituições financeiras. De acordo com o jornalista, Vidigal havia fixado em 500 mil cruzeiros novos a contribuição aos benemerentes presentes nesse encontro no Clube São Paulo. Aqui, é relevante fazer a conta: 500.000 x 15 = 7.500.000, ou apenas 246.900 cruzeiros novos a mais do que o indicado no orçamento. Apesar desta coincidência de número, Godoy avalia que o orçamento da Força Pública não deve ter sido feito para a constituição da Oban, embora faça parte do contexto de transformações no aparato repressivo da época. Outros pesquisadores também registram as reuniões de empresários na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e os encontros no Clube São Paulo. René Dreifuss, em _1964: A conquista do Estado. Ação política, poder e golpe de classe_ (1981) também conta a história do financiamento da Oban. Os almoços no palacete da Dona Veridiana, feitos só para homens convidados por Gastão Vidigal eram frequentes, praticamente semanais. Discutia-se política e economia. Foi numa dessas reuniões que primeiro se passou o chapéu para o aparelhamento da Oban, segundo ele. Dreifuss também registra a presença de Delfim Netto e de 15 outros sócios num almoço entre agosto e setembro de 1969. Gastão Vidigal e Delfim, então ministro da Fazenda, teriam pedido a ajuda financeira para montar a Oban. O orçamento, neste caso, pode ter sido feito antes ou depois dela, ou seja, pode ter sido montado em torno do valor arrecadado (na hipótese de se inserir numa disputa pelos recursos) ou, num outro sentido, ter orientado o valor das doações. ## **Prática recorrente de financiamento, segundo os relatos** Os comensais já estavam acostumados com tal tipo de solicitação. Meses antes já haviam participado, e contribuído, com outra ‘caixinha’, para ampliar o efetivo da Polícia do Exército na capital. Tal ajuda financeira foi assim descrita pelo general Ernani Ayrosa da Silva, que chefiou o Estado-Maior do II Exército, em São Paulo, de maio de 1969 a janeiro de 1971, de acordo com descrição feita pelo ex-comandante do DOI-Codi, o major Carlos Alberto Brilhante Ustra, no livro _A verdade sufocada_ (2007): “Por uma solicitação do general Canavarro ao Ministro, antes de atingirmos um mês de Comando, já recebíamos autorização para ampliar o efetivo da Polícia do Exército, de Companhia para Batalhão. Somente um óbice iríamos enfrentar: não receberíamos nenhuma ajuda em recursos para a transformação do quartel e melhoria das precárias instalações. Não nos intimidamos com a realidade. Surge aqui com muito vigor a presença infinitamente grande de uma pessoa que já convivia conosco e que de pronto assumiu o encargo de coordenar os recursos para a ampliação do quartel que abrigava 200 homens para 960 policiais”, afirma Ustra no livro, referindo-se ao general Canavarro. Outro jornalista, Sebastião Pereira da Costa, no livro _Não verás nenhum país como este: um relato cronológico da violência e do arbítrio_ , avança mais um pouco no debate sobre a atualização do material e equipamento do aparelho repressivo, através do provimento de capitais privados para a reestruturação das operações militares e policiais contra o inimigo interno. Costa indaga, justamente, acerca da proveniência do financiamento e da cooperação econômica e de agentes privados com a Oban: “E onde conseguir os recursos para tocar essa máquina monstruosa, visto que era um órgão paramilitar e extraoficial? Fácil. Assim como os perdigueiros farejam perdiz a quilômetros de distância, há gente que fareja dinheiro. Corre daqui e dali, alguns telefonemas. Pronto”. Sebastião Pereira da Costa dá nomes: “o grupo Ultra, por seu diretor, Henry Boilesen, a General Motors, a Ford, a Mercedes e a Brown-Boveri e empresários nacionais, contatados por Fuad Lutfalla, se dispõem a bancar os custos da Oban, que se instala, provisoriamente, nas dependências do 36º Distrito Policial, na rua Tutoia, bairro do Paraíso, em São Paulo”. Boilesen frequentava as sessões de tortura na Tutoia e foi morto por um comando da Aliança Libertadora Nacional em abril de 1971. Conforme registro de pesquisa de René Armand Dreifuss, desde os tempos da conspiração das classes proprietárias e dominantes aglutinadas no complexo Ipes, em São Paulo, o grupo Fuad Lutfalla dispunha dos serviços jurídicos do advogado Alfredo Buzaid, além de se vincular, familiar e economicamente, ao político Paulo Salim Maluf, casado com Sylvia Lutfalla Maluf. O cientista político Moniz Bandeira, no livro _Cartéis e desnacionalização. A experiência brasileira_ (1975) destaca um artigo do jornalista Manfred von Conta, do _Süddeutsche Zeitung_ , de Munique, Alemanha, que informa que “as iniciativas de setores radicais do regime e do industrial Henning Boilesen, do Grupo Ultra, se deveram à institucionalização, em 1969, dessas contribuições financeiras, para a formação de um fundo destinado a subvencionar a repressão política”. Boilesen atuava, também, como membro do Conselho Orientador do Ipes São Paulo, ao lado de outras figuras do empresariado paulista ligado ao regime militar. Em sua obra, René Armand Dreifuss acrescenta que “incluía-se entre os responsáveis pela consolidação de um esquema de apoio financeiro para o aparelho repressivo da polícia e das Forças Armadas. H. Boilesen reuniu um grupo de empresários que contribuíam financeiramente e forneciam equipamentos para as organizações de segurança. Esse apoio mostrava uma outra dimensão da coordenação entre empresários e militares”. O Ipes São Paulo teve entre seus fundadores João Baptista Leopoldo Figueiredo, que era primo do ex-presidente general João Baptista Figueiredo. Segundo o jornalista Elio Gaspari, no já citado _A ditadura escancarada_ , embora desde 1964 fosse semeada “a associação entre interesses empresariais e os da segurança”, esta relação colaborativa e solidariedade política, econômica e militar, de fato, “floresceu em julho de 1969”. “A Fiesp atirou com um manifesto em que denunciou o ‘vandalismo’ das ‘falanges da subversão e do genocídio’. O presidente da Federação do Comércio, José Papa Jr., garantiu sua solidariedade às Forças Armadas, ‘que se cobriram de glórias nas trincheiras e nos céus da Europa’ […] Chegou o momento de dizer basta!, acrescentou o presidente da Confederação Nacional do Comércio, Jessé Pinto Freire. O governador Abreu Sodré advertiu: ‘Não há lugar para fracos ou covardes na presente situação: ou se está a favor da ordem que constrói ou pela desordem que destrói’”. O texto ainda apresenta mais detalhes da colaboração de empresários paulistas para com a repressão promovida pela ditadura. Importante citar que já naquela época a federação dos industriais mantinha uma diretoria formada por militares. No filme _Cidadão Boilesen_ , o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso faz uma avaliação do significado da contribuição dos empresários para a repressão. “Isso foi importante politicamente para o regime, porque solidarizaram-se setores empresariais com o regime: ‘vocês também estão com a mão aqui’. Não é por causa do dinheiro em si, dinheiro, o governo tinha, foi um apoio político, selado através do dinheiro”. ## **Inimigos internos: quem eram os alvos da operação** Diagrama apresenta o que os militares chamavam de “Mecanismo da Subversão”; nele estão ‘potências estrangeiras’, ‘agente locais’, ‘sistema de segurança’, ‘sistema econômico’, ‘estrutura psico-social’ e ‘sistema político’ O documento da Força Pública apresenta um desenho de como deveria ser o combate à esquerda e afirma haver a necessidade de renovar os equipamentos e materiais utilizados na luta contra os “inimigos internos”. A polícia, segundo o Plano Político e Militar de Segurança Interna, estava defasada e não possuía os equipamentos necessários para combater os supostos subversivos. A lista de compras presente no orçamento possui diversos itens, que vão desde veículos até linhas telefônicas e outros itens que foram incorporados por militares no combate aos opositores do golpe militar. O objetivo era comprar 100 viaturas para a Rádio Patrulha; 10 carros de transporte de presos e recuperação de 60 viaturas. Para as operações anti-insurrecionais seriam compradas 8 caminhonetes para transporte de materiais, 8 furgões e 5 peruas. Já para as operações de surpresa e assalto seriam necessários 10 caminhões 4 x 4 para transporte de tropa, 50 geradores portáteis e respectivos conjuntos de iluminação. Também pede a aquisição de 54 armários de aço, com chave de segredo, para guardar armas. O negócio incluiria ainda obras de instalação de um Centro de Operações e Comunicações, 300 transceptores VHF móvel, 100 rádios HT e 50 linhas telefônicas da Companhia Telefônica Brasileira; combustível, lubrificantes e manutenção de viaturas durante período de quatro meses e reforço de alimentação dos agentes. Nessa época, não havia um centro de recepção de chamados policiais (como funciona hoje o número 190), e essa questão parecia ser urgente para a Força Pública. Todos esses veículos listados – perua, viaturas básicas, furgões, camionete, picape, caminhões de transporte de tropas e de carga – tinham como fabricantes e fornecedores General Motors, Volkswagen, Ford, Scania, Mercedes Benz, Chrysler e FNM. São empresas que tiveram seus nomes atrelados à cooperação para com a repressão militar aos opositores da ditadura e lideranças de trabalhadores e de organizações civis, além, claro, de constar no relatório final da Comissão Nacional da Verdade (CNV). Segundo destaca o jornalista Marcelo Godoy no seu livro, para equipar o Exército no combate à subversão, montadoras de veículos, como Volkswagen, GM e Ford, enviaram carros à Oban. Além das fabricantes de veículos, destaca o repórter, outras empresas colaboraram para o funcionamento da Oban/DOI-Codi. “A Supergel mandava comida congelada, que se transformava nas quentinhas do DOI, e a Ultragaz emprestava-lhe caminhões”. ## **Orçamento foi localizado em pesquisas para a Comissão Nacional da Verdade (CNV)** O orçamento da Força Pública para a ação anti-insurrecional está detalhado no livro _Repressão sociedade anônima – Banqueiros, fabricantes de veículos e metalúrgicas na repressão aos trabalhadores na ditadura militar_ , de Eduardo Reina e Maria Angélica Ferrasoli, que será lançado pela Alameda Casa Editorial no início de 2026. A documentação foi localizada pela equipe de pesquisadores coordenada por Joana Monteleone e Haroldo Ceravolo Sereza em 2013, num trabalho para subsidiar a Comissão Nacional da Verdade. Em 2016, eles, junto com Rodolfo Machado, Vítor Sion e Felipe Amorim, lançaram o livro _À espera da verdade_ – histórias de civis que fizeram a ditadura militar, também publicado pela Alameda. Havia, por parte dos pesquisadores, alguma dúvida se a peça tinha tido uso ou não para a criação da Oban, o que ainda permanece como uma dúvida. O cruzamento com os valores declarados por testemunhas, feito recentemente pelos jornalistas Eduardo Reina e Maria Angélica Ferrasoli, por outro lado, deu a certeza de que o orçamento em alguma medida foi relevante no contexto, podendo ter sido resultado ou um dos fatores ligados à reorganização repressiva do período. A leitura do documento permite inferir, também, que o desenho institucional do DOI-Codi, combinando a participação de militares do Exército e policiais civis e militares de São Paulo, também estava ligado ao contexto em que o documento foi produzido.

Ditadura: Polícia de SP tinha orçamento de R$ 84 milhões para montar aparato repressivo.
- bsapub
apublica.org/2026/04/ditadura-policia...
#Portugus #Direitoshumanos #Ditaduramilitar #Exrcito #Militares #PolciaMilitar #SoPaulo

0 0 0 0
Preview
Em junho de 1971, a popular revista Manchete cravou no título de uma reportagem: “A Bolsa está na moda”. Outros meios de comunicação corroboravam a afirmação. Enquanto a Rádio Nacional transmitia diariamente o Jornal da Bolsa, os cadernos de economia e finanças dos jornais do país eram tomados por páginas de informações sobre o mercado de capitais. Subitamente, os cadernos foram encorpados com gráficos de índices do mercado financeiro, indicadores de altas e baixas da Bolsa de Valores, balancetes de empresas, notícias sobre investimentos em ações, fundos, debêntures e outros valores mobiliários, além de anúncios diversos de corretoras financeiras. O tema não se atinha ao setor de economia e se expandia para colunas sociais – com comentários sobre a atividade de algum “colunável” na Bolsa – e até mesmo para o horóscopo. A seção de astrologia do jornal Correio da Manhã, datada de 1 de janeiro de 1970, previa para o signo de Escorpião que o ano seria próspero e que a sorte lhe sorriria “em rifas, bolsa de valores e loteria”. Já um anúncio da Bolsa de Valores do Rio de Janeiro no mesmo jornal, lembrava que “progresso é feito de ação” e propunha a questão: “uma pessoa fica rica porque é acionista ou se torna acionista porque é rica?”. Anúncio da Bolsa de Valores 1968 O teor otimista e explicitamente propagandístico exposto na mídia em relação ao mercado acionário fazia parte da política desenvolvimentista do governo militar, que então vivia o propalado “milagre econômico”, na virada da década de 1960 para 1970. E a Bolsa de Valores, em pleno momento de ascensão, seria uma espécie de termômetro da situação econômica do país. Para a instalação de tal mercado e para a popularização de investimentos em compras de ações de empresas como forma de poupança – já que, até o início dos anos 1960, a aquisição de imóveis era o investimento favorito de camadas da população dotadas de disponibilidade monetária –, uma profunda reforma econômica e financeira foi programada pelo governo ditatorial, que assumiu o poder em abril de 1964. “Essas reformulações foram concebidas originalmente no interior de órgãos como o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPÊS), que constituía uma frente empresarial-militar. Houve uma reestruturação do sistema financeiro nacional logo no primeiro governo ditatorial, com o Castelo Branco. Entre as reformulações, estavam as criações do Banco Central e do Conselho Monetário Nacional e também do mercado de capitais”, explica o historiador Pedro Henrique Pedreira Campos, professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). “Eles partiam do princípio que era preciso criar uma poupança interna, já que o Brasil não tinha poupança. Para isso, haveria a necessidade de um mercado de capitais e da reformulação do sistema financeiro nacional”, acrescenta. A fundação, em 1964, do Banco Central (BC) e do Conselho Monetário Nacional (CMN) – órgãos cruciais para a regulação do mercado e da política financeira – e a instauração, em 1965, da Lei de Mercado de Capitais, ao lado da criação da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e da Lei das Sociedades Anônimas, em 1976, criariam a base do mercado de ações e títulos atual. As reformas da época construíram a infraestrutura que permitiu o desenvolvimento do setor, mas que também resultaram em um crescimento especulativo, concentração do capital e aumento das disparidades econômicas. ## **Entre o mercado financeiro e os porões da repressão** Durante a ditadura civil-militar, o grande capital e a repressão estatal integravam o mesmo ecossistema estrutural. Para a proteção do capital, parte do empresariado nacional patrocinou a criação de órgãos clandestinos de segurança e vigilância. Signatário do AI-5, o ato que reforçou o autoritarismo do regime, o ministro do Planejamento Delfim Netto lidava com o balcão de negócios da economia oficial e também participava de reuniões fechadas sobre o financiamento empresarial para estruturar os porões da repressão e tortura. “Seu assessor, o empresário Paulo Henrique Sawaya Filho, [já falecido] espécie de tesoureiro da Operação Bandeirante, a Oban (precursora do DOI-Codi), coletava polpudas contribuições junto a banqueiros e empresários paulistas”, conta Ivan Seixas, consultor especial da Comissão Nacional da Verdade. O relatório da comissão descreve: “ficou conhecido o banquete organizado pelo ministro Delfim Netto no Clube São Paulo, antiga residência da senhora Veridiana Prado, durante o qual cada banqueiro, como Amador Aguiar (Bradesco) e Gastão Eduardo de Bueno Vidigal (Banco Mercantil de São Paulo), entre outros, doou o montante de 110 mil dólares para reforçar o caixa da Oban”. A proximidade entre o mercado financeiro e a repressão se tornou evidente em certos casos, como o do paraquedista Valdemar Martins de Oliveira. Recrutado em 1968 pelo Centro de Informações do Exército (CIE), Oliveira, ao se recusar a participar de ações de apreensão e repressão após presenciar execuções de militantes, foi enviado para trabalhar numa corretora de valores mobiliários, a DIMIG, onde atuou como espião e também como funcionário – mesmo sem ter experiência. “Não sabia o ofício, mas aprendi, então emitia e assinava títulos de fundos de investimentos de empresas como a Mannesmann. Ao mesmo tempo, eu tinha que vigiar a diretoria da corretora”, conta ele, que afirma que militares visitavam constantemente a empresa. O ex-agente garante que, em pouco tempo, ganhou muito dinheiro na Bolsa de Valores: “como as ações explodiam na época, com o dinheiro de uma semana, eu comprei um [carro] Karmann Ghia”, disse à reportagem. Além da DIMIG, Oliveira trabalhou em outra corretora, a SPI. Diariamente, ele tinha que levar relatórios para o DOI-Codi de São Paulo sobre suas atividades. “Esse tipo de empresa era feito para acobertar esquemas dos militares. Já procurei informações, mas elas não deixavam rastros, e esse é um dos motivos para não se encontrar um CNPJ ou outro dado sobre elas”, conta Thiago de Oliveira, filho do militar. A reportagem também não encontrou informações atuais sobre as empresas. Anúncio da DIMIG no Jornal do Brasil Aliada da ditadura, a empresa citada por Oliveira, a Mannesmann, foi denunciada, anos depois, por uso de monitoramento, repressão e tortura a seus funcionários. As mesmas acusações se aplicaram a outras empresas grandes e altamente valorizadas na bolsa, como a Petrobras e a Belgo-Mineira, por exemplo. ## **Escândalos financeiros** Enquanto algumas empresas tiveram seus nomes relacionados à repressão, outras, particularmente atreladas ao setor financeiro, estiveram envolvidas em rumorosos escândalos. “É importante frisar que o novo ambiente financeiro, com todo o cerceamento que a ditadura impôs, abriu margem para uma série de escândalos de corrupção”, declara o historiador Pedro Henrique Pedreira Campos. Apesar da censura e da intervenção do governo para salvar algumas empresas, diversos episódios do período se tornaram públicos, a exemplo do Banco Halles, Banco Econômico, Agropecuária Capemi, Caso Lutfalla (ligado a Paulo Maluf), Grupo Coroa-Brastel, Grupo Delfin – este, dono da maior caderneta de poupança do país. Um episódio em específico, narrado pelo jornal Folha de S. Paulo, do grupo Brasilinvest, remete diretamente aos dias atuais. Antes do Banco Master e das fintechs de fundos de investimentos duvidosos, o grupo fundado em 1975 pelo empresário, banqueiro e investidor Mário Bernardo Garnero já causava rebuliços na região da Avenida Faria Lima. Próximo de figuras proeminentes, como o embaixador estadunidense Lincoln Gordon (peça-chave no golpe de 1964), Juscelino Kubitschek, Helmut Schmidt e príncipe Rainier, Mário Garnero fundou a Brasilinvest como grupo financeiro e banco de negócios, com participação de 80 sócios de 16 países. Acusada de conceder empréstimos a empresas fantasmas, a instituição financeira passou por liquidação em 1985 a pedido do Banco Central. O processo gerou a decretação de falência do banco e da corretora de valores do grupo. Garnero chegou a ser condenado a cinco anos de prisão pelos crimes de estelionato, formação de quadrilha e fraude contra o sistema financeiro pela Justiça Federal de São Paulo, mas a condenação foi anulada em 1989 pelo Supremo Tribunal Federal. No ano seguinte, o BC suspendeu a liquidação da Brasilinvest. Anos depois, em entrevista à Folha, o empresário alegaria que seu grupo nunca esteve em estado de insolvência, e que ele fora vítima de “uma reportagem leviana e irresponsável” feita em 1985. No ano passado, seu filho, Mário B. Garnero Jr., teve seu nome mencionado em documentos e listas de contatos relacionados ao financista Jeffrey Epstein, conforme revelou a Justiça dos EUA. O historiador Rafael Vaz Brandão, professor da UERJ, observa como estruturas articuladas durante a ditadura ainda se mantêm nos dias de hoje. “Claro que a corrupção, violência de Estado, nada disso surge com a ditadura, mas é impressionante como é nesse período que esquemas de corrupção se alastraram, se enraizaram no Estado de tal forma que prosseguem até hoje, claro que com outros contornos”, conclui. ## **Preparando o terreno para a colheita** Membros do IPÊS – _think tank _financiado pelos EUA e empresários que conspirou para o golpe de 1964 –, os economistas liberais Roberto Campos, como ministro do Planejamento, e Octávio Gouvêa de Bulhões, como ministro da Fazenda, foram os principais artífices das transformações econômicas iniciais do regime militar. Mas o esboço do projeto econômico começou bem antes. Em 1944, eles, e mais o economista Eugênio Gudin, participaram da delegação brasileira enviada para o Acordo de Bretton Woods (EUA), que criou o FMI e o Banco Mundial e apontou as diretrizes do sistema financeiro mundial após a 2ª Guerra Mundial – entre essas definições, o atrelamento do sistema financeiro ao dólar. “De lá, trouxeram as orientações para as políticas econômicas e para a construção de um banco centralizador. Desde 1955, a partir da Superintendência da Moeda e do Crédito (SUMOC), esse banco foi sendo construído com a participação do grande capital, até 1964, quando passou a ser designado como Banco Central”, detalha Esther Kuperman, professora no Colégio Pedro II e pesquisadora no Núcleo de Estudos das Américas, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). De acordo com levantamento da pesquisadora, todos os diretores do Banco Central tiveram relações com grandes empresas e, principalmente, grandes bancos. “Assim, o BC, na prática, ao definir as políticas cambiais, creditícias, etc, age sempre em conformidade com os interesses destas empresas. Portanto, sua pretensa autonomia é uma balela”, considera Kuperman, que recorda que o ex-presidente do BC, Roberto Campos Neto, é neto de um dos idealizadores do banco. Diplomata, com certa facilidade de acesso ao gabinete de John Kennedy, Roberto Campos ganhou o apelido “Bob Fields”, devido ao seu notório alinhamento aos EUA. ## **Nova legislação transformou o mercado** Como ministro, Campos apresentou em 1964 o Programa de Ação Econômica do Governo (PAEG), que visava controlar a inflação e reestruturar o sistema financeiro, cujas principais ações incluíram a instituição da Obrigação Reajustável do Tesouro Nacional, a ORTN (Lei 4.537/64), índice que introduziu a correção monetária; a fundação do Banco Central (Lei 4.595/64); a criação do Conselho Monetário Nacional (Lei 4.595/64); e a Lei do Mercado de Capitais (Lei 4.728/65), que estruturou o mercado de capitais, regulamentando o funcionamento de bolsas de valores e sociedades anônimas. Para o historiador Brandão, a política econômica inicial do governo Castelo Branco, especialmente com a Lei 4.595, tratava não apenas de reforma do sistema bancário-financeiro, mas também de centralização de capitais neste setor. “O CMN consistiu, basicamente, de um comitê de banqueiros que passaram a formular as principais políticas para o setor em seu favor. Por ele passaram nomes como Mário Henrique Simonsen (Banco Bozano, Simonsen), Ângelo Calmon de Sá (Banco Econômico), Gastão Eduardo de Bueno Vidigal (Banco Mercantil de São Paulo) e Olavo Egydio Setúbal (Banco Itaú)”. A introdução da nova legislação resultou em diversas modificações no mercado acionário, como a reformulação do regramento sobre Bolsa de Valores, a transformação dos corretores de fundos públicos em Sociedades Corretoras, forçando sua profissionalização, a criação dos Bancos de Investimento, a quem foi atribuída a principal tarefa de desenvolver a indústria de fundos de investimento. Brandão menciona que a criação da figura do banco de investimentos, possibilitou aos bancos, entre outras coisas, a captação de recursos no exterior, além de atuar em processos de fusão e aquisição de empresas. “Podemos dizer que se trata de uma política de favorecimento do capital privado no setor bancário-financeiro. Não à toa, a primeira instituição a criar, em 1965, seu banco de investimento foi o Itaú, o Banco Federal Itaú de Investimentos”. Para incentivar investimentos na Bolsa e fomentar a compra de ações e títulos, o governo criou incentivos fiscais significativos, permitindo que pessoas físicas e jurídicas deduzissem investimentos no mercado de capitais do imposto de renda, visando a “democratização do capital”. Criado em 1967 pelo decreto-lei 157, o Fundo 157 possibilitou ao contribuinte utilizar parte do imposto devido na aquisição de cotas de fundos de ações de companhias abertas administrados por instituições financeiras de livre escolha do aplicador. Sucesso entre os investidores, o fundo foi encampado pelos bancos, que utilizaram personalidades como Ronald Golias e Renato Aragão como garotos-propaganda. Propaganda do Fundo Bradesco com Ronald Golias, 1971 O seu idealizador foi o economista Delfim Netto, ex-membro do IPÊS e sucessor de Octávio Bulhões no Ministério da Fazenda. Com a política econômica centralizada no ministério, via CMN, Delfim tornou-se um tipo de czar da economia, exercendo um poder significativo sobre outros ministérios. Títulos públicos, como Letras do Tesouro Nacional e ORTNs, mecanismos de financiamento do Estado, também incrementaram as opções de aplicações. ## **O “boom” da Bolsa de Valores** As reformulações e incentivos governamentais surtiram efeito e, ao fim da década de 1960, os números do crescimento do mercado acionário eram surpreendentes. A Bolsa de Valores do Rio de Janeiro, então a mais importante do país, apresentou em 1969 um aumento de 484% no volume de negócios em relação ao ano anterior e de cerca de 90% sobre o total acumulado nos cinco anos anteriores, segundo dados do jornal Correio da Manhã, de 1 de janeiro de 1970. Reportagem do Correio da ManhãReportagem do Correio da Manhã A rentabilidade média do mercado foi de 250%, movimentando de 5 a 6 milhões de ações e mais de três milhões de dólares diários. A rentabilidade média das dez principais ações foi superior em média a 600%. Entre os papéis mais valorizados estavam os de companhias do setor siderúrgico, de refinação e petróleo, da metalurgia, da mineração e das estatais, com destaques para a Belgo-Mineira, Petrobras, Vale do Rio Doce e Banco do Brasil. Em pouco tempo, a Bolsa do Rio de Janeiro se tornou a quinta mais movimentada do mundo e, no ápice de sua ascensão, em 1971, atingiu a terceira posição entre as bolsas mais importantes. Naquele ano, uma extensa reportagem da revista Manchete dizia que a Bolsa tinha se tornado a única rival da Loteria Esportiva, em matéria de captação de recursos de poupança. A matéria, de claro viés propagandístico, apontava números sedutores até para quem não estava acostumado a ler cadernos de economia. “Se alguém tivesse aplicado Cr$ 10.000,00 em ações do Banco do Estado da Guanabara, em 31 de dezembro de 1968, seu dinheiro se teria transformado um ano depois em Cr$ 170.450,00, dando lucro de 1.240,9%, ou seja, 103,4% ao mês”, indicava a publicação. Bolsa de Valores do Rio de Janeiro 1971 Eufórico com a crescente movimentação do pregão, um operador declarou ao repórter que Delfim era “um gênio”, graças à invenção do popular Fundo 157. Mas um dos destaques da reportagem era justamente anunciar o surgimento de uma nova classe de trabalhadores do mercado financeiro. “A primeira surpresa: a juventude que tomou conta da Bolsa”, relatava o texto. “Quem nunca aí entrou imagina que seus operadores são todos idosos, vestidos de maneira conservadora. A verdade é bem outra. Os gritos partem de jovens que usam gravatas Cardin, ternos na _onda_ , cabelos compridos, dando a ideia de que o Flag [_boate_] se mudou para a Praça 15. A média de idade dos que trabalham na Bolsa oscila entre os 20 e 30 anos. Hoje apenas dez por cento podem ser considerados idosos, quando há apenas cinco anos atrás era justamente o contrário…”. Impossível não associar o perfil daqueles operadores ao dos funcionários dos modernos escritórios do principal centro financeiro do país, a Avenida Faria Lima, em São Paulo. Na mesma matéria, o depoimento de um jovem operador, autêntico precursor dos atuais “faria limers”, reforça a sensação: “para ele, a predominância de gente nova entre os operadores está diretamente ligada à agressividade, melhor preparo físico e raciocínio mais rápido, que caracterizam a juventude. Isto possibilita melhor produtividade, maior volume de negócios, eficiência superior”. Operadores da Bolsa de Valores ## **Bolha Especulativa e _crash_ de 1971** A despeito da eficiência de seus operadores, o “boom” da Bolsa durou pouco tempo. O IBV (Índice da Bolsa de Valores do Rio de Janeiro) desvalorizou 54,79% em julho de 1971, com o anúncio de bonificação e subscrição de ações do Banco do Brasil de “apenas” 50%, quando o mercado esperava 100%. Nas semanas seguintes ao anúncio, feito por Delfim Netto, pânico e insegurança tomaram conta da sala de negociação das bolsas brasileiras. A Bolsa não tinha um mecanismo de atuação e proteção para segurar a onda de uma desvalorização desenfreada. A combinação de otimismo econômico, incentivos fiscais e falta de regulação robusta gerou uma grande bolha especulativa, com as bolsas atingindo altas históricas para depois despencarem no segundo semestre de 1971, gerando prejuízos a pequenos e desavisados investidores. Receosa com a possibilidade de perdas, essa parcela da população se afastou por um longo período do mercado de ações, preferindo investimentos menos arriscados, como as cadernetas de poupança, outra oportuna novidade da época. A Bolsa de Valores de São Paulo, entretanto, preparava o longo caminho para sua ascensão – algo que somente viria a ocorrer nos anos 2000. Em abril de 1972, a Bovespa anunciava o recebimento de equipamentos eletrônicos, procedentes do Canadá, para a inauguração do novo pregão, fato que contaria com a presença do presidente Médici. Totalmente automatizado, o pregão apresentava painel eletromagnético central, monitores de vídeo e terminais de computador. Apesar do mercado deprimido, notou-se uma recuperação das cotações, a partir de 1975, devido a novos aportes de recursos do Fundo PIS/PASEP, de reservas técnicas das seguradoras, de adicionais do Fundo 147 e de investimentos por parte de Fundos de Pensão, além de incentivos como a isenção fiscal dos ganhos obtidos em bolsas. A criação das Sociedades de Investimento, pelo Decreto-Lei 1.401, buscou captar recursos externos para aplicar no mercado acionário. Com Mário Henrique Simonsen à frente do ministério da Fazenda, a modernização legislativa continuou pela década de 1970 com as implantações da Lei do Mercado de Valores Mobiliários (Lei 6.385/76), que criou a Comissão de Valores Mobiliários, a CVM, órgão que disciplina o mercado até hoje, e da Lei das S.A. (Lei 6.404/76), que rege o funcionamento das companhias abertas e fechadas. A recuperação do setor seria gradativa, e a retomada de confiança do pequeno investidor na Bolsa aconteceria somente no período democrático. Procuramos o Banco Central e a Bovespa sobre as informações desta reportagem, mas não recebemos respostas até a publicação.

Entre a Bolsa de Valores e a repressão: como a ditadura impulsionou o mercado financeiro.
- bsapub
apublica.org/2026/04/como-a-ditadura-...
#Portugus #Ditaduramilitar #Economia #Poltica

1 2 0 0
Preview
Conheci Lala Valdés, 46 anos, e suas duas filhas, Naomi e Danischa Valdés, de 24 e 14, enquanto buscava ouvir mulheres sobre dignidade menstrual nas ruas de Havana, capital de Cuba, neste final de março. Quando mencionei o termo, Valdés franziu a testa. Nunca tinha ouvido essa expressão, nem parado para pensar que ela pudesse existir. Respondeu de imediato, com a firmeza de quem aprendeu a nomear a própria realidade: “Aqui não há dignidade de nada. De comida, de luz, de moradia. Não há dignidade de vida. Como vai ter dignidade menstrual?” Aos poucos, fui entendendo que a falta de absorventes era apenas uma parte – e talvez nem a mais urgente – dos problemas enfrentados por Valdés e sua família. Ela vive no _Dos Salidas_ , um dos muitos cortiços de _Habana Vieja_ , ou Havana Velha. No bairro histórico da capital cubana, casarões coloniais restaurados e restaurantes voltados ao turismo convivem, lado a lado, com prédios em ruínas, moradias precárias e pobreza persistente. O _Dos Salidas_ é um exemplo do que muitos cubanos chamam de “ciudadelas” ou “solares” – formas de habitação coletiva marcadas pela superlotação e pela precariedade. Ali, segundo moradores, vivem centenas de famílias espremidas em pequenos cômodos, muitas vezes sem ventilação adequada, com infraestrutura deteriorada e acesso precário e escasso a serviços básicos. Por fora, o _Dos Salidas_ parece só mais um edifício cubano de Havana Velha que carece de restauração. Por dentro, é outra história. Fachada do cortiço (ou “solar”) Dos Salidas, no bairro de Havana Velha (Habana Vieja). Nesse pedaço da cidade, os apagões são mais frequentes que na avenida logo ao lado, de frente para o mar. Nas áreas mais turísticas, a energia costuma falhar menos, e hotéis e restaurantes muitas vezes contam com geradores próprios. Dentro dos solares, porém, a falta de eletricidade se soma à escassez de água, alimentos, medicamentos e itens de higiene. É nesse contexto que falar de dignidade menstrual deixa de ser uma discussão isolada sobre absorventes e passa a revelar algo maior: a forma como a crise atinge o corpo das mulheres a partir daquilo que lhes falta todos os dias. A escassez, que já vinha se agravando na ilha desde a pandemia, piorou dramaticamente com o novo bloqueio imposto pelos Estados Unidos em janeiro deste ano, sob o comando de Donald Trump. A medida passou a dificultar ainda mais a chegada de combustível, alimentos e outros tipos de abastecimento à ilha socialista. Há três meses, os cubanos deixaram de receber até mesmo os poucos alimentos básicos que ainda eram distribuídos pelo governo. ## Por que isso importa? * Segundo dados do Observatório Cubano de Direitos Humanos (OCDH), 89% das famílias em Cuba vivem em pobreza extrema. * O presidente Trump ameaçou intervir na ilha, dizendo ‘Cuba é a próxima’, após invadir a Venezuela e iniciar a guerra no Irã. ## **‘Não sei qual foi a última vez que vi um pacote de absorvente. Deve fazer uns seis anos’** Valdés vive em um apartamento de, no máximo, 20 metros quadrados, onde divide o espaço com três filhos, o cunhado e um neto. Há apenas um quarto, construído em um mezanino improvisado. É ali onde as crianças dormem, no chão ou sobre espumas finas. Não há camas, mesas ou outros móveis. Tampouco há um banheiro. Os adultos dormem no chão da cozinha. Quarto no mezanino improvisado na casa de Lala Valdés. Na foto, a filha mais nova de Lala, Danischa, de 14 anos. Quando falta luz, o calor se torna difícil de suportar. Nesses dias, a família inteira passa a noite no chão da minúscula sala de 4 metros quadrados, o único ponto da casa por onde ainda circula algum ar. Os apagões são diários — três, às vezes quatro vezes por dia — e, com eles, também falha o abastecimento de água. Até dezembro do ano passado, ela trabalhava em uma feira de roupas e ganhava cerca de 3,5 mil mil pesos cubanos por mês (R$ 38). Com o novo bloqueio norte-americano, o aumento da inflação na ilha e a desvalorização do peso cubano em relação ao dólar, ela e outras colegas foram demitidas. Hoje, a única renda da família é a de Naomi, 24 anos, sua filha mais velha, que trabalha como auxiliar de limpeza em um hospital. Ela recebe 2,8 mil mil pesos cubanos por mês (R$ 30) – uma quantia que não basta sequer para comprar comida para uma semana. Em Cuba, 1 quilo de arroz está custando 700 pesos cubanos (R$ 7,50), uma dúzia de ovos, 1,2 mil mil pesos (R$ 13), e um litro de óleo, 1,5 mil mil pesos (cerca de R$ 16). Um pacote de absorventes custa em torno de 500 pesos (R$ 6). “Faz dois dias que não comemos. Nossa última refeição foi anteontem: um pacote de macarrão com corante para toda a família”, disse Valdés. A filha Naomi completou: “Se eu, como mãe, mal consigo comprar comida pro meu filho, como vou comprar absorvente? Tenho que escolher: ou o absorvente, ou a comida.” Eu havia trazido do Brasil alguns pacotes de absorvente, porque já tinha sido alertada sobre a escassez de medicamentos, alimentos e produtos de higiene no país. Pretendia entregá-los às mulheres ao final da entrevista, como um gesto de agradecimento por terem aberto suas portas e aceitado contar suas histórias. Mas, desta vez, decidi entregar os pacotes no início da conversa – um para cada uma delas. “Não sei qual foi a última vez que vi um pacote de absorvente. Deve fazer uns seis anos. Estou tocando nele agora e nem consigo acreditar. Parece uma miragem. Vou mandar emoldurar, porque isso aqui é uma raridade”, comentou Valdés, num tom tragicômico. Na ausência de absorventes, Lala e Naomi improvisam usando pedaços de pano como este, enrolado em um pouco de algodão. Segundo o relato dela e de outras mulheres cubanas com quem conversei, o governo distribuía mensalmente um ou dois pacotes de absorventes por mulher até 2016 – ano da morte de Fidel Castro. Depois disso, a entrega passou a ocorrer de forma cada vez mais esporádica, até cessar completamente. “Quando o governo começou a reduzir a distribuição de absorventes, anos atrás, me lembro de usar o mesmo por mais de 24 horas, para economizar”, contou Naomi. Na falta de absorventes, ela consegue alguns pacotes de algodão no hospital onde trabalha. A filha e a mãe pegam um pano velho e o enrolam em volta do algodão. “Todo mês, quando desce a minha menstruação, tenho que rasgar um pedaço de lençol – como se tivéssemos muitos – e usar como absorvente. Tento ferver o pano e reutilizá-lo até onde consigo. Sei que não é higiênico, mas é a única opção para nós, mulheres, que não podemos nos dar ao luxo de gastar 500 pesos em um pacote de absorventes”, explicou a filha mais velha. Naomi deu à luz a uma menina há um mês, mas o bebê teve complicações pulmonares e morreu dois dias após o nascimento. “Tive sangramentos muito intensos depois do parto, e tudo o que me deram no hospital foi um pouco de algodão para conter.” Danischa, a filha mais nova, ainda não chegou à puberdade, mas já antecipa a preocupação: “Na minha escola, as meninas que têm dinheiro compram absorventes. As que não têm, usam um pedaço de pano.” ## **Bloqueio norte americano e vácuo de Fidel agravam situação na ilha** Desde a década de 1960, Cuba vive sob um bloqueio econômico e comercial imposto pelos Estados Unidos, uma política que remonta à Revolução Cubana, liderada por Fidel Castro e concluída em 1959. Após assumir o poder, o novo governo passou a nacionalizar empresas pertencentes a cidadãos e companhias americanas, sem compensação considerada adequada por Washington. Ao mesmo tempo, a ilha se aproximava da União Soviética, principal rival dos EUA durante a Guerra Fria, um movimento que aprofundou a ruptura entre os dois países. Esse conjunto de fatores levou à imposição do embargo pelo governo dos EUA, uma política que seria ampliada e endurecida ao longo das décadas. Na prática, o bloqueio não apenas impede que empresas dos Estados Unidos negociem livremente com Cuba, como também cria barreiras para que companhias de outros países façam negócios com a ilha, especialmente quando mantêm vínculos com o mercado americano. Desde a gestão de Donald Trump, quase 300 novas medidas foram adotadas para endurecer o bloqueio imposto a Cuba. A captura do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, por forças dos Estados Unidos em janeiro de 2026 agravou a crise energética na ilha, já que o país perdeu um de seus principais aliados no fornecimento de petróleo. Aline Pandolfi, professora de Serviço Social e do Programa de Pós-Graduação em Política Social da UFES, explica que essa combinação de fatores ajuda a entender por que a situação em Cuba piorou nos últimos meses. “Ao que parece, a aposta de Trump é apertar o estrangulamento econômico para intensificar o mal-estar social e provocar um possível desmoronamento do regime”, afirma a pesquisadora. O que a família Valdés relata, ecoa um sentimento repetido com frequência em Cuba: tudo piorou após a morte de Fidel Castro. Nos anos seguintes, a ilha sofreu um duro golpe econômico com a pandemia. Foi nesse período que a escassez se aprofundou e os turistas – uma das principais fontes de renda do país – desapareceram. Desde então, o abastecimento de produtos básicos da ilha socialista nunca mais foi o mesmo. Segundo Pandolfi, uma combinação de fatores tem comprometido a capacidade do país de importar insumos. “No pós-pandemia, houve queda na produção agrícola local; e, com o aumento das medidas de bloqueio e a retração drástica do turismo, há também redução na entrada de divisas – como dólar e euro -, o que afeta diretamente a capacidade do país de importar os bens de que necessita”, analisa. Para a pesquisadora, a morte de Fidel representou não apenas a perda de um líder político, mas de uma referência histórica com forte legitimidade junto à população – um fator que pesa especialmente em momentos de crise. Sem essa liderança, a capacidade do governo de mobilizar apoio e confiança tende a ser mais limitada, o que se torna ainda mais sensível diante do agravamento das condições de vida. “Miguel Díaz-Canel é o atual presidente do país, mas não dispõe das qualidades e da legitimidade histórica que dispunha Fidel Castro”, defende Aline. Entre o endurecimento das sanções americanas e a queda de aliados regionais, Cuba enfrenta seu pior momento econômico desde a pandemia. Além da crise econômica, Cuba vem enfrentando, nos últimos anos, uma combinação de desastres naturais e o agravamento da crise energética – consequência da falta de investimentos e da deterioração da infraestrutura do sistema de produção de energia do país. Em outubro de 2025, o furacão Melissa atingiu a costa leste da ilha e provocou a evacuação de mais de 735 mil pessoas. Ao longo de 2025, Cuba registrou pelo menos cinco apagões nacionais. Nos três primeiros meses de 2026, o país já enfrentou outros dois grandes colapsos no sistema elétrico e segue convivendo com interrupções frequentes no fornecimento de energia, sobretudo em regiões menos turísticas, onde os cortes podem ultrapassar 20 horas por dia. Em fevereiro, o secretário-geral da Organização das Nações Unidas alertou para o risco de um “colapso humanitário” em Cuba, caso o país não consiga importar petróleo suficiente para atender às suas necessidades básicas. Recentemente, a ONU propôs um plano emergencial de ajuda ao país, que inclui o envio de combustível para conter a crise energética. A iniciativa, no entanto, está em fase de negociação com os EUA e ainda não foi implementada. ## **Ajuda humanitária: ‘ninguém compra absorvente lá’** Em março deste ano, uma comitiva de brasileiros que integra a coalizão Nuestra América viajou a Cuba levando 20 toneladas de alimentos e medicamentos como forma de ajuda humanitária, além de painéis solares e bicicletas à ilha. A ação reuniu mais de 600 pessoas de 30 países. A vereadora de Belo Horizonte Iza Lourença (PSOL), que aborda com frequência o tema da dignidade menstrual no Brasil, levou 46 quilos de doações de absorventes e medicamentos para mulheres cubanas. Segundo ela, os itens eram de dois tipos: absorventes descartáveis, comuns no Brasil, e também modelos ecológicos e reutilizáveis, feitos de pano. Foi durante a distribuição que a vereadora descobriu que a maioria das mulheres cubanas quase nunca utiliza os descartáveis – não apenas pela escassez, mas também pelo custo elevado quando esses produtos chegam ao país. “Ninguém compra absorvente lá. Por mais que eu tenha levado uma mala, quando acabar, acabou”, afirmou Lourença. A vereadora explicou que, mesmo sendo a única alternativa possível para as mulheres da ilha, o absorvente de pano ainda é utilizado em condições precárias. “Uma das mulheres para quem entreguei o absorvente ecológico me disse que está usando o mesmo há mais de dez anos. Isso demonstra pra gente como a falta de dignidade menstrual é um problema mundial e de muito tempo.” Além do comboio internacional promovido por movimentos sociais e ativistas de todo o mundo, países da América Latina têm prestado solidariedade ao vizinho caribenho. O Chile doará um milhão de dólares a Cuba por meio do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), enquanto o governo mexicano já enviou mais de 3 mil toneladas de alimentos e itens de higiene pessoal. No Brasil, o governo anunciou o envio de mais de 20 mil toneladas de alimentos e remédios, com apoio logístico do WFP, Programa Mundial de Alimentos da ONU, mas não informou a data prevista para a chegada dos recursos. ## **‘‘Faz meses que não sei o que é ser mulher’’** Além da falta de dignidade menstrual, Valdés e Naomi falam sobre algo mais difícil de nomear: a perda do que entendem por “ser mulher”. “Faz anos que não sei o que é me arrumar, passar um esmalte, um batom, arrumar meu cabelo. Faz meses que lavamos o cabelo com o mesmo sabão que usamos para lavar roupa”, diz Naomi. A filha mais velha carrega a mesma tatuagem no pescoço que a mãe: a palavra _Hope_ , esperança, em inglês. Pergunto por que escolheram essa palavra. Naomi responde sem hesitar: “Porque é só o que nos resta.” Sem acesso a itens básicos de higiene, mulheres, como Naomi Valdés, relatam a perda da conexão com a própria identidade. Ao final da entrevista, peço autorização para fotografá-las. Lembro, de imediato, da cena em _Ainda Estou Aqui_ , de Walter Salles, em que um fotógrafo pede, sem nenhum tato, à família Paiva que não sorria para o retrato – um gesto que transforma a dor em encenação. Tento não repetir esse erro. Digo que podem posar como quiserem: sorrindo ou sérias. Elas permanecem sérias. Depois de alguns cliques, arrisco: digo que podem sorrir, se quiserem, pois havia prometido enviar as fotos depois pelo WhatsApp. Valdés responde, sem alterar a expressão: “Neste momento, não há motivos para sorrir.”

‘Não há dignidade de nada’: Em Cuba, bloqueio dos EUA e apagões pioram vida de mulheres.
- bsapub
apublica.org/2026/04/cuba-bloqueio-do...
#Portugus #Direitoshumanos #EstadosUnidos #Mulheres #Trump

0 0 0 0
Preview
Ditadura militar no Brasil Série de reportagens revela segredos da ditadura militar

Ditadura militar no Brasil.
- bsapub
apublica.org/especial/ditadura-milita...
#Portugus #Democracia #Direitoshumanos #Ditaduramilitar #Justia #Poltica #Violncia

0 1 0 0
A última viagem do norte-americano Nelson Aldrich Rockefeller ao Brasil ocorreu em 1969, quando o bilionário do setor petroleiro e filantropo tinha 61 anos. Experiente nas relações com a América Latina, onde a fundação que leva o nome de sua família atua desde 1916, Rockefeller havia estado no país diversas vezes, mas essa viagem derradeira era a primeira na nova capital, Brasília. Passados cinco anos desde o golpe de Estado, em 1964, quando o apoio norte-americano foi fundamental para a deposição do presidente João Goulart e a ascensão dos militares ao poder, as relações bilaterais entre os dois países não eram tão amistosas como se poderia supor e Rockefeller, então governador do estado de Nova Iorque, vinha na condição de emissário do presidente Richard Nixon — por quem fora incumbido de reafirmar a amizade dos Estados Unidos com o Brasil. Rockefeller procurou demonstrar entusiasmo por Brasília, à qual se referiu como “um lugar que o resto do mundo ainda não alcançou” e em cujo projeto arquitetônico teria se inspirado na construção do complexo governamental Empire State Plaza, em Albany, capital do estado de Nova Iorque, edificado entre 1965 e 1978. Acostumado às diversões do Rio de Janeiro, o empresário, entretanto, estranhou a austeridade da nova capital, onde foi recebido com ar oficial e sob um forte esquema de segurança. Rockefeller expressaria, em relatório sobre a viagem, certo desconforto nas duas reuniões que teve com o presidente brasileiro, o marechal Arthur da Costa e Silva, no Palácio da Alvorada. Posse do presidente Costa e Silva em 15 de março de 1967, em sessão conjunta do Congresso Nacional O militar teria feito questão de esclarecer alguns pontos de divergência entre os dois países, começando pela invasão do escritório da _Associated Press_ no Brasil, em um episódio que conflagrou a censura a jornalistas e veículos de imprensa e que foi motivo de protesto do embaixador norte-americano, Lincoln Gordon, personagem fundamental nas articulações que antecederam 1964. Na sequência, Costa e Silva rememorou o golpe, afirmando o protagonismo brasileiro: havia sido uma “revolução do povo que se opôs ao comunismo”, instaurando “um governo do povo dedicado ao povo”. Embora tenha enfatizado o caráter “nacional” da “revolução”, o presidente reiterou a lealdade brasileira aos Estados Unidos, alegando que o desenvolvimento econômico do país e a melhoria das condições de vida do povo eram de interesse norte-americano, uma vez que a miséria dos países próximos representava uma ameaça ao vizinho do Norte. Confrontado pelo empresário a respeito de supostas restrições políticas e violações de direitos humanos no Brasil sob a ditadura, especialmente contra os chamados presos de consciência – jornalistas, artistas e intelectuais encarcerados por suas ideias e não por envolvimento na luta armada –, Costa e Silva justificou que os Estados Unidos haviam dado pouca assistência militar ao Brasil após o golpe e que, em face do “aberto ataque comunista ao Ocidente”, a democracia podia esperar. Nos Estados Unidos, havia, naquele momento, pressão política contra a ditadura no Brasil. O senador democrata Frank Church sugeriu o cancelamento da viagem de Rockefeller ao país como forma de protesto contra as notícias sobre exacerbações do governo que reverberavam por lá. O Congresso pressionava o Executivo para que condicionasse as ajudas ao Brasil ao restabelecimento das liberdades democráticas. Rockefeller acreditava, entretanto, como rezava uma certa tradição da política externa norte-americana, que os regimes militares eram algo congênito na América Latina, sendo melhor “conviver com eles do que isolá-los”. Quem conta toda essa história é Antonio Pedro Tota no livro “O Amigo Americano – Nelson Rockefeller e o Brasil” (2014). Ela é ilustrativa de uma mudança nas relações entre os Estados Unidos e o Brasil após o golpe de 1964, reconhecidamente sustentado pelos norte-americanos, e demonstra, contrariando o senso comum, que elas foram permeadas por tensão, dissenso e, eventualmente, conflito. Rockefeller, então governador do estado de Nova Iorque, esteve no Brasil na condição de emissário do presidente Richard Nixon Embora, na prática, o encontro entre Nelson Rockefeller e Costa e Silva tenha servido para atualizar as lealdades do Brasil para com os Estados Unidos, condicionada a apoio militar e econômico, ele expõe alguns aspectos da relação entre os dois países após 1964 que merecem ser considerados: primeiro, uma leitura do golpe que, mesmo sem negar a participação norte-americana, defende o protagonismo brasileiro e o suposto caráter popular e nacionalista da resistência ao comunismo internacional; segundo, o ressentimento brasileiro à pouca assistência militar após a conhecida operação Brother Sam, que se manteve apenas até que Jango fosse deposto e os militares ascendessem ao poder; terceiro, a dúbia relação dos Estados Unidos com as ditaduras militares latino-americanas, que ajudaram a promover e legitimar, mas que expuseram a falácia da democracia na América. Há muito a participação norte-americana no golpe de 1964 é conhecida. Em discurso proferido no Recife, no calor dos acontecimentos, Leonel Brizola atribuiu ao então recente golpe o estatuto de obra do “imperialismo yankee”. Preso pela Marinha durante a ditadura, acusado de subversão, o historiador Moniz Bandeira escreveu “Presença dos Estados Unidos no Brasil”, lançado em 1973, no qual apontava a participação do Departamento de Estado norte-americano e da CIA no golpe. Em 1981, René Armand Dreifuss publicaria “1964 – A conquista do Estado”, no qual não apenas a participação direta dos Estados Unidos, via agências federais, _corpus_ diplomático e forças armadas, foi demonstrada, mas também a de empresas privadas, tais como Texaco, Shell, ESSO (das iniciais S.O., referentes a Standard Oil, empresa pertencente à família Rockefeller), Bayer, General Electric, IBM, Coca-Cola, Cigarros Souza Cruz e General Motors, muitas delas norte-americanas, que financiaram instituições brasileiras gestoras do golpe, sobretudo o Instituto de Estudos e Pesquisas Sociais (IPES). ## **Documentos desclassificados comprovam a participação norte-americana além do golpe** A despeito de trabalhos historiográficos importantes, baseados em pesquisas de arquivo, a participação norte-americana no golpe foi, durante muito tempo, desacreditada, considerada resultado de teorias conspiratórias elaboradas por políticos e intelectuais de esquerda. As evidências, entretanto, foram aparecendo progressivamente. Em 2004, por ocasião dos 40 anos do golpe, a Universidade George Washington desclassificou documentos do _National Security Archive_ referentes ao “Brazil Project”, que contêm fontes sobre a participação norte-americana no golpe, demonstrando que os Estados Unidos estavam preparados para intervir militarmente no processo de deposição de Jango, caso as forças brasileiras fracassassem. Em 2008, o historiador Carlos Fico publicou “O Grande Irmão”, baseado em documentação então inédita coletada nos Estados Unidos, especialmente em fontes intituladas “ _Country Analysis and Strategy Paper_ ” (CASP), abrigadas no _National Archives and Records Administration_ (NARA), que consistiam em relatórios conjuntos elaborados por diversos setores da embaixada norte-americana no Brasil, pelo Departamento de Estado e por agências federais norte-americanas durante a ditadura militar brasileira. Em 2012, a presidente Dilma Rousseff consolidou a justiça de transição no Brasil, ao assinar a Lei de Acesso à Informação − que estabeleceu novos parâmetros para a liberação de documentos com informações sobre violações de direitos humanos pelo Estado brasileiro durante a ditadura − e instituir a Comissão Nacional da Verdade (CNV). Em dezembro de 2014, a presidente Dilma Rousseff recebeu o relatório final elaborado pela Comissão Nacional da Verdade Em 2013, a partir de um contato entre o historiador brasileiro Sidnei Munhoz, que fazia parte da CNV, e o brasilianista norte-americano James Green, foi estabelecido o projeto _Opening the Archives_ , uma parceria entre a Universidade Estadual de Maringá (UEM) e a _Brown University_ com apoio dos arquivos nacionais do Brasil e dos Estados Unidos, que visa à digitalização e disponibilização on-line de documentos referentes à presença dos Estados Unidos no Brasil entre as décadas de 1960 e 1980. Em entrevista ao site do projeto, James Green, colunista da **Agência Pública** , afirmou que a ideia de disponibilizar as fontes para livre acesso surgiu quando ele pesquisava no NARA para a escrita do livro “Apesar de vocês”, publicado em 2009. Com efeito, o NARA possui uma vasta documentação sobre as relações entre os Estados Unidos e o Brasil, notadamente durante a ditadura, parte da qual já foi investigada por historiadores brasileiros. Em 2011, quando estive no arquivo pela primeira vez fazendo pesquisa para o doutorado, identifiquei fontes sobre a atuação de uma agência federal até então pouco conhecida no Brasil, a _United States Information Agency_(USIA). A pesquisa ensejou um dos primeiros trabalhos sobre a atuação do Programa de Fomento ao Livro da agência no país, atuante entre 1953 e 1973, que desempenhou papel central na chamada Guerra Fria cultural. A tese, defendida em 2013, foi publicada em 2015, sob o título “Guerra Fria e Política Editorial”, e demonstrou que o programa estabeleceu uma complexa rede de contatos no Brasil, envolvendo empresários, editores e escritores, cujos interesses não devem ser menosprezados. O tema foi objeto de reportagem da **Pública**. Mais recentemente, com a abertura dos arquivos JFK, novas possibilidades de pesquisa foram abertas, cujos efeitos ainda não podem ser calculados. ## **A complexidade das relações Brasil-EUA exige uma leitura além do senso comum** A historiografia tem demonstrado alguns aspectos relevantes das relações Brasil-Estados Unidos ao longo da história e, em particular, na ditadura, que apontam caminhos para investigações futuras. 1. Assumir a participação dos Estados Unidos no golpe não deve implicar no juízo de que o regime que o sucedeu, o militar, tenha sido necessariamente americanista. A análise documental, qualitativa, de cada governo, programa, acordo é fundamental para entender a complexidade dessa relação; 2. Ainda que a ideia de desenvolvimento, notadamente econômico, assumida como projeto para o país pelos militares estivesse, especialmente nos anos 1960, em acordo com as teorias da modernização, amplamente em voga entre intelectuais e _policymakers_ norte-americanos no período, ela era pensada por uma chave nacionalista; 3. O projeto de modernização para o Brasil antecede o governo Castelo Branco e, portanto, deve ser analisado sob uma perspectiva mais ampla, tal como se nota nas relações dos governos Jânio Quadros e Jango com a Aliança para o Progresso, por exemplo; 4. A presença dos Estados Unidos no Brasil não é, nem de longe, uma novidade da era John Kennedy, instaurada com a criação da Aliança para o Progresso e da USAID. Ainda que, no início do século 20, o isolacionismo tivesse grande força nos Estados Unidos, sendo a abertura de fronteiras uma pauta específica de presidentes como Theodore Roosevelt e Woodrow Wilson, o processo de capilarização internacional do país remonta ao século 19, com especial atuação da iniciativa privada; 5. As fundações privadas foram um braço importante da diplomacia norte-americana, vide a atuação da Rockefeller, da Carnegie e da Ford. Embora a historiografia já tenha apontado o papel de grandes fortunas no golpe, considerando os financiamentos da Standard Oil, da família Rockefeller, ao IPES, o papel específico das fundações ainda merece investigações mais detidas; 6. A avaliação do sucesso ou do insucesso dos programas norte-americanos no Brasil é um tema especialmente interessante. Se os conhecidos acordos MEC-USAID, por exemplo, que presidiram a reforma universitária promovida pelos militares em 1968, foram vistos no Brasil como uma forte ingerência norte-americana sobre o país, do lado de lá, eles foram, em parte, aceitos como um fracasso. Isso demonstra que suas pretensões eram de maior monta e, talvez por isso mesmo, não foram completamente atingidas; 7. Embora a presença de cientistas estrangeiros no Brasil, particularmente na Amazônia, também seja um fenômeno antigo, os governos militares definiram uma política para a região que por vezes comprometeu interesses estrangeiros, a exemplo do decreto de Costa e Silva, de 1969, que restringiu essa presença e foi recebido no exterior como sintoma do “chauvinismo” dos homens da caserna; 8. O tema dos direitos humanos, sobretudo em se tratando de prisões por crimes “de consciência” denunciadas por organizações como a Anistia Internacional, é um elemento importante para compreender o gradativo desgaste da imagem internacional da ditadura, inclusive nos Estados Unidos. As críticas que os governos militares brasileiros receberam, nessa direção, estavam ligadas à dimensão de exceção do regime, à suspensão dos valores democráticos, com ênfase nos temas da censura e da tortura; 9. As críticas que os governos militares brasileiros receberam, nessa direção, estavam ligadas à dimensão de exceção do regime, à suspensão dos valores democráticos, com especial ênfase nos temas da censura e da tortura. 10. Embora haja alguma dimensão de mal-estar, esses temas jamais foram fundamentais para reduzir ou mesmo eliminar a presença dos Estados Unidos no continente. A mudança de rota na política externa americana nas décadas de 1970 e 1980 explica muito mais. Um olhar detido para o continente seria retomado pelo Consenso de Washington e pelas políticas neoliberais, no final dos anos 1980. Isso se refletiu na Constituinte de 1987, por exemplo, quando o país fez um _lobby_ incisivo, com especial interesse nas questões ambientais; 11. A incompatibilidade entre os Estados Unidos e as ditaduras latino-americanas nunca passou, a rigor, de um problema teórico, que os ideólogos da política externa norte-americana conseguiram resolver bem, embora tenha tido implicações práticas. Desde a chamada Era Kennan, no início da Guerra Fria, a ideia da “democracia como fetiche” era tida como possível, inclusive para os Estados Unidos, uma vez que se defendia o Executivo forte e se assumia o Congresso como expressão de um povo intelectualmente limitado e provinciano. Essa premissa não nos deve fazer supor, entretanto, que não fossem legítimas as críticas à contradição norte-americana de apoiar ditaduras em outros países, entoadas inclusive por cidadãos norte-americanos. Os Estados Unidos não são, como o Brasil não o é, um país homogêneo. Para compreender a história de sua política externa, há que se considerar as diversas frentes de sua atuação no ultramar: a diplomacia formal, as agências de Estado, os programas federais, as fundações privadas, as empresas. Há que se considerar agentes e instituições militares e civis, políticos e diplomáticos, não apenas norte-americanos, mas também brasileiros, em seus assuntos e motivos próprios. Seus rastros estão nos arquivos. Muito tem sido feito pelos historiadores, mas ainda há muito por fazer. Assumir que o apoio dos Estados Unidos à ditadura brasileira não foi simples nem linear é um bom começo de conversa.

Apoio dos EUA à ditadura: documentos revelam tensão e conflito nas relações bilaterais.
- bsapub
apublica.org/2026/03/ditadura-militar...
#Portugus #Direitoshumanos #Ditaduramilitar #EstadosUnidos #GolpedeEstado #Justia #Poltica

0 1 0 0
A relação entre os Estados Unidos e o Brasil é, no mínimo, complexa. Da tentativa atual do pré-candidato à presidência do Brasil, Flávio Bolsonaro, de que os EUA interfiram nas eleições brasileiras, à postura oposta de Joe Biden, em 2022 – que se posicionou contra qualquer tentativa de invalidar as urnas – a democracia brasileira ora foi vista como benéfica, ora como problema, para os homens que comandaram a Casa Branca. Entre 1962 e 1964, duas administrações americanas minaram a democracia no Brasil. Em 30 de julho de 1962, o presidente John F. Kennedy (1961-63) reuniu-se com Lincoln Gordon, embaixador dos EUA no país, e Richard Goodwin, Subsecretário Adjunto de Estado para Assuntos Interamericanos, na Casa Branca, para discutir a relação entre o presidente João Goulart (1961-64) e os militares brasileiros. Em sua conversa, que foi gravada e preservada como registro da reunião, o embaixador Gordon comentou: > — “Acho que uma de nossas tarefas importantes é fortalecer a espinha dorsal das Forças Armadas. Deixar claro, discretamente, que não somos necessariamente hostis a qualquer tipo de ação militar, se ficar claro que o motivo da ação militar é…” > — “Contra a esquerda”, Kennedy completou a frase. Gordon acrescentou: > — “Ele [Goulart] está entregando o maldito país aos…” > — “Comunistas”, novamente, Kennedy completou. Poucos instantes depois, Goodwin comentou: > — “Podemos muito bem querer que eles [os militares brasileiros] assumam o poder no final do ano, se puderem”. Kennedy foi assassinado em 22 de novembro de 1963, antes que as condições estivessem propícias dentro das Forças Armadas brasileiras para realizar um golpe de Estado com o apoio dos EUA contra o governo de esquerda de Goulart. Isso ocorreria em 31 de março de 1964, enquanto Lyndon B. Johnson (1963-69) ocupava a Casa Branca. Em meados de março de 1964, imediatamente antes da tomada do poder pelos militares, o presidente Johnson convocou uma série de reuniões, que incluíram Thomas Mann, o Secretário de Estado Adjunto para Assuntos Interamericanos; altos funcionários do governo; e os embaixadores dos EUA na América Latina. Nessa reunião, Mann apresentou sua abordagem de política externa para a região: “Os Estados Unidos não tomarão, no futuro, uma posição a priori contra governos que chegam ao poder por meio de golpes militares”. O conteúdo das conversas que ocorreram na conferência da Casa Branca vazou para a imprensa. Serviu como uma mensagem clara para as forças militares brasileiras de que Washington estava dando sinal verde para a derrubada do governo Goulart. O embaixador Gordon, confiante de que o Brasil estava à beira de uma revolução nos moldes da Revolução Cubana, mobilizou a Casa Branca para apoiar os militares conspiradores que se preparavam para tomar o poder. Ele convenceu o governo Johnson a implementar a “Operação Irmão Sam” (_Operation Brother Sam_), que incluía o envio de uma força-tarefa naval para a região para apoiar os golpistas caso os partidários de Goulart resistissem à tomada do poder pelos militares. Gordon também persuadiu o presidente dos EUA a reconhecer a transição de poder em 2 de abril de 1964, de um governo civil para um governo militar, sem questionar a legitimidade do novo regime. Durante os primeiros quatro anos do governo militar brasileiro, apenas algumas vozes críticas nos Estados Unidos se manifestaram contra a ditadura. No entanto, à medida que a resistência ao regime cresceu em 1967 e 1968, levando a uma repressão e à imposição do Ato Institucional nº 5 (AI-5) em 13 de dezembro de 1968, as forças de oposição brasileiras tentaram buscar apoio no exterior para se mobilizar contra os generais no poder. Em 1969, o ex-congressista Márcio Moreira Alves, cassado com a promulgação da AI-5 e exilado no Chile, viajou aos Estados Unidos para se encontrar com líderes democratas do Congresso americano e explicar-lhes a natureza repressiva do regime militar. Alves retornou a Washington no ano seguinte para se reunir com acadêmicos americanos na Segunda Conferência da Associação de Estudos Latino-Americanos, onde incentivou especialistas em América Latina a apoiarem uma resolução que pedia o fim da ajuda militar americana ao Brasil. Esse esforço foi um pequeno capítulo em uma significativa campanha descentralizada e nacional de longo prazo nos Estados Unidos, que mobilizou exilados brasileiros juntamente com seus aliados americanos — clérigos, acadêmicos, ex-missionários, políticos e outros — para denunciar a ditadura e educar os formuladores de políticas e o público americano sobre a situação no Brasil. Apesar disso, nas duas décadas seguintes, com exceção dos quatro anos do governo Jimmy Carter (1977-1981), a Casa Branca ofereceu apoio econômico, militar e diplomático à ditadura. Esses anos representaram talvez o pior período da história das relações entre os dois maiores e mais importantes países do hemisfério ocidental. ## **Biden e o “Trump dos Trópicos”** Um outro momento crucial – e bastante diferente na tumultuada relação entre as duas nações – ocorreu entre 2021 e 2023, quando Joseph Biden (2021-2025) ocupou a Casa Branca. A eleição de Donald Trump em 2016 representou uma polarização política radical nos Estados Unidos, culminando na invasão do Capitólio dos EUA em 6 de janeiro de 2021 por apoiadores de Trump, após a derrota do candidato nas eleições presidenciais americanas de 2020. Foi a primeira vez desde a Guerra Civil Americana (1861-65) que uma insurgência tentou derrubar um governo democraticamente eleito dentro das fronteiras dos EUA. Embora o Pentágono, o Departamento de Estado e a Casa Branca tenham uma longa tradição de interferir nos assuntos internos de outros países, incluindo a orquestração de mudanças de regime, ainda existe um forte tabu nos Estados Unidos contra a interferência de generais americanos na política interna dos EUA. Esse foi um fator que contribuiu para explicar por que os esforços de Trump para reverter os resultados das eleições falharam. Além disso, a experiência de uma insurgência de direita ameaçando a democracia americana reforçou a abordagem cautelosa que o novo governo Biden adotou em relação a Jair Bolsonaro, apelidado por jornalistas de “Trump dos Trópicos”. As reservas de Biden em relação ao governo Bolsonaro resultaram em uma série de gestos da Casa Branca destinados a enviar uma mensagem muito diferente às Forças Armadas brasileiras daquela de 1964: ou seja, que o governo dos EUA agora _se opunha_ veementemente a qualquer tentativa dos militares brasileiros de subverter o processo eleitoral democrático no Brasil. Para sublinhar a política de Biden em relação ao Brasil, a Casa Branca enviou Jake Sullivan, seu conselheiro de Segurança Nacional, para se encontrar com Jair Bolsonaro em 2021, quando Bolsonaro já havia iniciado uma campanha sugerindo que poderia haver fraude nas eleições presidenciais de 2022. Em seu encontro, Sullivan enfatizou o apoio do governo dos EUA ao processo eleitoral brasileiro. Segundo Tom Shannon, ex-embaixador dos EUA no Brasil, “Sullivan e a equipe que o acompanhou saíram com a impressão de que Bolsonaro era totalmente capaz de tentar manipular os resultados das eleições ou negá-los, como Trump havia feito. Portanto, houve muita reflexão sobre como os Estados Unidos poderiam apoiar o processo eleitoral sem parecer que estavam interferindo.” A administração Biden enviou então vários representantes ao Brasil. Em julho de 2021, o diretor da CIA, William Burns, visitou Brasília para instar o governo brasileiro a não questionar a integridade das eleições de 2022. No ano seguinte, o secretário de Defesa, Lloyd Austin, visitou o Brasil e transmitiu uma mensagem semelhante às Forças Armadas brasileiras. Em 19 de julho de 2022, um dia depois de Bolsonaro se reunir com embaixadores estrangeiros no Brasil para enfatizar que considerava o processo eleitoral do país comprometido, o Departamento de Estado dos EUA emitiu uma declaração afirmando: “O Brasil tem um histórico sólido de eleições livres, justas e transparentes, e os Estados Unidos confiam que seu sistema eleitoral refletirá a vontade do povo nas eleições de outubro”. O porta-voz do Departamento de Estado acrescentou: “As eleições conduzidas pelo sistema eleitoral e pelas instituições democráticas competentes e comprovadas do Brasil servem de modelo para nações do hemisfério e do mundo”. A posição de Biden fazia parte de um movimento internacional mais amplo de governos progressistas e democráticos que enviaram sinais claros às Forças Armadas brasileiras de que, caso apoiassem as tentativas de Bolsonaro de reverter os resultados eleitorais, sofreriam isolamento internacional. Essas vozes legitimaram o processo eleitoral. Telefonemas de Biden, do presidente francês Emmanuel Macron e de outros líderes mundiais para o presidente eleito Lula da Silva, minutos após o anúncio de sua vitória, consolidaram ainda mais sua posição, enquanto Bolsonaro tentava mobilizar suas forças para questionar o resultado eleitoral. Embora Bolsonaro e seus principais apoiadores tenham ignorado os alertas de líderes internacionais, setores das Forças Armadas brasileiras não o fizeram. Sua decisão de não participar da tentativa de golpe de Estado dividiu as Forças Armadas e sabotou seu sucesso. A insurreição em Brasília, em 8 de janeiro de 2023, fracassou. O Supremo Tribunal Federal condenou Bolsonaro por liderar uma organização criminosa que tentou um golpe de Estado e o sentenciou a 27 anos de prisão, juntamente com militares e civis conspiradores, que receberam penas menores. Entre 1962 e 1964, no auge da Guerra Fria, os presidentes democratas John F. Kennedy e Lyndon Johnson agiram para minar a democracia e legitimar os esforços das Forças Armadas brasileiras para chegar ao poder. Em 2022 e 2023, outra administração democrata adotou uma postura completamente diferente, que ajudou a fortalecer a democracia no Brasil. O ex-presidente Joe Biden atuou de forma oposta aos democratas que apoiaram a ditadura no Brasil — e defendeu que as eleições brasileiras não deveriam ser contestadas ## **O Brasil na lista de Trump** A eleição de Jair Bolsonaro em 2018 provocou uma reação política intensa nos Estados Unidos entre imigrantes brasileiros e acadêmicos que pesquisam e lecionam sobre o Brasil. Em 1º de dezembro de 2018, 200 ativistas se reuniram na Faculdade de Direito da Universidade Columbia em Nova York para fundar a Rede nos Estados Unidos pela Democracia no Brasil. A assembleia também votou pela criação do Washington Brazil Office (WBO), que “apoia e realiza atividades de advocacia, conhecimento e cooperação para fortalecer a sociedade civil, proteger os direitos humanos, promover o desenvolvimento socioeconômico sustentável e defender a democracia e o Estado de Direito”. Ao longo dos quatro anos seguintes, centenas de ativistas em todos os Estados Unidos organizaram cerca de mil protestos, palestras, petições, declarações públicas e atividades de lobby no Congresso, denunciando as medidas autoritárias do governo Bolsonaro e defendendo a democracia brasileira, as ONGs progressistas e os movimentos sociais. Com a proximidade das eleições presidenciais brasileiras de 2022, o Washington Brazil Office concentrou-se em dialogar com membros do Congresso dos EUA, bem como com representantes do Departamento de Estado, da Casa Branca e de organizações internacionais sediadas em Washington, D.C. A ação mais importante do WBO foi a organização de uma delegação de representantes de vinte ONGs e movimentos sociais brasileiros que viajaram à capital dos EUA para alertar políticos e formuladores de políticas sobre as sérias ameaças à democracia no Brasil. Como resultado da visita e de outras articulações, o Senado dos EUA aprovou uma resolução afirmando que, caso as Forças Armadas brasileiras tentassem interferir nas eleições brasileiras, apresentaria uma legislação cortando toda a ajuda militar e econômica ao país. Sem dúvida, por muitos anos, observadores políticos e historiadores debaterão o peso relativo das diferentes manifestações no Brasil e no exterior para dividir com sucesso as Forças Armadas e minar a tentativa de golpe. No entanto, os perigos de 2022 e 2023 não foram evitados. Trump deixou claro que não tem escrúpulos em interferir em assuntos internos em toda a América Latina, desde seu apoio financeiro de 20 bilhões de dólares ao governo Millei na Argentina, às vésperas das eleições para o Congresso, até a intervenção de Trump na Venezuela. As manifestações de Eduardo Bolsonaro e outros nos Estados Unidos, que condicionaram as tarifas de Trump sobre o Brasil a uma anistia para Jair Bolsonaro, são um lembrete de que o atual presidente dos EUA pode ser facilmente influenciado pelos assessores de extrema direita que o cercam. A possibilidade iminente de o governo Trump declarar o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital como organizações terroristas e, em seguida, vinculá-los ao presidente Lula da Silva é mais uma forma pela qual o atual governo dos EUA tentará influenciar o resultado das eleições brasileiras. Sem um aliado na Casa Branca, neste ano eleitoral será ainda mais difícil do que há quatro anos aproveitar a solidariedade internacional em defesa da democracia brasileira. Trump gostaria de consolidar governos de extrema direita em toda a América. O Brasil é o próximo país em sua lista.

A Casa Branca, o Brasil e uma história de golpes: 1964 e 2022.
- bsapub
apublica.org/2026/03/eua-e-ditadura-u...
#Portugus #Ditaduramilitar #EstadosUnidos #FlvioBolsonaro #GolpedeEstado #JairBolsonaro #Poltica

0 0 0 0
Preview
> _Quer receber os textos desta coluna em primeira mão no seu e-mail? Assine a newsletter Xeque na Democracia, enviada toda segunda-feira, 12h. Para receber as próximas edições,__inscreva-se aqui._ “Apliquem pressão diplomática para que nossas instituições funcionem adequadamente”, disse Flávio Bolsonaro no último sábado (28/3) em Texas, dirigindo-se a uma plateia cheia de nomes da extrema direita ao estrear no CPAC, evento cujos organizadores, Mercedes e Matt Schlapp, são amigos e aliados de Eduardo Bolsonaro nos EUA. É Eduardo quem organiza os CPACs no Brasil. “Em vez da administração Biden interferir em nossas eleições para instalar um socialismo que odeia a América, aplicar pressão diplomática por eleições livres e justas baseadas em valores de origem americana”, completou. Chama a atenção a ausência da palavra “democracia” no discurso de Flávio Bolsonaro. Nem uma só vez a palavra foi mencionada. O pré-candidato não pediu que os EUA façam pressão por “eleições democráticas” no Brasil, mas que as nossas eleições sejam “baseadas em valores de origem americana”, ou seja, que sigam os interesses dos EUA. **Sai a democracia, entra a “liberdade” norte-americana, que agora declara abertamente poder intervir onde quiser, quando quiser.** Isso demonstra que Flávio e Eduardo estão absolutamente alinhados com a novilíngua trumpista – e que estão sendo assessorados por conselheiros experientes da extrema direita, que conhecem bem o público americano do CPAC e sua leniência com a erosão da democracia como valor e na prática realizada por Trump. Chegarei a isso mais adiante. **Um pedido a uma intervenção estrangeira deveria chocar a imprensa e a opinião pública brasileira.** Por mais entreguistas que fossem incontáveis candidatos no passado, nenhum se aventurou a pedir que os EUA “pressionem” nossas instituições tão claramente. Mas infelizmente, com exceção da newsletter Meio, a imprensa pegou leve demais na sua interpretação do pedido de Flávio. Preferiu se apegar às aspas de Flávio e deixou de dizer o óbvio: **o tal candidato Flávio “moderado” não existe.** A candidatura da família Bolsonaro tem como eixo principal anistiar os golpistas e alinhar nosso país ao que quiser o governo norte-americano de Trump. Ou, dito mais claramente: **a candidatura de Flávio nada mais é uma sequência ao plano de Steve Bannon de colocar Eduardo Bolsonaro na presidência do Brasil** , como já alertei aqui nesta coluna. E faz parte deste plano, primeiro, as pressões tarifárias conquistadas graças ao lobby de Eduardo nos EUA, depois os processos e a lei Magnitsky contra Alexandre de Moraes, e agora recentemente, o envio do assessor do Departamento de Estado para assuntos do Brasil, Darren Beattie, para visitar Jair Bolsonaro na prisão e tentar criar um fato político que o colocasse como “vítima de perseguição” da ditadura brasileira. A visita foi primeiro permitida e depois suspensa por Alexandre de Moraes, e depois o visto foi retirado pelo Itamaraty. Muitos capítulos dessa nova conspiração internacional para vender o Brasil aos EUA ainda vão acontecer, sob a batuta de duas figuras fundamentais: **Steven Miller** , assessor de Trump que vivia por aqui durante o governo de Jair, e **Steve Bannon** , quem afirmou em evento na posse de Donald Trump que Eduardo Bolsonaro seria o futuro presidente do Brasil. Novos capítulos podem incluir desde a volta de tarifas, retaliações ou outras pressões feitas pelo Departamento de Estado, Comércio, Tesouro ou Justiça dos Estados Unidos, até outras ações pensadas desde os EUA para criar fatos políticos que vitimizem Jair Bolsonaro e reforcem a ideia que o Brasil vive uma ditadura. Está ainda no cardápio intervencionista a decretação de organizações criminosas brasileiras como “terroristas”, permitindo ação militar norte-americana no nosso litoral. **Tudo isso pode acontecer no meio da disputa eleitoral**. Para entender como a candidatura de Flávio está sendo forjada desde a extrema direita dos EUA, vale analisar com mais cuidado o discurso de Flávio no CPAC. É normal que presidenciáveis ajustem o discurso de acordo com a sua plateia. Mas o que Flávio disse à direita americana vai ficar marcado como o discurso mais entreguista da história do Brasil. Em resumo, **Flávio prometeu terras raras para apoiar a indústria de defesa e o desenvolvimento de IA nos Estados Unidos** , além de tachar de cara as organizações de narcotráfico de “terroristas”, pedindo “ajuda para combater cartéis de drogas transnacionais”. Mas, antes disso, Flávio se esforçou em **convencer a plateia que o Brasil importa para os interesses estratégicos dos EUA** – citando nosso tamanho, nossa população e o fato que temos “as maiores reservas de água doce do mundo, terras agrícolas vastas que alimentam o mundo e recursos energéticos que poderiam abastecer continentes”. “Mas aqui está o que realmente deveria chamar sua atenção. O Brasil está se tornando — vai ser — o campo de batalha onde o futuro do hemisfério será disputado, porque **o Brasil é a solução dos Estados Unidos para romper a dependência da China** em relação a minerais críticos, especialmente terras raras”, disse Flávio, apelando em seguida para o sentimento militarista: “Essas terras raras são essenciais para os processadores de computador e para a revolução da IA que está transformando nosso mundo, além dos equipamentos de defesa americanos. Sem esses componentes, a inovação tecnológica americana se torna impossível e a produção dos sistemas militares avançados que mantêm a superioridade americana cai nas mãos de adversários”. O pré-candidato disse com orgulho que Bolsonaro era conhecido como “Trump dos trópicos”, comparou a facada à tentativa de assassinato de Trump e afirmou que sua condenação pelo atentado ao Estado Democrático de Direito era “similar à que foi feita contra Donald Trump por insurreição”. Se tentava se demonstrar moderado, naquele discurso Flávio demonstrou **aplaudir todos os temas caros à extrema direita americana abraçados pelo pai.** Disse que Jair está preso “por defender nossos valores conservadores sem medo e por se opor ao sistema”, por lutar “contra a tirania da Covid”, contra cartéis de drogas, “contra os interesses da elite global, contra a agenda ambiental radical, contra a agenda woke que destrói famílias e, acima de tudo, ele lutou pela liberdade.” Em contraste, se eleito, Flávio diz que “nós teremos, mais uma vez, um presidente que luta contra os interesses da elite global, contra a agenda ambiental radical, contra a agenda woke que destrói famílias, contra os cartéis de drogas e, acima de tudo, luta pela liberdade e pelos valores tradicionais. Um presidente que proclama sem medo que Jesus Cristo é o nosso Senhor.” Assim, disse, “estaremos celebrando o nascimento da aliança conservadora mais forte da história do Hemisfério Ocidental.” Veja aí de novo a palavra “liberdade” entrando no lugar da palavra “democracia”. Há duas narrativas importantes de se depreender do discurso, que estão sendo forjadas a partir da direita norte-americana e que com certeza serão como motes de campanha pelas redes de desinformação. 1. Joe Biden teria “interferido” na eleição de 2022 através de financiamentos da Usaid (nunca houve comprovação de que esses financiamentos tiveram qualquer influência no resultado eleitoral). 2. Lula “defende” narco-terroristas do PCC e CV, e o governo atual teria “impedido” sua designação como terroristas. Eis o que disse Flávio: “De acordo com um artigo publicado ontem pelo New York Times, o presidente do meu país faz lobby nos Estados Unidos para proteger organizações terroristas que oprimem meu povo, lavam dinheiro e exportam drogas e armas para os Estados Unidos e para o mundo”. Mas o que Flávio quis com este discurso? Primeiro, entendo que o discurso, que apela fortemente a um nacionalismo da ultra-direita americana e até seus delírios conspiratórios, é possivelmente produto de consultores americanos, que entendem perfeitamente o público do CPAC. Bem escrito, sucinto, feito para se encaixar perfeitamente nos 15 minutos dedicados, ele foi decorado e treinado por Flávio Bolsonaro, que não é fluente em inglês, como demonstra este vídeo publicado pelo Congresso em Foco, no qual Eduardo traduz uma pergunta feita em inglês a Flávio. Ou seja: **houve treinamento e preparação, e foram feitos por profissionais.** Segundo, por mais que Flávio tenha dirigido o apelo a autoridades americanas, pedindo para fazerem “pressão diplomática”, a ladainha, que recorre ao conspiracionismo MAGA e leva em conta a completa falta de conhecimento deste público sobre o Brasil, foi bem elaborada para mobilizar os atendentes do CPAC. Se não fosse algo proibido pela Legislação Eleitoral, eu **poderia até comparar o discurso com um “pitch” de investimento, em busca de atrair financiamento para um projeto de longo prazo** – afinal, políticos, empresários, e financiadores de campanhas republicanas estavam na plateia. Estamos ainda em março de 2026, mas esta já é a terceira viagem de Flávio aos EUA. O senador passou o réveillon em um evento organizado pelo pastor André Valadão em Orlando. Em janeiro, seguiu para o Texas e para Washington, onde tentou sem sucesso um encontro com o senador americano Marco Rubio, aliado de Donald Trump, além de ter se reunido com aliados de Eduardo, cujos nomes não foram revelados. No dia 20 de janeiro de 2026, Flávio esteve em Israel em uma viagem com roteiro de acenos políticos e religiosos montado por Eduardo, buscando reforçar os laços com a direita internacional e adicionar um verniz religioso à sua pré-candidatura. Um dos episódios simbólicos dessa agenda foi uma videochamada feita do alto de uma colina próxima ao Mar da Galileia com parlamentares aliados, posteriormente publicada nas redes sociais. Já no dia 19 de fevereiro, o senador embarcou novamente para os Estados Unidos para cumprir compromissos com integrantes da equipe de Donald Trump, embora os nomes das autoridades com quem pretende se encontrar não tenham sido divulgados. Na sequência, Flávio seguiu para Nashville, no Tennessee, acompanhado de Eduardo Bolsonaro e do influenciador Paulo Figueiredo, onde participou de um evento promovido pela _think tank_ conservadora PragerU e concedeu uma entrevista à CEO da organização, Marissa Streit. Tudo isso indica uma coisa claramente: **a campanha bolsonarista tem um forte QG nos EUA**. O plano eleitoral de Flávio é apenas a continuação da campanha coordenada por Eduardo desde que se mudou para o país em março do ano passado.

O “moderado” Flávio Bolsonaro pediu intervenção dos EUA nas eleições.
- bsapub
apublica.org/2026/03/o-moderado-candi...
#Portugus #Conservadorismo #EstadosUnidos #FlvioBolsonaro #JairBolsonaro #Poltica

0 0 0 0
Preview
A guerra no Irã, que chega em sua quinta semana nesta segunda-feira, 30 de março, tem protagonizado uma parte relevante dos debates nas redes sociais. É o que mostra um monitoramento realizado pelo Instituto Democracia em Xeque, na última semana, entre 19 e 25 de março. A alta do preço dos combustíveis foi a maior preocupação identificada nas redes sociais brasileiras considerando a crise do petróleo. Entre as postagens observadas sobre o tema, 63% focavam nos valores nas bombas dos postos de gasolina. As publicações espelham a crise no mercado internacional causada pela alta do barril de petróleo diante da guerra no Irã iniciada pelo governo norte-americano de Donald Trump. Na abertura do mercado asiático, neste domingo, 29, o petróleo brent, referência no comércio global, apresentava o maior preço desde julho de 2022, acima de 115 dólares o barril. Mesmo com a paralisação dos ataques às usinas do Irã até 10 de abril, anunciada por Trump, o mercado segue instável. Isso acontece porque o estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% da produção de petróleo do mundo, segue fechado pelo Irã. Nos últimos dias da análise, houve uma desaceleração na produção de conteúdo sobre o tema e no engajamento, mas de acordo com o relatório, “ainda mantendo níveis relevantes de circulação”. “O tema permanece latente especialmente por estar extremamente relacionado com o custo de vida no Brasil, tema sensível nas redes”, afirma Luana Homma, pesquisadora do Instituto Democracia em Xeque e doutora em Ciências Humanas e Sociais pela UFABC. Outro efeito da crise dos combustíveis gerada pela guerra é o crescimento da desinformação nas redes sobre o tema. Segundo o monitoramento, postagens com informações falsas foram identificadas, mesmo sem muita expressão, e focadas em distorções de declarações e de informações. “Há uma estratégia recorrente de descontextualização de falas políticas para gerar indignação e reforçar narrativas negativas sobre o governo, especialmente em temas sensíveis como o custo de vida”, explica a diretora de Projetos do Instituto Democracia em Xeque e professora de gestão pública da FipeEES, Ana Julia Bernardi. Uma postagem com pelo menos 6,5 mil curtidas foi publicada por um perfil com mais de 85 mil seguidores e afirmava que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva teria declarado que o brasileiro precisa “tirar a bunda da cadeira” e andar a pé, e que o brasileiro estaria “mal-acostumado” por querer ir de carro até a padaria. A fala do presidente, conforme desmentido por agências de checagem, foi tirada do contexto. Ela ocorreu durante a inauguração do setor de trauma do Hospital Federal do Andaraí, na cidade do Rio de Janeiro, e se referiu a questões de saúde, tais como a prevenção da obesidade e a importância da prática de atividades físicas. Outra informação falsa que circulou nas redes sociais discorria sobre navios com diesel destinados ao Brasil que teriam sido desviados para abastecer outros países em função dos altos preços do combustível no mercado internacional, segundo uma declaração da presidente da Petrobras (Magda Chambriard). A conclusão da postagem é que ocorreria um desabastecimento do país em função desses desvios. O relatório do Democracia em Xeque explica, entretanto, que apesar de o redirecionamento dos navios ter sido corretamente citado, ele não é considerado irregular pela Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom). O levantamento do Instituto ainda aponta quais são os principais atores do debate, que neste caso “foi impulsionado por uma combinação de veículos de imprensa, perfis institucionais e influenciadores no Instagram e YouTube”, diz o relatório. O perfil oficial do presidente Lula se destacou e os veículos de imprensa foram Metrópoles, Jovem Pan News, InfoMoney e A Tarde. “A presença de canais no YouTube e perfis menores com alta taxa de engajamento por post indica um ambiente híbrido, em que a cobertura jornalística se combina com leitura opinativa e circulação em nichos”, analisa o relatório. ## **Greve dos caminhoneiros** O período que concentrou o maior volume de atenção pública sobre o assunto nas redes sociais, segundo o monitoramento, foram os dias 19 e 20 de março. Isso aconteceu porque, além de um aumento nos preços dos combustíveis, era esperada a definição sobre uma possível greve dos caminhoneiros. Como essa possibilidade não se concretizou, o instituto credita a queda nas interações nos dias que se sucederam ao fato. “A retirada do risco de greve dos caminhoneiros gerou desaceleração do debate sobre o tema, por uma redução da iminência dos impactos na vida cotidiana da população”, explica Luana Homma. O movimento dos caminhoneiros gerou ações do governo federal como uma Medida Provisória (MP) e resoluções da Agência Nacional de Transporte Terrestre (ANTT) com o objetivo de obrigar o pagamento do piso mínimo do valor do frete aos caminhoneiros. As novas regulamentações estabelecem sanções às empresas que não cumprirem a lei do piso mínimo que podem até perder o registro que permite a circulação de carga no país. Para tentar segurar a alta do óleo diesel, o governo também zerou a cobrança dos tributos federais PIS e Cofins que incidem no combustível. Agora, tenta negociar com os governos estaduais em busca de subvenção referente ao diesel importado. O conflito não parece estar próximo do fim. Nesta semana, o risco é de uma invasão por terra do território iraniano pelos Estados Unidos, que já mantém na região cerca de 10 mil militares a mais do que o contingente padrão.

Combustíveis: preços e desinformação marcam debates nas redes sociais, aponta pesquisa.
- bsapub
apublica.org/nota/combustiveis-precos...
#Portugus #DonaldTrump #EstadosUnidos #Ir #Petrleo #Redessociais

0 0 0 0
Preview
A noite de 13 de março de 1964 caía sobre o Rio de Janeiro quando o presidente João Goulart (Jango), diante de uma multidão na Central do Brasil, anunciou medidas que alterariam o curso da história nacional. A fala de Jango sobre a limitação das remessas de lucro estrangeiro e a promessa de reforma agrária ecoaram não apenas nas ruas, mas também nos gabinetes de Brasília, nas sedes de corporações multinacionais e nos corredores de Washington, nos EUA. Em Belo Horizonte, dias antes, o deputado federal Leonel Brizola, cunhado do presidente, havia sido impedido de discursar por um grupo de senhoras que empunhavam terços como escudos contra o que consideravam uma ameaça vermelha. “Rosários de fé não podem ser levantados contra o povo”, advertiu Goulart na Central do Brasil. A resposta a essa advertência viria menos de uma semana depois, não em orações silenciosas, mas no ruído de meio milhão de pessoas marchando sobre o asfalto de São Paulo, na tarde de 19 de março, dia de São José, padroeiro da família. João Goulart durante comício na Central do Brasil, no Rio de Janeiro, em 13 de março de 1964 A Marcha da Família com Deus pela Liberdade começou na Praça da República às 16 horas e seguiu rumo à Praça da Sé. Faixas empunhadas pelos manifestantes traziam dizeres que misturavam devoção religiosa e anticomunismo visceral: “Nossa Senhora Aparecida, iluminai os reacionários”, “Vermelho bom, só o batom”, “Verde, amarelo, sem foice nem martelo”. Mas o que parecia ser uma manifestação espontânea de fiéis preocupados era, na verdade, o resultado de uma engrenagem muito mais complexa, como explica a doutora em história Janaína Cordeiro, da Universidade Federal Fluminense (UFF), que pesquisa a atuação de grupos femininos conservadores no período do Estado de exceção. Segundo Janaína, o movimento não surgiu do nada, mas sim de um contexto de intensa polarização política. “A primeira marcha acontece em São Paulo e é concebida como uma marcha de desagravo ao Rosário, que teria sido ofendido pelo Jango ali no Comício da Central do Brasil no dia 13 de março”, explica. Ela detalha que essas mulheres, majoritariamente donas de casa e professoras primárias de classe média, organizaram-se rapidamente: “Essas mulheres são fundamentalmente donas de casa. Quando elas exercem profissões, elas são, em geral, ligadas ao cuidado, consideradas até na época femininas”. Mulheres durante a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, em 1964, exibem uma faixa contra o regime cubano A organização do evento durou apenas cinco dias e contou ainda com a articulação de figuras como o deputado federal Antônio Sílvio da Cunha Bueno, do PSD, e o vice-governador de São Paulo, Laudo Natel. O nome da marcha foi sugerido pela freira Ana de Lurdes, que a via como “um ato de fé, numa hora de trevas”. Nos bastidores, o governador de São Paulo, Ademar de Barros, recolhia fundos junto ao empresariado na sede da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) para equipar a Força Pública e garantir a ordem do evento. Com base em documentos e no depoimento do ex-agente da Agência Central de Inteligência Americana (CIA), Philip Agee, a historiografia indica que a agência fornecia dinheiro ao Ibad (Instituto Brasileiro de Ação Democrática). Também teriam recebido contribuições da CIA e do empresariado para organizar a marcha, o Ipes (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais), a Camde (Campanha da Mulher pela Democracia), a FAUR (Fraterna Amizade Urbana e Rural) e a SRB (Sociedade Rural Brasileira). Um documento sobre as “marchas da família”, organizado por Rodrigues Matias, obtido pela revista _Caros Amigos_ em 2002, registra que “João Batista Leopoldo de Figueiredo, presidente do Ipes, foi uma das peças angulares da articulação do movimento”. João Batista Leopoldo de Figueiredo, do Ipes, que teria recebido apoio da CIA ## **“Padre da CIA”: religião como arma de Guerra Fria** A trajetória de um padre irlandês que acreditava ter sido salvo por um milagre também ajuda a explicar como a fé religiosa se transformou em instrumento de política externa americana. Patrick Peyton, membro da Congregação de Santa Cruz, havia contraído tuberculose durante sua formação sacerdotal nos Estados Unidos. Quando se recuperou, atribuiu sua salvação à intercessão de Nossa Senhora e do Rosário. A partir desse momento, Peyton dedicou sua vida a criar um movimento transnacional de devoção que se tornaria um dos instrumentos mais sofisticados de influência americana na América Latina durante a Guerra Fria. Peyton produzia filmes e programas de rádio que promoviam a devoção ao Rosário. Em 1962, quando chegou ao Brasil, sua Cruzada do Rosário em Família se transformaria em um vetor de mobilização política de proporções inesperadas, também impulsionando a Marcha da Família com Deus pela Liberdade. O padre Patrick Peyton (à direita) com o governador de São Paulo Adhemar de Barros A doutora em história pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Isabella Villarinho Pereyra, descreve o papel dessa organização religiosa como fundamental para compreender o golpe de 1964. “As marchas eram meio que uma catarse coletiva daquele grupo de mulheres, que tinham uma agenda muito específica: salvar o Brasil do comunismo”, explica Pereyra. “E, naquele contexto, existia toda uma dinâmica de palavras que travavam uma batalha contra o comunismo, não apenas no âmbito físico dos militares, mas também na esfera espiritual”. O Rosário não era simplesmente um símbolo religioso. Era, na narrativa construída pela Cruzada, a única arma capaz de salvar o Brasil do comunismo. “As mulheres que marchavam acreditavam estar apelando a todos os tipos de ajuda possíveis, mobilizando não apenas a fé, mas também a mídia, as paróquias, as missas e a estrutura da Igreja Católica”, relata Pereyra. A conexão entre a Cruzada do Rosário em Família e a CIA não foi acidental. Ela havia sido construída por Peter Grace, um grande empresário do ramo de exportações, amigo pessoal de Alan Dulles, então diretor da CIA. “O Peter Grace era um grande empresário do setor de exportações. E ele era muito católico”, descreve Pereyra. Grace havia conhecido o padre Peyton em uma viagem a navio para a Europa, onde ambos participavam de uma feira de inovações tecnológicas. Impressionado pelos filmes e programas de rádio de Peyton, Grace se tornou seu principal financiador e, mais importante, seu intermediário junto à inteligência americana. Grace foi quem propôs levar o movimento das Cruzadas para a América Latina. A ideia encontrou apoio tanto na CIA quanto no Vaticano, que tinha suas próprias preocupações com a região. A Igreja Católica enfrentava dois problemas na América Latina: um número reduzido de padres e clérigos e a crescente influência de movimentos de esquerda. A combinação de interesses religiosos institucionais com os objetivos geopolíticos dos EUA criou uma aliança. O financiamento viria de Washington, mas a face pública seria religiosa. Quando a Cruzada do Rosário em Família se estabeleceu no Brasil, não foram homens de terno e gravata que fizeram a articulação inicial. Foram mulheres ligadas a grupos leigos católicos que criaram escritórios em Recife, no Rio de Janeiro, em Salvador, no Paraná e em Belo Horizonte. O clero católico, por meio de arcebispos e bispos, estabeleceu o primeiro contato com os fiéis, que se tornaram o braço direito da Cruzada. Essas mulheres, em sua maioria donas de casa e professoras primárias de classe média, ligadas à Igreja Católica, começaram a organizar-se em grupos que se multiplicaram rapidamente. Em São Paulo, a União Cívica Feminina (UCF) havia iniciado suas atividades em 1961, fundando núcleos no interior do estado, em Santos e outras cidades. No Rio de Janeiro, seis meses depois, foi fundada a Camde, que rapidamente expandiu seus núcleos para outros bairros e cidades da região. Mas havia um detalhe crucial: muitos dos maridos, irmãos e homens da família dessas mulheres eram militares, empresários ligados ao Ipes e ao Ibad, ou executivos de corporações multinacionais. Janaína Cordeiro ressalta que, embora as mulheres tivessem um papel de liderança muito forte e importante naquela conjuntura, essas outras organizações envolvidas também foram centrais. “Tinham o que eles chamavam, na época, de classes produtoras; tinham setores do empresariado; tinham alguns sindicatos organizados que também chamavam para a marcha; tinham outras igrejas para além da Igreja Católica.” * Cruzada do Rosário em Família no Rio de Janeiro * Cruzada do Rosário em Família no Rio de Janeiro * Poster do Jornal do Dia sobre a Cruzada em Porto Alegre ## ​**A orquestração invisível** Segundo a pesquisa de Pereyra, a CIA determinava para onde as marchas do Rosário tinham de ir. “Sempre que eles chegavam no movimento, eram marcados jantares com empresários e a mídia local. Então, eles recebiam muitos empresários e associações comerciais e industriais e enviavam muitas cartas a essas pessoas”, detalha Pereyra. O financiamento não vinha apenas da CIA. Grandes corporações americanas, bem como empresários brasileiros ligados ao capital nacional, injetaram recursos para sustentar o movimento uma vez estabelecido nos estados brasileiros. A Aliança para o Progresso, programa de cooperação econômica americano, servia como um canal adicional de recursos. Havia uma narrativa que permeava todas as cruzadas, uma frase que aparecia em documentos da época: “A verdadeira revolução foi sua mãe que fez”. Essa construção narrativa permitia que as mulheres exercessem poder político sem que isso fosse reconhecido como tal. Permitia que a CIA operasse por meio de estruturas religiosas e familiares, evitando a aparência de intervenção externa. Segundo Janaína Cordeiro, a narrativa funcionou: “a mobilização legitimava o golpe, que era apresentado como resposta ao clamor das ruas”. Um dos documentos mais reveladores da pesquisa de Pereyra indica que Peter Grace menciona a necessidade de uma entrevista entre o Padre Peyton e a CIA, na qual se evidencia que a conexão entre a religião, o empresariado e a inteligência americana não era informal ou acidental. Carta de 1961 revela elo entre a Cruzada do Rosário, Peter Grace e o diretor da CIA, Allen Dulles ## **O legado de uma marcha funesta** Para compreender como as Cruzadas do Rosário em Família e, posteriormente, a própria Marcha da Família com Deus pela Liberdade encontraram terreno fértil no Brasil, é preciso considerar o contexto de polarização política que marcou o início dos anos 1960. O governo de Jango enfrentava uma poderosa coalizão de forças conservadoras e ultrarreacionárias. As reformas de base propostas por Goulart desagradavam profundamente os setores conservadores. A limitação às remessas de lucro estrangeiro afetava as multinacionais. A reforma agrária aterrorizava os fazendeiros. A mobilização dos sindicatos e dos trabalhadores, coordenada pelo Comando Geral dos Trabalhadores (CGT), assustava a burguesia. Nesse contexto de radicalização política, as Cruzadas do Rosário em Família ofereciam uma linguagem que permitia aos setores retrógrados expressar suas preocupações em termos religiosos e familiares, em vez de puramente econômicos ou políticos. Manchete do Jornal do Brasil sobre marcha em São Paulo O historiador Boris Fausto, em entrevista para a **Agência Pública** em 2019, ressalta que a marcha demonstrou que o golpe possuía um lastro social significativo no meio urbano, especialmente nas classes média e alta, mas adverte que “daí a falar em ‘movimento representativo do conjunto da sociedade’ vai uma enorme distância”. A grande imprensa, com raras exceções, como o jornal _Última Hora_ , de Samuel Wainer, desempenhou um papel crucial na construção do clima de pânico, mobilizando à exaustão o tema do perigo vermelho. _O Estado de S. Paulo_ , por exemplo, publicou em suas páginas o manifesto de convocação da marcha, alinhando-se abertamente aos conspiradores. “A ameaça imediata de implantação de um regime comunista não havia”, afirma Fausto. O que existia era uma radicalização política e uma disputa pelos rumos do desenvolvimento nacional. O golpe de 1964, longe de ser uma mera “quartelada”, foi uma articulação civil-militar-empresarial que surpreendeu as forças democráticas e se instalou com absoluta força. A ditadura que se seguiu evidenciou a verdadeira natureza do movimento. Quando a Marcha da Família terminou no começo da noite de 19 de março e a Catedral da Sé realizava a última missa do dia, o destino do governo Jango estava selado. Doze dias depois, o golpe seria consumado. A marcha havia fornecido a chancela civil que os militares precisavam para agir. A primeira marcha em São Paulo serviu de rastilho de pólvora. No Rio de Janeiro, uma marcha foi planejada para 2 de abril, mas o golpe foi antecipado para 31 de março e efetivado em 1° de abril, transformando a manifestação em uma “Marcha da Vitória”. A que ocorreu no Rio reuniu cerca de 800 mil pessoas, segundo estimativas mais prudentes, enquanto São Paulo contabilizava 500 mil. Janaína Cordeiro pontua a dimensão dessa mobilização: “A marcha do Rio foi a maior que teve. A partir daí, essas marchas passaram a ser de comemoração”. Ela acrescenta que o fenômeno se espalhou pelo país: “ao que parece, o Brasil marchou até setembro”. O ar daquele março de 1964 estava carregado de eletricidade, recordaria o historiador Jacob Gorender em entrevista sobre a véspera do golpe militar. A Operação Brother Sam, articulada por Washington, posicionou a Marinha e a Força Aérea americanas prontas para intervir no Brasil caso o golpe enfrentasse resistência armada ou resultasse em guerra civil. A intervenção direta não foi necessária, mas a presença da frota ao largo da costa brasileira serviu como garantia de que o projeto de deposição de Goulart não falharia. A derrubada do governo legítimo era uma prioridade na lógica da Guerra Fria, em que a retórica do “perigo vermelho” justificava a supressão das liberdades democráticas. Mas o entusiasmo de muitos participantes logo se transformaria em desilusão. Parcelas da sociedade que apoiaram a queda de Jango, acreditando em uma intervenção breve para “restaurar a ordem”, viram-se presas a um regime autoritário que duraria 21 anos. Em 1968, muitos dos que haviam marchado com terços nas mãos estariam nas ruas protestando contra a violência de Estado. A ditadura que se seguiu suprimiu as liberdades, fez uma limpeza no parlamento, perseguiu e torturou opositores, até matá-los, como retrataram os filmes “Eu ainda estou aqui” (2024) e “O Agente Secreto” (2025).

CIA: como agência americana impulsionou Marcha da Família com Deus pela Liberdade.
- bsapub
apublica.org/2026/03/cia-como-agencia...
#Portugus #Ditaduramilitar #EstadosUnidos #Poltica #Religio

0 0 0 0
Preview
A semana em Brasília inicia com a Câmara dos Deputados esvaziada por decisão do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB). Após um pedido formal dos líderes partidários, Motta suspendeu todas as votações e audiências públicas programadas. A motivação é o fim do período de janela partidária no dia 3 de abril, quando os deputados podem mudar de partido para concorrer às eleições, sem perder mandato. Contando com a ausência da maioria dos parlamentares em Brasília, as atividades presenciais e virtuais foram suspensas. Após o Supremo Tribunal Federal (STF) derrubar a decisão que prorrogava a CPMI do INSS por 8 votos, a PEC 5/2026 é analisada na Mesa Diretora do Senado. Protocolada pelo senador Sergio Moro (PL-PR), a proposta de emenda obriga o comparecimento de investigados ou testemunhas em oitivas nas Comissões Parlamentares de Inquérito, assegurando o direito ao silêncio. As ausências de testemunhas e investigados foram alvos de críticas na CPMI do INSS. Também, no Senado, nesta terça-feira, 31 de março, o Diploma Mulher-Cidadã Bertha Lutz será entregue à atriz Laura Cardoso. Conhecida por suas atuações em novelas como “Caminho da Índia” e “Mulheres de Areia”, Laura Cardoso será uma das 15 pessoas homenageadas por destaque na defesa dos direitos das mulheres e das questões de gênero no Brasil. No STF, o período de sessões virtuais no Plenário e nas Turmas da Corte começou na sexta-feira, 27 de março, e se estende até o dia 8 de abril. Os ministros devem julgar as Ações Diretas de Inconstitucionalidade (ADI) 7426 e 7462. Será analisada a resolução do Conselho Federal de Psicologia que veda o uso de crenças religiosas no exercício da psicologia e na forma de publicidade e propaganda da profissão. No último sábado, 28 de março, o ministro Cristiano Zanin suspendeu as eleições indiretas para governador do Rio de Janeiro, em decisão liminar. Ele também pediu destaque no julgamento sobre as regras da eleição-tampão que definirá o novo governador fluminense até o fim de 2026, após a renúncia de Cláudio Castro (PL). Por isso, a votação que ocorria no plenário virtual passará para o plenário presencial. A data desse julgamento ainda será definida pelo presidente da Corte, Edson Fachin. Simultaneamente, após a aprovação da Federação Nacional dos Policiais Federais (Fenapef) na última quarta-feira (26), a Polícia Federal deve entrar em estado de greve nesta semana. Policiais federais pedem reajuste nos salários e mais valorização da profissão. A paralisação pode impactar as operações e investigações feitas pela PF já nos próximos dias. **Estão na agenda da semana de 30/2 a 3 de abril:** ## **DIREITOS HUMANOS** * **Senado** * **Tratamento de câncer (CASCANCER, 31/3, 14h):** Audiência Pública com transmissão pela internet debate sobre aprovações e registros de vacinas, medicamentos e terapias contra o câncer. * **Direitos para pessoas com Síndrome de Down (CDH, 30/3, 14h):** Comissão dos Direitos Humanos discute os direitos à educação, ao trabalho digno, ao acesso à saúde e a proteção contra preconceitos de pessoas com Síndrome de Down. ## **ECONOMIA** * **Senado** * **Benefícios aos adimplentes (CAE, 31/3, 10h):** Comissão discute o PL 1558/2022, que concede descontos e benefícios em dinheiro a pessoas adimplentes incluídas no Cadastro Positivo que usam recursos públicos e já pagaram 75% de suas dívidas. * **Fundos de financiamento de pesquisas (CAE, 31/3, 10h)** : Comissão debate a mudança da Constituição para instituir Fundo Constitucional Financeiro no Norte, Nordeste e um no Centro-Oeste, e permitir o financiamento de atividades de pesquisa, desenvolvimento e inovação de produtos com recursos desses Fundos. > _Agenda da semana da_** _Agência Pública_** _é um serviço apresentado aos leitores com base nas informações dos portais da Câmara, Senado e STF._

Janela partidária faz Hugo Motta segurar votações e Senado avalia obrigar presença às CPIs.
- bsapub
apublica.org/nota/hugo-motta-segura-v...
#Portugus #Agendadasemana #Poltica #Senado #STF

0 0 0 0
Preview
Quem nunca quis perder 5 kg que atire a primeira picada de caneta emagrecedora. Mais da metade dos brasileiros convive com excesso de peso. Um em cada cinco enfrenta a obesidade. Uma epidemia, que, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), apesar dos avanços da ciência, só deve aumentar até 2030. Após um ataque cardíaco, o jornalista Ed Wanderley teve que mudar os hábitos e eliminou 58 kg em um ano. Nesse período, tentou compreender as realidades que o deixaram doente ao longo de décadas, dos ultraprocessados ao açúcar; bem como quem lucra com o combate à enfermidade, da cirurgia bariátrica às canetas emagrecedoras. Nessa produção original da **Agência Pública** , uma investigação testemunhal une jornalismo, experiência, confissões e psicologia, numa indigesta jornada que só foi possível por vida e morte andarem lado a lado. > **Ficha técnica > ** Realização: **Agência Pública,** com apoio do **Instituto Ibirapitanga** e **Instituto Serrapilheira > ** Reportagem:**Ed Wanderley** (Colaboração: **Claudia Jardim**) > Roteiros: **Ed Wanderley** (Colaboração: **Claudia Jardim** e **Stela Diogo**) > Coordenação geral e direção de locução: **Sofia Amaral** > Desenho de som, edição e finalização: **Ricardo Terto** > Trilha sonora original: **Ana Sucha > ** Identidade visual: **Matheus Pigozzi** > Produção e pesquisa de materiais de arquivo: **Stela Diogo e Rafaela de Oliveira > ** Captação de som em campo: **Davysson Barbosa, Ethieny Karen, Gil Neves, Stela Diogo, Tathiane Santos e Vinícius Machado** > Captação de som em estúdio: **Ricardo Terto** > Trilhas adicionais: **Epidemic Sound** > Redes Sociais e publicação: **Lorena Morgana, Ethieny Karen, Thayná Dias, Raphaela Ribeiro, Guilherme Silva**

A Última Bolacha.
- bsapub
https://apublica.org/podcast/2026/03/a-ultima-bolacha/
#Portugus #Alimentao #Lobby #Poltica #Sade

0 0 0 0
Uma das minhas memórias mais nítidas da minha avó não é uma imagem, e sim um ritual. Lembro dela atravessando o quintal devagar, banhada pela luz que entrava pelas frestas do portão enferrujado, cantarolando e conversando com as plantas como quem atualiza uma amiga íntima. O espaço não era grande, mas na minha cabeça de criança, parecia uma floresta particular. Sempre que precisava afastar um galho ou colher uma flor, ela pedia: “Licença, minhas queridas”. O pedido se repetia nos dias de poda, quando a tesoura e o inseticida entravam em cena. Nada ali era feito sem aviso, nem sem afeto. Crescer naquela casa despertou um lado místico em mim. Entre histórias, superstições e santos, aprendi cedo uma verdade: as plantas sentem. Os anos passaram. Minha avó já não caminha pelo quintal, mas o hábito de ter plantas por perto floresceu em mim, talvez como uma tentativa de mantê-la. Hoje, idealizo um apartamento cheio de verde, mas, na vida real, me adapto ao que é possível: espadas-de-são-jorge, cactos, jiboias. Plantas resistentes, que talvez estejam preparadas para lidar com o temperamento do seu dono. Por um tempo, tudo prosperou. Até que notei algo: minhas plantas pareciam sentir comigo. A comprovação veio com a morte do meu cacto mais antigo: Spike, o primeiro de seu nome, que não resistiu após um período de ansiedade. Antes dele, outras suculentas também se foram, apesar de todos os cuidados descritos nos manuais. Faltava algo que nenhum manual ensina: equilíbrio. Elas sobreviveram a possíveis afogamentos, mas não às minhas fases de desordem interna. Reparei que, nos dias de alegria, as folhas pareciam mais vivas. Não que as plantas exijam uma felicidade constante — muitas vezes, foram elas que me fizeram levantar da cama em dias de desânimo. Mas percebi que as mortes aconteciam quando eu me perdia em mim mesmo. O aviso vinha em tom de tragédia, quase teatral, quase shakespeariano. Nunca fui muito fã de Shakespeare, mas minhas plantas parecem gostar de uma boa tragédia. Talvez devesse apresentá-las a Homero, para variar o repertório. Cuidar de plantas é um exercício de autocuidado disfarçado. A vida adulta se parece com ter raízes na terra: receber nutrientes não basta. É preciso movimento, tempo e, acima de tudo, luz. Girassóis sabem disso. Nós esquecemos. Assumo a culpa pela partida de muitas que, como Spike, tentaram me lembrar de que a vida precisa de equilíbrio. Que viver exige claridade, mesmo para quem prefere a sombra. Pequenas vitórias — um bom diálogo, um banho demorado, o silêncio — funcionam como adubo. É assim que a gente germina de novo. Não concluo nada, porque crônicas raramente se concluem. Elas deixam sementes. Talvez minha avó já soubesse, quando pedia licença às plantas, que aquele gesto nunca foi só sobre folhas. Era, desde o princípio, um jeito de pedir licença para cuidar de si — e dos outros.

Spike, o cacto: o primeiro de seu nome.
- bsapub
apublica.org/2026/03/spike-o-cacto-o-...
#Portugus #Comportamento #Crnica #Cultura

0 0 0 0
Preview
Cuba: o país da solidariedade está sozinho? Ameaça de Trump paralisa ajuda dos países amigos e potências rivais dos EUA não se dispõem a defender a ilha

Cuba: o país da solidariedade está sozinho?.
- bsapub
apublica.org/2026/03/cuba-o-pais-da-s...
#Portugus #EstadosUnidos #Justia #OrganizaoMundialdaSade #Poltica

0 0 0 0
Original post on ursal.zone

Guerra ao jornalismo – com Daniela Lima, Nina Santos e Patrícia Campos Mello.
- bsapub
apublica.org/podcast/2026/03/podcast-...
#Portugus #Imprensa #Jornalismo #Jornalismoindependente […]

0 0 0 0
Preview
Caso Master: como investigações conectam a CPMI do INSS e a CPI e do Crime Organizado Em frentes diferentes de atuação, comissões chegam aos mesmos atores e empresas ligados ao banco de Daniel Vorcaro

Caso Master: como investigações conectam a CPMI do INSS e a CPI e do Crime Organizado .
- bsapub
apublica.org/2026/03/master-como-cpmi...
#Portugus #BancoMaster #INSS #PCC #PolciaFederal #STF

0 1 0 0
Preview
A **Agência Pública** veiculou no último dia 23 de março uma reportagem a respeito de um prejuízo de R$ 33 milhões sofrido pela Loterj. O texto atribuía equivocadamente o prejuízo à RioPag S/A, empresa que gerencia seu meio oficial de pagamento de prêmios desde 2023. Esse erro decorre da interpretação do parágrafo de um documento público, um ofício enviado em 07 de fevereiro de 2025 pela Loterj à RioPag S/A, que cita o contrato nº003/2023 (firmado entre RioPag S/A e Loterj); uma “inadimplência do operador contratado” — que, em fevereiro de 2025, era a RioPag; e afirma que “esse prejuízo” justificaria o “aprimoramento da gestão e segurança dos recursos financeiros”: Depois da publicação da reportagem, foi veiculada versão da Loterj onde consta que o referido prejuízo decorreu de um outro contrato, envolvendo outra empresa, a MCE Intermediações e Negócios Ltda. Diz um trecho: “o caso é anterior ao contrato da empresa de meio de pagamento e refere-se ao abandono do contrato de operação da loteria de Múltiplas Chances (Rio de Prêmios) pela MCE Intermediações e Negócios Ltda/Santa Casa Global Brasil Participações Ltda. A Loterj tomou todas as providências administrativas e judiciais para ser ressarcida do prejuízo.” Leia aqui. A informação da Loterj veiculada após a publicação da reportagem foi reproduzida assim que tomamos ciência da sua publicação. Entretanto, à luz das novas informações divulgadas pela Loterj sobre os contratos, diante do compromisso que temos em levar informações de qualidade ao nosso público, decidimos retirar a reportagem do ar em sua totalidade assim como de nossas redes sociais. Como em todas as nossas reportagens, seguimos os critérios e procedimentos jornalísticos para a checagem da informação antes da publicação, isso inclui os pedidos de outro lado enviados por e-mail a todos os personagens retratados na apuração, entre elas a RioPag e a Loterj. Contudo, não recebemos retorno. A **Agência Pública** reafirma seu compromisso público com a qualidade da informação e com a ética jornalística, como pilares inegociáveis do nosso jornalismo investigativo.

ERRATA.
- bsapub
https://apublica.org/2026/03/errata-loterj/
#Portugus

0 1 0 0
Preview
> _Quer receber os textos desta coluna em primeira mão no seu e-mail? Assine a newsletter Antes que seja tarde, enviada às quintas-feiras, 12h. Para receber as próximas edições,__inscreva-se aqui._ Nos últimos cinco anos, uma das discussões que mais tem me interessado na lida do jornalismo climático é sobre quem ganha em deixar o circo pegar fogo. Sobre os interesses de quem confia que vai se dar bem quando todo mundo vai, na verdade, se dar mal. Muito mal. Foram esses questionamentos que me levaram a lançar, em 2022, com a Rádio Novelo, o podcast Tempo Quente, que investigava as forças econômicas e políticas que atuavam, e atuam, de modo pesado para impedir o avanço de políticas ambientais e climáticas. O lado mais óbvio dessa história, claro, é o puramente econômico – das empresas que não querem ter de mudar seus negócios que por mais de século foram extremamente lucrativos, como as grandes petroleiras. **Capitalismo nu e cru, alimentado por um pensamento curto-prazista, de fazer dinheiro enquanto ainda dá.** Mas há uma lógica mais complexa por trás disso. Porque, como cientistas estão exaustos já de falar, **as mudanças climáticas são democráticas, vão vir para todos**. Claro que os mais pobres, os mais vulnerabilizados, vão ser mais afetados, vão perder mais, vão morrer mais. É o que já está acontecendo e vai piorar. Mas o futuro que a gente está contratando não vai ser gostoso para ninguém. Então é difícil entender – doloroso mesmo, eu diria – como essa mentalidade ainda prevalece. Mas queria compartilhar com o caro leitor, a cara leitora um comentário que ouvi nesta semana que trouxe algumas camadas extras de complexidade. Em um debate que abordava como estão as iniciativas para bolar estratégias para reduzirmos a dependência global dos combustíveis fósseis, os tais “mapas do caminho”, o embaixador brasileiro André Corrêa do Lago, que presidiu a 30ª Conferência do Clima da ONU, a COP30, fez um desabafo sincero dos desafios que elas vêm enfrentando. Ele, que disse sempre ter se considerado um “eterno otimista”, afirmou que andava um “pouquinho menos”. E explicou: “Uma das coisas que me entristece muito é que eu vejo que alguns setores estão apostando, no fundo, num cenário de mudança do clima grave”. Corrêa do Lago continuou: “Os impactos da mudança do clima vão ser tão devastadores que eles podem, inclusive, provocar uma acentuação das diferenças sociais, das injustiças sociais no mundo. Dentro dos países e entre países. E eu acho que, infelizmente… **Eu sinto que existem setores que estão apostando nessa diferenciação, nesse agravamento da mudança do clima como algo que pode favorecê-los – o que é de um grau de imoralidade e amoralidade de difícil mensuração** ”. Mas, tentando manter algum grau de otimismo, ele defendeu que é justamente em oposição a essa visão que é tão necessário mostrar que um outro mundo é possível. “A gente tem muito o que fazer esse ano para chamar a atenção [sobre o fato de] que essa opção de criar algo que alguém me comentou como sendo uma **nova Idade Média – ou seja, em que você vai ter os ricos encastelados e protegidos da mudança do clima e o resto da humanidade sem ter como se defender da mudança do clima** … Essa perspectiva de um mundo que é, eu acho, próximo de um pesadelo, infelizmente está na cabeça de vários setores. Então, eu acho que nós temos que mostrar para o mundo que a alternativa é viável e que a alternativa é incontornável. E que **nós temos que trabalhar todos juntos e não deixar que aqueles que estão apostando numa desgraça geral dividam aqueles que estão procurando soluções** ”, afirmou. Achei tão forte essa imagem da Idade Média, dos ricos encastelados se julgando protegidos. Isso obviamente vai acontecer. Já está acontecendo, na verdade, e não apenas com os excepcionalmente abastados. Quanto já não faz toda diferença do mundo estar protegido, em dias de ondas de calor, em escritórios ou casas bem aclimatados com ar condicionado torando em vez de camelando na rua sob o sol forte? **Mas é ilusão e arrogância achar que a riqueza vai garantir proteção**. Quando ouvi o embaixador falando, pensei imediatamente nas mansões de estrelas de Hollywood engolidas pelos incêndios florestais na Califórnia entre o fim de 2024 e o começo do ano passado. Um recorte da fala dele postado nas redes sociais do ClimaInfo e do Observatório do Clima, que organizaram o debate, rendeu um comentário ainda mais espirituoso: “Não conhecem a história. Os senhores medievais não conseguiram se proteger da peste bubônica em seus castelos. Não conseguirão se proteger das mudanças climáticas também”, escreveu o professor Kaiser Dias Schwarcz. Como bom diplomata, Corrêa do Lago não quis dizer quem são os “setores” que ele mencionou. Disse apenas que “existem certos movimentos políticos, certos setores econômicos que não acreditam nessa visão mais progressista de que o grande objetivo é diminuir a pobreza no mundo e criar oportunidades para todas as pessoas no mundo”. Para ele, há uma “desistência de um modelo que seja mais justo, progressista”. Não é muito difícil de imaginar de quem ele está falando. Agora, qual é a saída? No debate do qual participou Lago, estavam presentes também a ministra do Meio Ambiente da Colômbia, Irene Vélez Torres, o climatologista brasileiro Carlos Nobre e o economista André Andrade, do Ministério do Meio Ambiente. O objetivo era falar sobre três iniciativas em curso que tentam elaborar roteiros para longe dos combustíveis fósseis: uma nacional brasileira, a cargo do governo federal, e duas internacionais, na esteira da COP30. A conferência realizada em Belém não conseguiu incluir, entre suas decisões, algum tipo de compromisso para que os países elaborem seus mapas do caminho como forma de cumprir o objetivo maior do Acordo de Paris, que é de conter o aquecimento global em 1,5 °C. Então surgiram essas duas propostas. De um lado, a presidência da COP30, liderada pela equipe de Corrêa do Lago, está fazendo um estudo, que corre paralelo ao processo formal das Nações Unidas, para servir de insumo às negociações climáticas. Do outro lado, a Colômbia, juntamente com a Holanda, vão organizar no fim de abril, na cidade caribenha de Santa Marta, a Primeira Conferência Internacional sobre a Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis. Lá estarão reunidos países, setores econômicos e sociedade civil que acreditam que é possível fazer essa transição. “Estamos construindo uma coalizão dos dispostos — um espaço onde países podem avançar juntos, mesmo sem consenso, para moldar caminhos concretos para longe dos combustíveis fósseis. Santa Marta trata de transformar a vontade política em direção real para a transição”, afirmou Irene Vélez. Os dois esforços visam colocar todas as cartas na mesa, inclusive as dificuldades que existem, nas várias esferas – econômica, social, energética, e também de justiça, como a manutenção de empregos –, a fim de propor caminhos para sairmos do buraco em que estamos nos metendo. A visão deles é uma só: **é preciso estimular a solução**. Ou a imoralidade vai vencer.

Quem aposta no fim do mundo?.
- bsapub
apublica.org/2026/03/quem-aposta-no-f...
#Portugus #Desigualdadesocial #Energia #Justia #Meioambiente #MudanasClimticas #Petrleo #Poltica

0 0 0 0
Preview
O Projeto de Lei 896/2023 — conhecido popularmente como PL antimisoginia, da senadora Ana Paula Lobato (PSB-MA), **foi aprovado nesta terça-feira (24) no plenário do Senado por 67 votos a favor.** Não houve nenhum voto contrário ou abstenções por parte dos parlamentares presentes. Agora, o texto segue para apreciação da Câmara dos Deputados. O texto criminaliza a misoginia (ódio ou aversão a mulheres) e o insere entre os crimes contidos na Lei do Racismo. O texto avançou na casa legislativa principalmente pela repercussão de casos recentes de violência contra mulheres. No ano passado, 1.568 ocorrências de feminicídios foram registradas no Brasil – um crime de gênero cometido, em praticamente 80% dos casos, por companheiros ou ex-parceiros das vítimas, segundo o relatório Retratos do Feminicídio no Brasil, recém-publicado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Houve, no entanto, uma mobilização e resistência ao projeto por parte de parlamentares bolsonaristas, que apresentaram recursos para adiar a votação do projeto. Nas redes e em apps de mensagens, publicações que se opõem ao PL apresentam dois eixos argumentativos principais. O primeiro sustenta que a aprovação da lei levaria à censura nas redes sociais. O segundo afirma que o texto imporia agendas ideológicas contrárias a valores tradicionais. Post no X rebate projeto de lei sobre misoginia Usuários também estão compartilhando trechos de outros projetos de leis ainda em discussão, como o PL 6194/2025, da deputada Ana Pimentel (PT-MG), para atacar o tema e o PL 896/2023 — criando, assim, uma confusão entre as propostas. O texto protocolado pela parlamentar petista cria normas de prevenção, proteção, responsabilização civil e educação digital para enfrentar a misoginia em aplicativos e redes sociais no Brasil. Além disso, abrange todas as pessoas que se identificam com o gênero feminino, incluindo mulheres trans, travestis e pessoas não binárias. O projeto aguarda ainda designação de relator na Comissão de Educação da Câmara. Mensagens no Instagram questionando a definição de ‘mulheres’ Autoras de outros projetos sobre o mesmo tema têm, inclusive, sido alvo de ataques nas redes. A deputada federal Carol Dartora (PT-PR), por exemplo, recebeu uma ameaça de morte por e-mail devido a propostas legislativas apresentadas pela parlamentar no combate à misoginia digital. Ela é autora do PL 1144/2026, cujo objetivo é alterar o Código Penal brasileiro para prever aumento de pena quando a associação criminosa “tiver por finalidade a produção, financiamento, organização ou difusão de conteúdos misóginos que incitem ou promovam violência contra mulheres, inclusive em redes sociais”. “Recebi um e-mail com ameaças de morte, ameaças de estupro, ataques racistas e uma sequência de violências que revelam o nível de barbárie que mulheres na política têm enfrentado no Brasil. Isso não é opinião, não é ‘ódio da internet’, não é divergência política. Isso é crime. Quem ameaça matar é criminoso. Quem ameaça estuprar é criminoso. Quem pratica racismo é criminoso”, afirmou a deputada, em um post no Instagram. **A Lupa explica as principais dúvidas sobre o projeto 896/2023, principal texto em discussão no Senado. Veja a seguir:** ## **O que diz o PL 896/2023?** O que o texto do PL 896/2023, faz, em termos jurídicos, é tipificar a misoginia como crime, inserindo-a no escopo da legislação já existente sobre discriminação.Ele afirma que a conduta “é o sentimento de ódio, repulsa ou aversão às mulheres”. “É uma forma extrema e repugnante de machismo, que deprecia as mulheres e tudo que é considerado feminino, podendo manifestar-se de diversos modos”. O PL altera a lei nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989 para incluir a misoginia entre os crimes resultantes de discriminação ou preconceito. Com isso, as penas previstas no artigo 20 — reclusão de até cinco anos e multa para quem “induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional — também passam a ser aplicadas à misoginia. Ao justificar a tramitação, a senadora Ana Paula Lobato (PSB-MA) afirma que a atual legislação “não pune a disseminação de discursos misóginos” > **É importante mencionar:** o PL 896/2023 já havia sido aprovado nas Comissões de Direitos Humanos (CDH) e de Constituição e Justiça (CCJ), sob relatoria da senadora Soraya Thronicke (Podemos-MS). O texto do Senado não faz qualquer distinção entre mulheres cis ou trans. Senadora Ana Paula Lobato, autora do PL 896/2023 Na leitura de seu relatório no Plenário do Senado, nesta terça-feira (24), a senadora Soraya Thronicke (Podemos-MS) afirmou que existe um “limbo jurídico” na definição de misoginia e que isso daria “margem a qualquer espécie de interpretação”, disse. Para enfrentar essa lacuna, o parecer incorporou ao projeto da senadora Ana Paula Lobato uma delimitação mais precisa de como o crime se configura. __ O que vem a ser a misoginia? A misoginia se traduz no ódio, na aversão, no desprezo extremo às mulheres, muitas vezes manifestado por meio de violência física e psicológica, difamação e injúria. É uma forma mais extrema de sexismo”. Soraya Thronicke Senadora (Podemos-MS) O relatório também registra: “A única concessão que se pode fazer, com relação às críticas que ouvimos sobre o projeto, situa-se no conceito de misoginia. Concordamos que deva ficar mais claro que, para existir misoginia, deve existir uma ‘exteriorização’ da conduta típica, seja por ação ou omissão, termo que se apresenta mais claro do que aquele que se usou no projeto (‘manifestação’ da conduta)”. Senadora Soraya Thronicke (Podemos-MS) Na prática, isso significa que a lei não pune pensamentos ou crenças misóginas em si, mas sim sua exteriorização em condutas concretas, como ofensas, discriminação ou incitação, previstas na legislação. Sobre as críticas de parlamentares sobre o projeto configurar em “censura”, a senadora Soraya Thronicke afirmou que a liberdade de expressão é um direito constitucional que possui supremacia sobre a legislação infraconstitucional. E que, portanto, esse não é o objetivo do projeto. “[Liberdade de consciência e de crença] são cláusulas pétreas que não podem ser mudadas”. ## **Qual a crítica ao texto?** O questionamento de parlamentares é de que o conceito de misoginia no texto pode ser considerado vago ou suscetível a diferentes interpretações, potencialmente gerando insegurança jurídica. Durante debate na CCJ, o senador Jorge Seif (PL-SC) questionou quem definiria o que é misoginia. “Um juiz, um militante, um partido? Será que um comentário crítico, uma discordância e um debate público ou até uma fala mal interpretada poderão se tornar crime a partir da aprovação dessa lei?”, afirmou. O senador Eduardo Girão (Novo-CE), por sua vez, apresentou emendas ao texto, para que “não alcance a crítica legítima, a divergência de opinião ou a manifestação de convicção moral ou religiosa”. A senadora Soraya Thronicke (Podemos-MS), relatora do projeto, rejeitou as emendas. Senador Eduardo Girão apresentou emendas para restringir conceito de misoginia O relatório da Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa do Senado rejeitou emenda que buscava restringir o conceito de misoginia e excluir do alcance penal manifestações de natureza artística, científica, jornalística, acadêmica ou religiosa. Segundo o texto, a Constituição já assegura a liberdade de expressão nesses campos, e uma norma penal não tem competência para suprimir ou limitar essas garantias. “As proteções constitucionais às liberdades de expressão artística, científica, jornalística, acadêmica ou religiosa não são nem aptas a serem revogadas pela norma penal, de modo que a emenda se torna absolutamente desnecessária”, diz trecho do relatório apresentado. A reportagem tentou contato por e-mail com o gabinete da senadora Ana Paula Lobato para que a senadora pudesse comentar sobre as críticas ao PL, **mas não houve retorno.** Em concordância com a fala da senadora Soraya Thronicke em plenário, o professor Leandro Reinaldo da Cunha, da Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia (UFBA), diz que o texto do PL 896/2023, de forma geral, apenas insere a expressão misoginia no que já existe na lei atualmente vigente. “Considerando que a concepção técnica de misoginia é conhecida e consolidada, não há a necessidade de que a lei venha a defini-lo, não havendo, assim, que se falar em insegurança jurídica”, destaca. Essa leitura se conecta com a Lei nº 13.642/2018, conhecida como Lei Lola Aronovich, que já opera com a noção estabelecida de misoginia (“ódio ou aversão às mulheres”). O texto atribui à Polícia Federal a competência para investigar crimes virtuais que disseminem ódio ou violência contra mulheres. Segundo a lei, “quaisquer crimes praticados por meio da rede mundial de computadores que difundam conteúdo misógino, definidos como aqueles que propagam o ódio ou a aversão às mulheres”. ## **O que dizem as redes sobre o PL?** Em grupos de apps de mensagerias monitorados pela **Lupa** , o combate à misoginia é descrito como um “pretexto” para restringir manifestações nas redes, acompanhado de chamadas diretas à ação, como pressão sobre parlamentares e pedidos para barrar a votação. De acordo com as mensagens, se aprovado, o PL vai instituir “censura a pretexto de combater a ‘misoginia!’”. Contudo, as publicações não trazem qualquer explicação sobre em que contexto o projeto irá “censurar” as redes. “Na prática, pode ser usado de forma genérica e subjetiva para falsas acusações, apenas para satisfazer a sanha ideológica ativista jurídica que assola o Brasil, tornando-se arma de controle de discurso, censura, e destruição de valores morais já consolidados na sociedade”, diz trecho de mensagem que circula em grupo do Telegram com mais de 3,1 mil perfis distintos. Mensagem disseminada em grupo do Telegram com potencial alcance de 33,4 mil perfis distintos Os conteúdos sugerem que a proposta abriria ainda espaço para a adoção de critérios de autoidentificação de gênero na “definição legal de mulher”. Publicações no X (antigo Twitter) e no Reddit sugerem que a proposta não se limita ao enfrentamento da misoginia, mas representaria uma tentativa de impor valores contrários a concepções consideradas tradicionais, especialmente ligadas à família e à moralidade. As mensagens afirmam, sem contexto, que “qualquer um pode se declarar mulher e usar isso contra terceiros” e que o projeto “vai virar instrumento para acusações arbitrárias”. Mensagem disseminada no fórum Reddit Para o professor Leandro Cunha, toda refração a um projeto que tem por objetivo proteger a mulher e o feminino se sustenta em uma “sociedade estruturalmente machista”. Para ele, a tentativa de “manter as coisas como estão” é um mecanismo recorrente de quem se entende numa condição de poder sobre o outro. É o caso, por exemplo, das discussões relacionadas à sexualidade e gênero. __ Interpretações distorcidas sempre estão à disposição de quem tem o interesse de manipular a discussão. O que precisa ficar claro é que mulheres trans são mulheres, de sorte que não haveria a necessidade de inclui-las expressamente no texto. Evidente que a presença do termo trans tornaria mais claro que a distinção entre cis e trans não se sustenta, mas, ao mesmo tempo, acabaria gerando esse embate”. Leandro Reinaldo da Cunha Professor de Direito Civil da UFBA ## **Quais são as leis já existentes?** A legislação brasileira de proteção às mulheres na política e em ambientes online avançou significativamente nos últimos anos. Em 2025, a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados aprovou uma emenda à Lei Maria da Penha expandindo sua cobertura para incluir casos de violência eletrônica. Não há uma lei específica que tipifique o crime de misoginia. Por outro lado, existem leis que visam prevenir e coibir a violência contra as mulheres. Dentre elas: * **Lei Maria da Penha (****Lei nº 11.340/2006****)** : o texto cria mecanismos para coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher; tipifica cinco tipos de violência: física, psicológica, sexual, patrimonial e moral. * **Lei Carolina Dieckmann (****Lei nº 12.737/2012****)** : define o que são crimes cibernéticos. Ela recebeu este nome pois, na época que o projeto tramitava, a atriz teve o computador invadido e fotos pessoais divulgadas por hackers. * **Lei do Feminicídio (****Lei nº 13.****1****04/2015****)** : altera o Código Penal e estabelece o feminicídio como circunstância que qualifica o crime de homicídio, quando uma mulher é morta em decorrência de violência doméstica e familiar. * **Lei Lola Aronovich (****Lei nº 13.642/2018****)** : atribui à Polícia Federal o poder de investigar crimes de misoginia na internet. * **Lei do Stalking (****Lei nº 14.132/2021****)** : torna crime o ato de “perseguir alguém, reiteradamente e por qualquer meio, ameaçando-lhe a integridade física ou psicológica, restringindo-lhe a capacidade de locomoção ou, de qualquer forma, invadindo ou perturbando sua esfera de liberdade ou privacidade”. ## **Que outros projetos estão em tramitação?** Os projetos de lei que visam criminalizar a misoginia ou endurecer as punições contra essa prática dividem-se principalmente em propostas de alteração na Lei de Crimes de Preconceito (Lei nº 7.716/1989) e no Código Penal. Abaixo, seguem alguns exemplos de projetos: ### Inclusão na Lei de Crimes de Preconceito (Lei nº 7.716/1989)+ Estes projetos buscam equiparar a misoginia aos crimes de racismo e outras formas de discriminação já tipificadas: * PL 6149/2025: Inclui a misoginia como motivo de discriminação na lei. (Professora Luciene Cavalcante – PSOL/SP). * PL 8992/2017: Inclui a misoginia no rol de crimes de ódio desta lei. (Ana Perugini – PT/SP). * PL 1225/2021: Moderniza a disciplina sobre discriminação para incluir a questão de gênero, focando na misoginia. (Denis Bezerra – PSB/CE). ### Criação de Novos Tipos Penais e Agravantes (Código Penal)+ Propostas que criam artigos específicos ou aumentam penas para condutas misóginas: * PL 6075/2025 e PL 6733/2025: Criam o artigo 287-A para tipificar a promoção, incitação e divulgação de conteúdo misógino que estimule hostilidade ou violência. (Sâmia Bomfim – PSOL/SP e Amom Mandel – Cidadania/AM). * PL 988/2026: Tipifica a promoção organizada de conteúdos que incitem violência, discriminação ou desumanização de mulheres. (Duda Salabert – PDT/MG). * PL 1118/2026: Tipifica a promoção e difusão organizada de práticas que enaltecem a violência contra a mulher. (Socorro Neri – PP/AC). * PL 1144/2026: Prevê aumento de pena para associação criminosa voltada à difusão de conteúdos misóginos. (Carol Dartora – PT/PR). * PL 1085/2026: Tipifica a incitação à violência contra a mulher por discriminação de gênero. (Rosangela Moro – União Brasil/SP). * PL 914/2023: Estabelece a misoginia como uma qualificadora do crime de injúria (Art. 140). (Rubens Pereira Júnior – PT/MA)

Lei que criminaliza misoginia é aprovada no Senado sob ataques nas redes.
- bsapub
apublica.org/2026/03/lei-que-criminal...
#Portugus #Direitoshumanos #Justia #Machismo #Poltica #Senado #Violncia

0 0 0 0
## EP 53 EUA x Irã: as vítimas esquecidas da guerra 26 de março de 2026 · Podcast traz atualizações sobre pautas essenciais que a guerra relegou ao esquecimento __ __ 0:00 -:-- __15 __15 ______ ____ Veja mais episódios desta série No episódio desta semana, o **Bom dia, fim do mundo** volta a falar da guerra dos EUA x Irã. Com quase um mês de conflito, que impacta todo o planeta, outras pautas antes estampadas em todos os jornais parecem ter sido relegadas ao esquecimento. Do tal plano de reconstrução de Gaza, tão alardeado por Donald Trump, ninguém mais ouviu falar – e os sobreviventes do genocídio seguem em um território em escombros e sem acesso a itens básicos de subsistência. Em outro campo, a pauta climática e as negociações para a tão sonhada transição energética parecem ter arrefecido, após terem sido alvo do olhar do mundo todo na esteira da COP de Belém. Giovana Girardi, Marina Amaral e Ricardo Terto trazem atualizações sobre esses assuntos e também analisam os efeitos devastadores das guerras para o meio ambiente, mais uma vítima dos conflitos armados. Confira. **E MAIS:** Na Trombeta da semana, histórias tecnológicas mais constrangedoras do que ter o wi-fi do celular conectando automaticamente no cassino do Resort Tayayá. ## **Assista agora** :

EUA x Irã: as vítimas esquecidas da guerra.
- bsapub
apublica.org/podcast/2026/03/bom-dia-...
#Portugus #EstadosUnidos #Guerra #Meioambiente #Poltica

1 1 0 0
Preview
Duas correntes de pescoço que pertenciam ao pianista brasileiro Francisco Tenório Cerqueira Júnior, sequestrado e assassinado aos 35 anos em Buenos Aires, no dia 18 de março de 1976, num crime atribuído ao terrorismo de Estado da ditadura argentina, foram entregues nesta quarta-feira, 25 de março, a filhos e netos do músico, no Rio de Janeiro, por autoridades brasileiras e do país vizinho como forma de homenagem. Tenório foi um dos maiores pianistas brasileiros, formado nas casas noturnas do Beco das Garrafas. Em 1964, ele registrou seu único disco solo, “Embalo”, e, ao longo da carreira, gravou e se apresentou com Milton Nascimento, Lô Borges, Gal Costa, Beto Guedes, Edu Lobo, entre outros. “Há exatos 50 anos nosso avô saiu do Brasil e hoje esses dois colares que estavam com ele retornam para nossa família”, disse Sofia Cerqueira Borges, 25, neta do músico, em discurso emocionado durante a cerimônia, realizada pela Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP), na sede da Procuradoria Regional da República da 2ª Região (RJ). Em setembro de 2025, a Equipe Argentina de Antropologia Forense (EAAF) anunciou que as impressões digitais recolhidas de um cadáver encontrado em um terreno baldio na cidade de Tigre, ao norte de Buenos Aires, com cinco perfurações de bala, em 20 de março de 1976, eram equivalentes às dos documentos brasileiros de Tenório Jr. Segundo Sofia, a vida da família mudou ao descobrir o que realmente aconteceu com o pianista. A certidão de óbito retificada de Tenório Jr. foi entregue em dezembro e, hoje, a família recuperou seus pertences. * Netos e filhos do pianista Tenório Jr. receberam hoje no Rio de Janeiro pertences encontrados junto com o corpo de Tenório * Netos e filhos do pianista Tenório Jr. receberam hoje no Rio de Janeiro pertences encontrados junto com o corpo de Tenório * Netos e filhos do pianista Tenório Jr. receberam hoje no Rio de Janeiro pertences encontrados junto com o corpo de Tenório ## **Identificação e restos mortais: “O corpo mesmo dificilmente será encontrado”** A identificação de Tenório Jr. foi possível, pois, em 1976, a polícia argentina abriu um inquérito de encontro de cadáver, como de praxe. Foram feitas fotos do corpo, foram tiradas impressões digitais e foram guardados os objetos de valor, no caso, as correntes que o músico usava. Na ocasião, ninguém reclamou o corpo e o pianista foi enterrado no cemitério de Benavidez como desconhecido. Com o fim da ditadura argentina, todos os documentos policiais de casos de desaparecimento foram entregues à Conadep (Comissão Nacional sobre o Desaparecimento de Pessoas) em 1984, mas os familiares de desaparecidos argentinos não sabiam de quem seria aquele corpo, e o inquérito e os objetos foram arquivados. A investigação só foi possível agora, pois o EAAF, desde 2013, trabalha com um software que cruza impressões digitais de casos como o de Tenório com os documentos de desaparecidos argentinos, mas a busca não resultou em nada, pois os documentos de Tenório eram brasileiros. No ano passado, o EAAF requereu, por meio de cooperação policial, os documentos de Tenório Jr. para cruzá-los com as impressões digitais do corpo encontrado em Tigre, e deu certo. A descoberta, contudo, apenas esclareceu parte das dúvidas da família do pianista, que havia ido para a Argentina naquele mês de março para uma temporada de shows com Vinícius de Moraes e Toquinho, e saiu do hotel em que estava hospedado na madrugada de 18 de março para comprar um sanduíche ou remédios para dor de cabeça (a historiografia registra diferentes versões). Faltam ainda os restos mortais. Conforme anunciou o EAAF, na quadra do cemitério onde havia sido enterrado o pianista, hoje há o corpo de outra pessoa. A hipótese mais provável é que os restos mortais de Tenório Jr foram exumados e levados a um ossuário, não descoberto até o momento. “O corpo mesmo dificilmente será encontrado. Ainda assim, para a família, é um momento muito importante”, afirmou à Agência Pública a presidente da CEMDP, a procuradora regional da República Eugênia Augusta Gonzaga. “A parte mais bela desse trabalho é ver uma família ter uma certeza que lhe foi negada por muito tempo”, afirmou o antropólogo forense Carlos Semigliana, da equipe do EAAF. Músico foi assassinado em Buenos Aires, há 50 anos, em março de 1976. ## **Quem matou Tenório Jr.?** Sobre a autoria do crime, circularam, ao longo dos anos, diversas versões. A principal, publicada por uma revista brasileira nos anos 80, era a contada pelo ex-militar argentino Claudio Vallejos, que afirmou que militares do serviço secreto da Marinha argentina sequestraram Tenório Jr. e o levaram até a Escola de Mecânica da Armada (ESMA), onde ele teria sido torturado por militares brasileiros e argentinos. Na ocasião, foi publicado, inclusive, um fac-símile de uma suposta nota que teria sido enviada por autoridades argentinas ao Brasil, dando conta do assassinato de Tenório. Segundo reportagem do jornal Página 12, acredita-se hoje em dia que esse documento possa ser falso, uma vez que o militar que o assina nunca foi lotado nas unidades envolvidas na morte de Tenório, conforme relato de Vallejos. O ex-militar, morto recentemente, foi preso várias vezes no Brasil, duas delas por estelionato. Além disso, era uma fonte pouco confiável, pois cobrava por entrevistas e para conversar com familiares de desaparecidos argentinos nos anos 1980 e 1990. O que é quase certo é que, com a identificação de que o corpo encontrado em Tigre e sepultado em Benavidez é o de Tenório Jr., uma investigação deverá ser aberta pelo juiz Sebastián Casanello, responsável pelos casos ligados à Operação Condor, consórcio entre as ditaduras sul-americanas e o serviço secreto norte-americano para a eliminação de opositores aos regimes e a troca permanente de informações. O corpo de Tenório não foi autopsiado na ocasião do encontro do cadáver. O médico legista atestou que o procedimento não seria necessário, uma vez que seria óbvio que ele morrera por causa dos tiros. Apesar de o crime ter ocorrido 6 dias antes do golpe militar de 24 de março de 1976, não se pode descartar a participação e o envolvimento de militares no sequestro, na morte e no desaparecimento do pianista, pois as forças armadas argentinas já realizavam diversas operações de “antiterrorismo” antes mesmo do golpe e mantinham locais para torturar e eliminar “inimigos do Estado”.

Ditadura Argentina: pertences de Tenório Jr. são devolvidos à família 50 anos após crime.
- bsapub
apublica.org/2026/03/caso-tenorio-jr-...
#Portugus #Argentina #Direitoshumanos #Ditaduramilitar #Justia #Poltica

0 0 0 0