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Há quarenta anos, o último domingo de março deixou de ser apenas um dia no calendário para José. Transformou-se em um rito, uma peregrinação solitária que ele cumpria com devoção até o antigo DOI-CODI, um porão da tortura no Brasil ditatorial. Quando os velhos amigos daquela época sombria, companheiros das prisões no Congresso da UNE em Ibiúna, perguntavam o motivo de tal penitência, a resposta vinha serena: “Não é por mim, é por Maria”. O tempo, que costuma apagar tantas coisas, trouxe companhia a José. Desde 2019, as ruas de São Paulo passaram a abrigar a Caminhada do Silêncio. Velhos camaradas da geração de 1968 juntaram-se a jovens militantes em uma marcha sem palavras de ordem, sem cânticos inflamados. Apenas passos mudos, lutando pela memória, pela verdade e pela justiça, lembrando as vítimas de um Estado que se voltou contra os seus. A caminhada percorre o que chamam de “circuito militar”. Parte daquele conjunto de edifícios onde funcionou a maior máquina de dor da ditadura brasileira. A multidão silenciosa avança, passa pela praça que homenageia os pracinhas da Segunda Guerra, desce a Abílio Soares e cruza o Círculo Militar e o Comando Militar do Sudeste. Chega, por fim, à Assembleia Legislativa, onde discursos no passado selaram destinos trágicos, como o do jornalista Vladimir Herzog. Mas a história de José e Maria tem suas próprias cicatrizes, desenhadas muito antes dessas caminhadas. Em 1976, José, formado em desenho industrial e trabalhando como projetista, foi traído. Um falso colega, um agente infiltrado que se dizia chamar Carlos, mas que a história revelaria ser Adolfo, escutou os planos de greve e os entregou. A noite de março estava quente quando José chegou em casa e encontrou o terror sentado em sua sala. Maria estava algemada, o rosto já marcado pela violência. Os invasores, vestidos com roupas comuns para não despertar suspeitas na vizinhança, jogaram os dois em uma Kombi. No DOI-CODI, a separação. Maria, alheia à militância do marido, sofreu o indizível. José, preso ao pau-de-arara, recebia choques enquanto seu corpo suportava o peso do mundo. Ele não entregava ninguém. A resistência de José enfureceu os torturadores, que trouxeram Maria. Diante das ameaças e do abuso sofrido pela mulher que amava, José cedeu. Assinou uma confissão forjada e entregou alguns nomes para “os filhos da puta” (era assim que eles os chamavam). Maria foi solta no dia seguinte. Ele, dias depois, voltou para casa em 31 de março. Uma data que o país lembrava por um motivo, mas que para ele ganhou o peso do fim. A vida de José desmanchou-se aos poucos. Maria nunca mais foi a mesma. O trauma lhe roubou a fome, a paz e o amor. Em 15 de janeiro de 1985, enquanto o Brasil assistia à eleição indireta de Tancredo Neves e o Barão Vermelho cantava que o dia nasceria feliz, o coração de Maria parou. Foi a partir de 1986 que José começou a se reerguer, cultivando o hábito de voltar àquele portão de ferro. Ele, um homem sem religião, não rezava. Apenas ficava ali, murmurando a canção de Roberto Carlos que Maria tanto amava: “Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos”. Uma música que, como ele descobriria mais tarde, também falava de exílio e de saudade. E assim, em um dia bonito de outono em São Paulo, fotografei José de costas no instante exato de sua comunhão silenciosa. De cabelos brancos e escassos, vestindo uma camisa social azul de mangas curtas, suas mãos calejadas agarram com firmeza as grades cinzentas e espessas do portão do antigo porão ditatorial. Ele olha para dentro, para o pátio vazio e para os prédios de janelas basculantes que guardam tantos ecos. Atrás das grades, o passado; Vlado e tantos outros, do lado de cá, um homem que não esquece. O silêncio coletivo da caminhada encontra o silêncio particular de José. Sem palavras de ordem, apenas pessoas caminhando democraticamente. Um país, e um homem, sempre em busca de sentido. *** _Os nomes e os eventos narrados na crônica são todos ficcionais, porém baseados em centenas de depoimentos de vítimas da repressão ouvidos pelo autor ao longo de seu trabalho como repórter e coordenador de comunicação da Comissão Nacional da Verdade (CNV). A foto de “José” foi tirada no dia 29 de março de 2026, na sexta edição da Caminhada do Silêncio, em São Paulo, aos 62 anos do golpe militar de 1964._

O silêncio de março.
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#Portugus #Direitoshumanos #Ditaduramilitar #Militares #Poltica

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Moraes marca interrogatório de “Bananinha” sobre sua traição ao Brasil.
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Governo federal anuncia R$ 2,6 bilhões para ampliar VLT e metrô de Salvador.
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Cine Ninja Indica: 13 obras sobre a ditadura militar para não esquecer a nossa história Golpe militar completou 62 anos na última terça-feira (31)

Cine Ninja Indica: 13 obras sobre a ditadura militar para não esquecer a nossa história.
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## EP 210 O que é sionismo cristão? 3 de abril de 2026 · Teólogo e ativista de direitos humanos, Ronilso Pacheco fala sobre sionismo cristão e sua influência na política mundial __ __ 0:00 -:-- __15 __15 ______ ____ Veja mais episódios desta série O termo sionismo cristão ganhou visibilidade em meio aos atuais conflitos no Oriente Médio, mas está longe de ser uma ideia recente. Em linhas gerais, pode ser definido como um conjunto de crenças e práticas que articulam apoio religioso, simbólico e político ao Estado de Israel, e que apoiar Israel é, para parte dos cristãos, uma forma de cumprir o plano de Deus. Para entender como esse movimento pode influenciar os rumos da política nacional e internacional, Andrea Dip entrevista o teólogo e ativista de direitos humanos Ronilso Pacheco. Ele mostra que o sionismo cristão se estrutura a partir da fusão entre um cristianismo conservador e uma defesa quase incondicional de Israel, que mistura elementos religiosos, culturais e políticos. Afinal, o que está em jogo quando fé, política e disputas territoriais se misturam dessa forma?

O que é sionismo cristão?.
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Lula rebate EUA e diz que “ninguém vai nos fazer mudar o Pix”.
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La Generalitat es compromet a impulsar un pla de transformació del Besòs fins al 2037 La Generalitat de Catalunya s'ha compromès a impulsar un pla de transformació del Besòs amb l'horitzó el 2037. Així, dona resposta a les reivindicacions veïnals.

La Generalitat es compromet a impulsar un pla de transformació del Besòs fins al 2037
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## EP 54 Um mundo sem petróleo: dá pra ser agora ou na volta a gente compra? 2 de abril de 2026 · Podcast traz atualizações sobre pautas essenciais que a guerra relegou ao esquecimento __ __ 0:00 -:-- __15 __15 ______ ____ Veja mais episódios desta série No episódio desta semana, o **_Bom dia, fim do mundo_** faz um exercício de imaginação: como seria se decidíssemos realmente abandonar os combustíveis fósseis a partir de agora? Quais medidas e investimentos seriam necessários? Giovana Girardi, Marina Amaral e Ricardo Terto debatem as possibilidades e necessidades para uma transição energética total no Brasil nos próximos quinze anos. A notícia é boa, mas demanda investimentos e mudança de rota urgentes, e não se pode deixar de levar em conta os impactos que as novas formas de produzir energia têm na vida das pessoas e na economia do país. Além disso, o programa comenta também sobre um novo vilão no consumo de energia: os datacenters, verdadeiros monstros devoradores de recursos naturais. > **E mais:** > > * Na Trombeta da semana, dois extremos da produção textual contemporânea: a avalanche de textos genéricos escritos por IA, e a já célebre redação feita por um vestibulando que ultrapassou todos os limites da grandiloquência. Ouça agora. >

Um mundo sem petróleo: dá pra ser agora ou na volta a gente compra?.
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Illa defensa els sanitaris catalans després que Trump demani investigar l'eutanàsia de la Noelia El president de la Generalitat ha fet una piulada a X en què diu que defensarà els sanitaris catalans de "qualsevol atac malintencionat".

Illa defensa els sanitaris catalans després que Trump demani investigar l’eutanàsia de la Noelia
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La Generalitat comença les obres de millora a quatre residències de gent gran de Barcelona Amb una inversió de 5 milions d'euros dels Fons Next Generation, es milloraran residències a Ciutat Vella, Sant Martí i les Corts i Sant Andreu.

La Generalitat comença les obres de millora a quatre residències de gent gran de Barcelona
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Collboni diu que l'Espanya-Egipte s'hauria d'haver parat: "És una vergonya intolerable" L'alcalde, Jaume Collboni, ha denunciat els crits racistes que es van dir en l'amistós Espanya-Egipte. "És una vergonya intolerable", ha dit.

Collboni diu que l’Espanya-Egipte s’hauria d’haver parat: “És una vergonya intolerable”
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Pacheco se filia ao PSB e esquenta disputa ao governo de Minas.
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Lindbergh e Soraia cobram que Gaspar “entregue seu material genético à PF”.
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La consellera Parlon aposta per reduir la taxa d’alcoholèmia fins al 0,0 La consellera d'Interior també és partidària de reduir el llindar de velocitat a partir del qual es considera delicte conduir.

La consellera Parlon aposta per reduir la taxa d’alcoholèmia fins al 0,0
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Desde o ano passado, a **Agência Pública** vem investigando o lobby das big techs. No Especial _A Mão Invisível das Big Techs_ , fizemos uma parceria com 17 veículos de 13 países para entender como o lobby funciona nos Congressos nacionais e nos governos. No Brasil, conseguimos mapear 1955 ações de lobby nos últimos anos. Para continuar acompanhando o lobby das big techs, desta vez em âmbito local, lançamos a 21ª edição das Microbolsas da **Pública**. Convidamos repórteres do Brasil todo a investigar a atuação de grandes empresas de tecnologia nos Estados e Municípios. Recebemos pautas de diferentes cantos do país e selecionamos três, que serão contempladas com a bolsa de R$ 8 mil e mentoria da **Agência Pública.** Conheça os repórteres selecionados: * **Luan Matheus Santana** , do Piauí, é jornalista, educomunicador popular, podcaster, realizador audiovisual e doutorando em Comunicação pelo Programa de Pós-graduação em Comunicação Social da UFC (PPGCOM-UFC). É mestre em comunicação social pelo Programa de Pós-graduação em Comunicação Social da UFPI (PPGCOM – UFPI) e Especialista em Marketing e Mídias Digitais pela Faculdade Adelmar Rosado (Pós FAR). É coordenador geral da Plataforma Ocorre Diário e tem experiência na área de Comunicação, com ênfase em comunicação digital e direitos humanos, justiça socioambiental, comunicação popular e comunitária, atuando principalmente nos seguintes temas: comunicação e direitos humanos, decolonialidade, atravessamentos ético-raciais na comunicação, dispositivos móveis, web-jornalismo e comunicação social. * **Naira Hofmeister** é uma premiada jornalista investigativa com 20 anos de experiência em reportagens sobre conflitos socioambientais no Brasil. Seu trabalho foi publicado por importantes veículos brasileiros e internacionais, incluindo The Guardian, Mongabay, El País e Folha de S. Paulo. É especialista em investigar os impactos das cadeias produtivas — como pecuária, cultivo de soja e milho e mineração de ouro — nos biomas brasileiros, incluindo a Amazônia, o Cerrado e o Pantanal, bem como os fluxos financeiros globais que sustentam esses setores. Desde julho de 2024, divide seu tempo entre investigações transfronteiriças e projetos de jornalismo local em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, onde reside. * **Sofia Costa** é estudante de Jornalismo na Universidade Federal de Goiás e de Ciência de Dados e Inteligência Artificial na PUC-GO. Atualmente é estagiária no Núcleo Jornalismo, com foco de cobertura em tecnologia, especialmente envolvendo dados.

Microbolsas Big Techs: repórteres vão investigar lobby em três regiões do Brasil.
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ERC demana que no hi hagi pantalles per veure el Mundial El grup d'Esquerra Republicana a l'Ajuntament de Barcelona ha demanat a Jaume Collboni que no s'instal·lin pantalles per veure la selecció espanyola.

ERC demana que no s’instal·lin pantalles gegants per veure la selecció espanyola durant el Mundial
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Em junho de 1971, a popular revista Manchete cravou no título de uma reportagem: “A Bolsa está na moda”. Outros meios de comunicação corroboravam a afirmação. Enquanto a Rádio Nacional transmitia diariamente o Jornal da Bolsa, os cadernos de economia e finanças dos jornais do país eram tomados por páginas de informações sobre o mercado de capitais. Subitamente, os cadernos foram encorpados com gráficos de índices do mercado financeiro, indicadores de altas e baixas da Bolsa de Valores, balancetes de empresas, notícias sobre investimentos em ações, fundos, debêntures e outros valores mobiliários, além de anúncios diversos de corretoras financeiras. O tema não se atinha ao setor de economia e se expandia para colunas sociais – com comentários sobre a atividade de algum “colunável” na Bolsa – e até mesmo para o horóscopo. A seção de astrologia do jornal Correio da Manhã, datada de 1 de janeiro de 1970, previa para o signo de Escorpião que o ano seria próspero e que a sorte lhe sorriria “em rifas, bolsa de valores e loteria”. Já um anúncio da Bolsa de Valores do Rio de Janeiro no mesmo jornal, lembrava que “progresso é feito de ação” e propunha a questão: “uma pessoa fica rica porque é acionista ou se torna acionista porque é rica?”. Anúncio da Bolsa de Valores 1968 O teor otimista e explicitamente propagandístico exposto na mídia em relação ao mercado acionário fazia parte da política desenvolvimentista do governo militar, que então vivia o propalado “milagre econômico”, na virada da década de 1960 para 1970. E a Bolsa de Valores, em pleno momento de ascensão, seria uma espécie de termômetro da situação econômica do país. Para a instalação de tal mercado e para a popularização de investimentos em compras de ações de empresas como forma de poupança – já que, até o início dos anos 1960, a aquisição de imóveis era o investimento favorito de camadas da população dotadas de disponibilidade monetária –, uma profunda reforma econômica e financeira foi programada pelo governo ditatorial, que assumiu o poder em abril de 1964. “Essas reformulações foram concebidas originalmente no interior de órgãos como o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPÊS), que constituía uma frente empresarial-militar. Houve uma reestruturação do sistema financeiro nacional logo no primeiro governo ditatorial, com o Castelo Branco. Entre as reformulações, estavam as criações do Banco Central e do Conselho Monetário Nacional e também do mercado de capitais”, explica o historiador Pedro Henrique Pedreira Campos, professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). “Eles partiam do princípio que era preciso criar uma poupança interna, já que o Brasil não tinha poupança. Para isso, haveria a necessidade de um mercado de capitais e da reformulação do sistema financeiro nacional”, acrescenta. A fundação, em 1964, do Banco Central (BC) e do Conselho Monetário Nacional (CMN) – órgãos cruciais para a regulação do mercado e da política financeira – e a instauração, em 1965, da Lei de Mercado de Capitais, ao lado da criação da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e da Lei das Sociedades Anônimas, em 1976, criariam a base do mercado de ações e títulos atual. As reformas da época construíram a infraestrutura que permitiu o desenvolvimento do setor, mas que também resultaram em um crescimento especulativo, concentração do capital e aumento das disparidades econômicas. ## **Entre o mercado financeiro e os porões da repressão** Durante a ditadura civil-militar, o grande capital e a repressão estatal integravam o mesmo ecossistema estrutural. Para a proteção do capital, parte do empresariado nacional patrocinou a criação de órgãos clandestinos de segurança e vigilância. Signatário do AI-5, o ato que reforçou o autoritarismo do regime, o ministro do Planejamento Delfim Netto lidava com o balcão de negócios da economia oficial e também participava de reuniões fechadas sobre o financiamento empresarial para estruturar os porões da repressão e tortura. “Seu assessor, o empresário Paulo Henrique Sawaya Filho, [já falecido] espécie de tesoureiro da Operação Bandeirante, a Oban (precursora do DOI-Codi), coletava polpudas contribuições junto a banqueiros e empresários paulistas”, conta Ivan Seixas, consultor especial da Comissão Nacional da Verdade. O relatório da comissão descreve: “ficou conhecido o banquete organizado pelo ministro Delfim Netto no Clube São Paulo, antiga residência da senhora Veridiana Prado, durante o qual cada banqueiro, como Amador Aguiar (Bradesco) e Gastão Eduardo de Bueno Vidigal (Banco Mercantil de São Paulo), entre outros, doou o montante de 110 mil dólares para reforçar o caixa da Oban”. A proximidade entre o mercado financeiro e a repressão se tornou evidente em certos casos, como o do paraquedista Valdemar Martins de Oliveira. Recrutado em 1968 pelo Centro de Informações do Exército (CIE), Oliveira, ao se recusar a participar de ações de apreensão e repressão após presenciar execuções de militantes, foi enviado para trabalhar numa corretora de valores mobiliários, a DIMIG, onde atuou como espião e também como funcionário – mesmo sem ter experiência. “Não sabia o ofício, mas aprendi, então emitia e assinava títulos de fundos de investimentos de empresas como a Mannesmann. Ao mesmo tempo, eu tinha que vigiar a diretoria da corretora”, conta ele, que afirma que militares visitavam constantemente a empresa. O ex-agente garante que, em pouco tempo, ganhou muito dinheiro na Bolsa de Valores: “como as ações explodiam na época, com o dinheiro de uma semana, eu comprei um [carro] Karmann Ghia”, disse à reportagem. Além da DIMIG, Oliveira trabalhou em outra corretora, a SPI. Diariamente, ele tinha que levar relatórios para o DOI-Codi de São Paulo sobre suas atividades. “Esse tipo de empresa era feito para acobertar esquemas dos militares. Já procurei informações, mas elas não deixavam rastros, e esse é um dos motivos para não se encontrar um CNPJ ou outro dado sobre elas”, conta Thiago de Oliveira, filho do militar. A reportagem também não encontrou informações atuais sobre as empresas. Anúncio da DIMIG no Jornal do Brasil Aliada da ditadura, a empresa citada por Oliveira, a Mannesmann, foi denunciada, anos depois, por uso de monitoramento, repressão e tortura a seus funcionários. As mesmas acusações se aplicaram a outras empresas grandes e altamente valorizadas na bolsa, como a Petrobras e a Belgo-Mineira, por exemplo. ## **Escândalos financeiros** Enquanto algumas empresas tiveram seus nomes relacionados à repressão, outras, particularmente atreladas ao setor financeiro, estiveram envolvidas em rumorosos escândalos. “É importante frisar que o novo ambiente financeiro, com todo o cerceamento que a ditadura impôs, abriu margem para uma série de escândalos de corrupção”, declara o historiador Pedro Henrique Pedreira Campos. Apesar da censura e da intervenção do governo para salvar algumas empresas, diversos episódios do período se tornaram públicos, a exemplo do Banco Halles, Banco Econômico, Agropecuária Capemi, Caso Lutfalla (ligado a Paulo Maluf), Grupo Coroa-Brastel, Grupo Delfin – este, dono da maior caderneta de poupança do país. Um episódio em específico, narrado pelo jornal Folha de S. Paulo, do grupo Brasilinvest, remete diretamente aos dias atuais. Antes do Banco Master e das fintechs de fundos de investimentos duvidosos, o grupo fundado em 1975 pelo empresário, banqueiro e investidor Mário Bernardo Garnero já causava rebuliços na região da Avenida Faria Lima. Próximo de figuras proeminentes, como o embaixador estadunidense Lincoln Gordon (peça-chave no golpe de 1964), Juscelino Kubitschek, Helmut Schmidt e príncipe Rainier, Mário Garnero fundou a Brasilinvest como grupo financeiro e banco de negócios, com participação de 80 sócios de 16 países. Acusada de conceder empréstimos a empresas fantasmas, a instituição financeira passou por liquidação em 1985 a pedido do Banco Central. O processo gerou a decretação de falência do banco e da corretora de valores do grupo. Garnero chegou a ser condenado a cinco anos de prisão pelos crimes de estelionato, formação de quadrilha e fraude contra o sistema financeiro pela Justiça Federal de São Paulo, mas a condenação foi anulada em 1989 pelo Supremo Tribunal Federal. No ano seguinte, o BC suspendeu a liquidação da Brasilinvest. Anos depois, em entrevista à Folha, o empresário alegaria que seu grupo nunca esteve em estado de insolvência, e que ele fora vítima de “uma reportagem leviana e irresponsável” feita em 1985. No ano passado, seu filho, Mário B. Garnero Jr., teve seu nome mencionado em documentos e listas de contatos relacionados ao financista Jeffrey Epstein, conforme revelou a Justiça dos EUA. O historiador Rafael Vaz Brandão, professor da UERJ, observa como estruturas articuladas durante a ditadura ainda se mantêm nos dias de hoje. “Claro que a corrupção, violência de Estado, nada disso surge com a ditadura, mas é impressionante como é nesse período que esquemas de corrupção se alastraram, se enraizaram no Estado de tal forma que prosseguem até hoje, claro que com outros contornos”, conclui. ## **Preparando o terreno para a colheita** Membros do IPÊS – _think tank _financiado pelos EUA e empresários que conspirou para o golpe de 1964 –, os economistas liberais Roberto Campos, como ministro do Planejamento, e Octávio Gouvêa de Bulhões, como ministro da Fazenda, foram os principais artífices das transformações econômicas iniciais do regime militar. Mas o esboço do projeto econômico começou bem antes. Em 1944, eles, e mais o economista Eugênio Gudin, participaram da delegação brasileira enviada para o Acordo de Bretton Woods (EUA), que criou o FMI e o Banco Mundial e apontou as diretrizes do sistema financeiro mundial após a 2ª Guerra Mundial – entre essas definições, o atrelamento do sistema financeiro ao dólar. “De lá, trouxeram as orientações para as políticas econômicas e para a construção de um banco centralizador. Desde 1955, a partir da Superintendência da Moeda e do Crédito (SUMOC), esse banco foi sendo construído com a participação do grande capital, até 1964, quando passou a ser designado como Banco Central”, detalha Esther Kuperman, professora no Colégio Pedro II e pesquisadora no Núcleo de Estudos das Américas, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). De acordo com levantamento da pesquisadora, todos os diretores do Banco Central tiveram relações com grandes empresas e, principalmente, grandes bancos. “Assim, o BC, na prática, ao definir as políticas cambiais, creditícias, etc, age sempre em conformidade com os interesses destas empresas. Portanto, sua pretensa autonomia é uma balela”, considera Kuperman, que recorda que o ex-presidente do BC, Roberto Campos Neto, é neto de um dos idealizadores do banco. Diplomata, com certa facilidade de acesso ao gabinete de John Kennedy, Roberto Campos ganhou o apelido “Bob Fields”, devido ao seu notório alinhamento aos EUA. ## **Nova legislação transformou o mercado** Como ministro, Campos apresentou em 1964 o Programa de Ação Econômica do Governo (PAEG), que visava controlar a inflação e reestruturar o sistema financeiro, cujas principais ações incluíram a instituição da Obrigação Reajustável do Tesouro Nacional, a ORTN (Lei 4.537/64), índice que introduziu a correção monetária; a fundação do Banco Central (Lei 4.595/64); a criação do Conselho Monetário Nacional (Lei 4.595/64); e a Lei do Mercado de Capitais (Lei 4.728/65), que estruturou o mercado de capitais, regulamentando o funcionamento de bolsas de valores e sociedades anônimas. Para o historiador Brandão, a política econômica inicial do governo Castelo Branco, especialmente com a Lei 4.595, tratava não apenas de reforma do sistema bancário-financeiro, mas também de centralização de capitais neste setor. “O CMN consistiu, basicamente, de um comitê de banqueiros que passaram a formular as principais políticas para o setor em seu favor. Por ele passaram nomes como Mário Henrique Simonsen (Banco Bozano, Simonsen), Ângelo Calmon de Sá (Banco Econômico), Gastão Eduardo de Bueno Vidigal (Banco Mercantil de São Paulo) e Olavo Egydio Setúbal (Banco Itaú)”. A introdução da nova legislação resultou em diversas modificações no mercado acionário, como a reformulação do regramento sobre Bolsa de Valores, a transformação dos corretores de fundos públicos em Sociedades Corretoras, forçando sua profissionalização, a criação dos Bancos de Investimento, a quem foi atribuída a principal tarefa de desenvolver a indústria de fundos de investimento. Brandão menciona que a criação da figura do banco de investimentos, possibilitou aos bancos, entre outras coisas, a captação de recursos no exterior, além de atuar em processos de fusão e aquisição de empresas. “Podemos dizer que se trata de uma política de favorecimento do capital privado no setor bancário-financeiro. Não à toa, a primeira instituição a criar, em 1965, seu banco de investimento foi o Itaú, o Banco Federal Itaú de Investimentos”. Para incentivar investimentos na Bolsa e fomentar a compra de ações e títulos, o governo criou incentivos fiscais significativos, permitindo que pessoas físicas e jurídicas deduzissem investimentos no mercado de capitais do imposto de renda, visando a “democratização do capital”. Criado em 1967 pelo decreto-lei 157, o Fundo 157 possibilitou ao contribuinte utilizar parte do imposto devido na aquisição de cotas de fundos de ações de companhias abertas administrados por instituições financeiras de livre escolha do aplicador. Sucesso entre os investidores, o fundo foi encampado pelos bancos, que utilizaram personalidades como Ronald Golias e Renato Aragão como garotos-propaganda. Propaganda do Fundo Bradesco com Ronald Golias, 1971 O seu idealizador foi o economista Delfim Netto, ex-membro do IPÊS e sucessor de Octávio Bulhões no Ministério da Fazenda. Com a política econômica centralizada no ministério, via CMN, Delfim tornou-se um tipo de czar da economia, exercendo um poder significativo sobre outros ministérios. Títulos públicos, como Letras do Tesouro Nacional e ORTNs, mecanismos de financiamento do Estado, também incrementaram as opções de aplicações. ## **O “boom” da Bolsa de Valores** As reformulações e incentivos governamentais surtiram efeito e, ao fim da década de 1960, os números do crescimento do mercado acionário eram surpreendentes. A Bolsa de Valores do Rio de Janeiro, então a mais importante do país, apresentou em 1969 um aumento de 484% no volume de negócios em relação ao ano anterior e de cerca de 90% sobre o total acumulado nos cinco anos anteriores, segundo dados do jornal Correio da Manhã, de 1 de janeiro de 1970. Reportagem do Correio da ManhãReportagem do Correio da Manhã A rentabilidade média do mercado foi de 250%, movimentando de 5 a 6 milhões de ações e mais de três milhões de dólares diários. A rentabilidade média das dez principais ações foi superior em média a 600%. Entre os papéis mais valorizados estavam os de companhias do setor siderúrgico, de refinação e petróleo, da metalurgia, da mineração e das estatais, com destaques para a Belgo-Mineira, Petrobras, Vale do Rio Doce e Banco do Brasil. Em pouco tempo, a Bolsa do Rio de Janeiro se tornou a quinta mais movimentada do mundo e, no ápice de sua ascensão, em 1971, atingiu a terceira posição entre as bolsas mais importantes. Naquele ano, uma extensa reportagem da revista Manchete dizia que a Bolsa tinha se tornado a única rival da Loteria Esportiva, em matéria de captação de recursos de poupança. A matéria, de claro viés propagandístico, apontava números sedutores até para quem não estava acostumado a ler cadernos de economia. “Se alguém tivesse aplicado Cr$ 10.000,00 em ações do Banco do Estado da Guanabara, em 31 de dezembro de 1968, seu dinheiro se teria transformado um ano depois em Cr$ 170.450,00, dando lucro de 1.240,9%, ou seja, 103,4% ao mês”, indicava a publicação. Bolsa de Valores do Rio de Janeiro 1971 Eufórico com a crescente movimentação do pregão, um operador declarou ao repórter que Delfim era “um gênio”, graças à invenção do popular Fundo 157. Mas um dos destaques da reportagem era justamente anunciar o surgimento de uma nova classe de trabalhadores do mercado financeiro. “A primeira surpresa: a juventude que tomou conta da Bolsa”, relatava o texto. “Quem nunca aí entrou imagina que seus operadores são todos idosos, vestidos de maneira conservadora. A verdade é bem outra. Os gritos partem de jovens que usam gravatas Cardin, ternos na _onda_ , cabelos compridos, dando a ideia de que o Flag [_boate_] se mudou para a Praça 15. A média de idade dos que trabalham na Bolsa oscila entre os 20 e 30 anos. Hoje apenas dez por cento podem ser considerados idosos, quando há apenas cinco anos atrás era justamente o contrário…”. Impossível não associar o perfil daqueles operadores ao dos funcionários dos modernos escritórios do principal centro financeiro do país, a Avenida Faria Lima, em São Paulo. Na mesma matéria, o depoimento de um jovem operador, autêntico precursor dos atuais “faria limers”, reforça a sensação: “para ele, a predominância de gente nova entre os operadores está diretamente ligada à agressividade, melhor preparo físico e raciocínio mais rápido, que caracterizam a juventude. Isto possibilita melhor produtividade, maior volume de negócios, eficiência superior”. Operadores da Bolsa de Valores ## **Bolha Especulativa e _crash_ de 1971** A despeito da eficiência de seus operadores, o “boom” da Bolsa durou pouco tempo. O IBV (Índice da Bolsa de Valores do Rio de Janeiro) desvalorizou 54,79% em julho de 1971, com o anúncio de bonificação e subscrição de ações do Banco do Brasil de “apenas” 50%, quando o mercado esperava 100%. Nas semanas seguintes ao anúncio, feito por Delfim Netto, pânico e insegurança tomaram conta da sala de negociação das bolsas brasileiras. A Bolsa não tinha um mecanismo de atuação e proteção para segurar a onda de uma desvalorização desenfreada. A combinação de otimismo econômico, incentivos fiscais e falta de regulação robusta gerou uma grande bolha especulativa, com as bolsas atingindo altas históricas para depois despencarem no segundo semestre de 1971, gerando prejuízos a pequenos e desavisados investidores. Receosa com a possibilidade de perdas, essa parcela da população se afastou por um longo período do mercado de ações, preferindo investimentos menos arriscados, como as cadernetas de poupança, outra oportuna novidade da época. A Bolsa de Valores de São Paulo, entretanto, preparava o longo caminho para sua ascensão – algo que somente viria a ocorrer nos anos 2000. Em abril de 1972, a Bovespa anunciava o recebimento de equipamentos eletrônicos, procedentes do Canadá, para a inauguração do novo pregão, fato que contaria com a presença do presidente Médici. Totalmente automatizado, o pregão apresentava painel eletromagnético central, monitores de vídeo e terminais de computador. Apesar do mercado deprimido, notou-se uma recuperação das cotações, a partir de 1975, devido a novos aportes de recursos do Fundo PIS/PASEP, de reservas técnicas das seguradoras, de adicionais do Fundo 147 e de investimentos por parte de Fundos de Pensão, além de incentivos como a isenção fiscal dos ganhos obtidos em bolsas. A criação das Sociedades de Investimento, pelo Decreto-Lei 1.401, buscou captar recursos externos para aplicar no mercado acionário. Com Mário Henrique Simonsen à frente do ministério da Fazenda, a modernização legislativa continuou pela década de 1970 com as implantações da Lei do Mercado de Valores Mobiliários (Lei 6.385/76), que criou a Comissão de Valores Mobiliários, a CVM, órgão que disciplina o mercado até hoje, e da Lei das S.A. (Lei 6.404/76), que rege o funcionamento das companhias abertas e fechadas. A recuperação do setor seria gradativa, e a retomada de confiança do pequeno investidor na Bolsa aconteceria somente no período democrático. Procuramos o Banco Central e a Bovespa sobre as informações desta reportagem, mas não recebemos respostas até a publicação.

Entre a Bolsa de Valores e a repressão: como a ditadura impulsionou o mercado financeiro.
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#Portugus #Ditaduramilitar #Economia #Poltica

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Ditadura militar no Brasil Série de reportagens revela segredos da ditadura militar

Ditadura militar no Brasil.
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Brazil Conference 2026: Um pedacinho do Brasil ocupou os espaços de Harvard e MIT Evento levou debates para centros acadêmicos reconhecidos, dialogando sobre o futuro através das óticas plurais brasileiras

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A última viagem do norte-americano Nelson Aldrich Rockefeller ao Brasil ocorreu em 1969, quando o bilionário do setor petroleiro e filantropo tinha 61 anos. Experiente nas relações com a América Latina, onde a fundação que leva o nome de sua família atua desde 1916, Rockefeller havia estado no país diversas vezes, mas essa viagem derradeira era a primeira na nova capital, Brasília. Passados cinco anos desde o golpe de Estado, em 1964, quando o apoio norte-americano foi fundamental para a deposição do presidente João Goulart e a ascensão dos militares ao poder, as relações bilaterais entre os dois países não eram tão amistosas como se poderia supor e Rockefeller, então governador do estado de Nova Iorque, vinha na condição de emissário do presidente Richard Nixon — por quem fora incumbido de reafirmar a amizade dos Estados Unidos com o Brasil. Rockefeller procurou demonstrar entusiasmo por Brasília, à qual se referiu como “um lugar que o resto do mundo ainda não alcançou” e em cujo projeto arquitetônico teria se inspirado na construção do complexo governamental Empire State Plaza, em Albany, capital do estado de Nova Iorque, edificado entre 1965 e 1978. Acostumado às diversões do Rio de Janeiro, o empresário, entretanto, estranhou a austeridade da nova capital, onde foi recebido com ar oficial e sob um forte esquema de segurança. Rockefeller expressaria, em relatório sobre a viagem, certo desconforto nas duas reuniões que teve com o presidente brasileiro, o marechal Arthur da Costa e Silva, no Palácio da Alvorada. Posse do presidente Costa e Silva em 15 de março de 1967, em sessão conjunta do Congresso Nacional O militar teria feito questão de esclarecer alguns pontos de divergência entre os dois países, começando pela invasão do escritório da _Associated Press_ no Brasil, em um episódio que conflagrou a censura a jornalistas e veículos de imprensa e que foi motivo de protesto do embaixador norte-americano, Lincoln Gordon, personagem fundamental nas articulações que antecederam 1964. Na sequência, Costa e Silva rememorou o golpe, afirmando o protagonismo brasileiro: havia sido uma “revolução do povo que se opôs ao comunismo”, instaurando “um governo do povo dedicado ao povo”. Embora tenha enfatizado o caráter “nacional” da “revolução”, o presidente reiterou a lealdade brasileira aos Estados Unidos, alegando que o desenvolvimento econômico do país e a melhoria das condições de vida do povo eram de interesse norte-americano, uma vez que a miséria dos países próximos representava uma ameaça ao vizinho do Norte. Confrontado pelo empresário a respeito de supostas restrições políticas e violações de direitos humanos no Brasil sob a ditadura, especialmente contra os chamados presos de consciência – jornalistas, artistas e intelectuais encarcerados por suas ideias e não por envolvimento na luta armada –, Costa e Silva justificou que os Estados Unidos haviam dado pouca assistência militar ao Brasil após o golpe e que, em face do “aberto ataque comunista ao Ocidente”, a democracia podia esperar. Nos Estados Unidos, havia, naquele momento, pressão política contra a ditadura no Brasil. O senador democrata Frank Church sugeriu o cancelamento da viagem de Rockefeller ao país como forma de protesto contra as notícias sobre exacerbações do governo que reverberavam por lá. O Congresso pressionava o Executivo para que condicionasse as ajudas ao Brasil ao restabelecimento das liberdades democráticas. Rockefeller acreditava, entretanto, como rezava uma certa tradição da política externa norte-americana, que os regimes militares eram algo congênito na América Latina, sendo melhor “conviver com eles do que isolá-los”. Quem conta toda essa história é Antonio Pedro Tota no livro “O Amigo Americano – Nelson Rockefeller e o Brasil” (2014). Ela é ilustrativa de uma mudança nas relações entre os Estados Unidos e o Brasil após o golpe de 1964, reconhecidamente sustentado pelos norte-americanos, e demonstra, contrariando o senso comum, que elas foram permeadas por tensão, dissenso e, eventualmente, conflito. Rockefeller, então governador do estado de Nova Iorque, esteve no Brasil na condição de emissário do presidente Richard Nixon Embora, na prática, o encontro entre Nelson Rockefeller e Costa e Silva tenha servido para atualizar as lealdades do Brasil para com os Estados Unidos, condicionada a apoio militar e econômico, ele expõe alguns aspectos da relação entre os dois países após 1964 que merecem ser considerados: primeiro, uma leitura do golpe que, mesmo sem negar a participação norte-americana, defende o protagonismo brasileiro e o suposto caráter popular e nacionalista da resistência ao comunismo internacional; segundo, o ressentimento brasileiro à pouca assistência militar após a conhecida operação Brother Sam, que se manteve apenas até que Jango fosse deposto e os militares ascendessem ao poder; terceiro, a dúbia relação dos Estados Unidos com as ditaduras militares latino-americanas, que ajudaram a promover e legitimar, mas que expuseram a falácia da democracia na América. Há muito a participação norte-americana no golpe de 1964 é conhecida. Em discurso proferido no Recife, no calor dos acontecimentos, Leonel Brizola atribuiu ao então recente golpe o estatuto de obra do “imperialismo yankee”. Preso pela Marinha durante a ditadura, acusado de subversão, o historiador Moniz Bandeira escreveu “Presença dos Estados Unidos no Brasil”, lançado em 1973, no qual apontava a participação do Departamento de Estado norte-americano e da CIA no golpe. Em 1981, René Armand Dreifuss publicaria “1964 – A conquista do Estado”, no qual não apenas a participação direta dos Estados Unidos, via agências federais, _corpus_ diplomático e forças armadas, foi demonstrada, mas também a de empresas privadas, tais como Texaco, Shell, ESSO (das iniciais S.O., referentes a Standard Oil, empresa pertencente à família Rockefeller), Bayer, General Electric, IBM, Coca-Cola, Cigarros Souza Cruz e General Motors, muitas delas norte-americanas, que financiaram instituições brasileiras gestoras do golpe, sobretudo o Instituto de Estudos e Pesquisas Sociais (IPES). ## **Documentos desclassificados comprovam a participação norte-americana além do golpe** A despeito de trabalhos historiográficos importantes, baseados em pesquisas de arquivo, a participação norte-americana no golpe foi, durante muito tempo, desacreditada, considerada resultado de teorias conspiratórias elaboradas por políticos e intelectuais de esquerda. As evidências, entretanto, foram aparecendo progressivamente. Em 2004, por ocasião dos 40 anos do golpe, a Universidade George Washington desclassificou documentos do _National Security Archive_ referentes ao “Brazil Project”, que contêm fontes sobre a participação norte-americana no golpe, demonstrando que os Estados Unidos estavam preparados para intervir militarmente no processo de deposição de Jango, caso as forças brasileiras fracassassem. Em 2008, o historiador Carlos Fico publicou “O Grande Irmão”, baseado em documentação então inédita coletada nos Estados Unidos, especialmente em fontes intituladas “ _Country Analysis and Strategy Paper_ ” (CASP), abrigadas no _National Archives and Records Administration_ (NARA), que consistiam em relatórios conjuntos elaborados por diversos setores da embaixada norte-americana no Brasil, pelo Departamento de Estado e por agências federais norte-americanas durante a ditadura militar brasileira. Em 2012, a presidente Dilma Rousseff consolidou a justiça de transição no Brasil, ao assinar a Lei de Acesso à Informação − que estabeleceu novos parâmetros para a liberação de documentos com informações sobre violações de direitos humanos pelo Estado brasileiro durante a ditadura − e instituir a Comissão Nacional da Verdade (CNV). Em dezembro de 2014, a presidente Dilma Rousseff recebeu o relatório final elaborado pela Comissão Nacional da Verdade Em 2013, a partir de um contato entre o historiador brasileiro Sidnei Munhoz, que fazia parte da CNV, e o brasilianista norte-americano James Green, foi estabelecido o projeto _Opening the Archives_ , uma parceria entre a Universidade Estadual de Maringá (UEM) e a _Brown University_ com apoio dos arquivos nacionais do Brasil e dos Estados Unidos, que visa à digitalização e disponibilização on-line de documentos referentes à presença dos Estados Unidos no Brasil entre as décadas de 1960 e 1980. Em entrevista ao site do projeto, James Green, colunista da **Agência Pública** , afirmou que a ideia de disponibilizar as fontes para livre acesso surgiu quando ele pesquisava no NARA para a escrita do livro “Apesar de vocês”, publicado em 2009. Com efeito, o NARA possui uma vasta documentação sobre as relações entre os Estados Unidos e o Brasil, notadamente durante a ditadura, parte da qual já foi investigada por historiadores brasileiros. Em 2011, quando estive no arquivo pela primeira vez fazendo pesquisa para o doutorado, identifiquei fontes sobre a atuação de uma agência federal até então pouco conhecida no Brasil, a _United States Information Agency_(USIA). A pesquisa ensejou um dos primeiros trabalhos sobre a atuação do Programa de Fomento ao Livro da agência no país, atuante entre 1953 e 1973, que desempenhou papel central na chamada Guerra Fria cultural. A tese, defendida em 2013, foi publicada em 2015, sob o título “Guerra Fria e Política Editorial”, e demonstrou que o programa estabeleceu uma complexa rede de contatos no Brasil, envolvendo empresários, editores e escritores, cujos interesses não devem ser menosprezados. O tema foi objeto de reportagem da **Pública**. Mais recentemente, com a abertura dos arquivos JFK, novas possibilidades de pesquisa foram abertas, cujos efeitos ainda não podem ser calculados. ## **A complexidade das relações Brasil-EUA exige uma leitura além do senso comum** A historiografia tem demonstrado alguns aspectos relevantes das relações Brasil-Estados Unidos ao longo da história e, em particular, na ditadura, que apontam caminhos para investigações futuras. 1. Assumir a participação dos Estados Unidos no golpe não deve implicar no juízo de que o regime que o sucedeu, o militar, tenha sido necessariamente americanista. A análise documental, qualitativa, de cada governo, programa, acordo é fundamental para entender a complexidade dessa relação; 2. Ainda que a ideia de desenvolvimento, notadamente econômico, assumida como projeto para o país pelos militares estivesse, especialmente nos anos 1960, em acordo com as teorias da modernização, amplamente em voga entre intelectuais e _policymakers_ norte-americanos no período, ela era pensada por uma chave nacionalista; 3. O projeto de modernização para o Brasil antecede o governo Castelo Branco e, portanto, deve ser analisado sob uma perspectiva mais ampla, tal como se nota nas relações dos governos Jânio Quadros e Jango com a Aliança para o Progresso, por exemplo; 4. A presença dos Estados Unidos no Brasil não é, nem de longe, uma novidade da era John Kennedy, instaurada com a criação da Aliança para o Progresso e da USAID. Ainda que, no início do século 20, o isolacionismo tivesse grande força nos Estados Unidos, sendo a abertura de fronteiras uma pauta específica de presidentes como Theodore Roosevelt e Woodrow Wilson, o processo de capilarização internacional do país remonta ao século 19, com especial atuação da iniciativa privada; 5. As fundações privadas foram um braço importante da diplomacia norte-americana, vide a atuação da Rockefeller, da Carnegie e da Ford. Embora a historiografia já tenha apontado o papel de grandes fortunas no golpe, considerando os financiamentos da Standard Oil, da família Rockefeller, ao IPES, o papel específico das fundações ainda merece investigações mais detidas; 6. A avaliação do sucesso ou do insucesso dos programas norte-americanos no Brasil é um tema especialmente interessante. Se os conhecidos acordos MEC-USAID, por exemplo, que presidiram a reforma universitária promovida pelos militares em 1968, foram vistos no Brasil como uma forte ingerência norte-americana sobre o país, do lado de lá, eles foram, em parte, aceitos como um fracasso. Isso demonstra que suas pretensões eram de maior monta e, talvez por isso mesmo, não foram completamente atingidas; 7. Embora a presença de cientistas estrangeiros no Brasil, particularmente na Amazônia, também seja um fenômeno antigo, os governos militares definiram uma política para a região que por vezes comprometeu interesses estrangeiros, a exemplo do decreto de Costa e Silva, de 1969, que restringiu essa presença e foi recebido no exterior como sintoma do “chauvinismo” dos homens da caserna; 8. O tema dos direitos humanos, sobretudo em se tratando de prisões por crimes “de consciência” denunciadas por organizações como a Anistia Internacional, é um elemento importante para compreender o gradativo desgaste da imagem internacional da ditadura, inclusive nos Estados Unidos. As críticas que os governos militares brasileiros receberam, nessa direção, estavam ligadas à dimensão de exceção do regime, à suspensão dos valores democráticos, com ênfase nos temas da censura e da tortura; 9. As críticas que os governos militares brasileiros receberam, nessa direção, estavam ligadas à dimensão de exceção do regime, à suspensão dos valores democráticos, com especial ênfase nos temas da censura e da tortura. 10. Embora haja alguma dimensão de mal-estar, esses temas jamais foram fundamentais para reduzir ou mesmo eliminar a presença dos Estados Unidos no continente. A mudança de rota na política externa americana nas décadas de 1970 e 1980 explica muito mais. Um olhar detido para o continente seria retomado pelo Consenso de Washington e pelas políticas neoliberais, no final dos anos 1980. Isso se refletiu na Constituinte de 1987, por exemplo, quando o país fez um _lobby_ incisivo, com especial interesse nas questões ambientais; 11. A incompatibilidade entre os Estados Unidos e as ditaduras latino-americanas nunca passou, a rigor, de um problema teórico, que os ideólogos da política externa norte-americana conseguiram resolver bem, embora tenha tido implicações práticas. Desde a chamada Era Kennan, no início da Guerra Fria, a ideia da “democracia como fetiche” era tida como possível, inclusive para os Estados Unidos, uma vez que se defendia o Executivo forte e se assumia o Congresso como expressão de um povo intelectualmente limitado e provinciano. Essa premissa não nos deve fazer supor, entretanto, que não fossem legítimas as críticas à contradição norte-americana de apoiar ditaduras em outros países, entoadas inclusive por cidadãos norte-americanos. Os Estados Unidos não são, como o Brasil não o é, um país homogêneo. Para compreender a história de sua política externa, há que se considerar as diversas frentes de sua atuação no ultramar: a diplomacia formal, as agências de Estado, os programas federais, as fundações privadas, as empresas. Há que se considerar agentes e instituições militares e civis, políticos e diplomáticos, não apenas norte-americanos, mas também brasileiros, em seus assuntos e motivos próprios. Seus rastros estão nos arquivos. Muito tem sido feito pelos historiadores, mas ainda há muito por fazer. Assumir que o apoio dos Estados Unidos à ditadura brasileira não foi simples nem linear é um bom começo de conversa.

Apoio dos EUA à ditadura: documentos revelam tensão e conflito nas relações bilaterais.
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Bolsonaro se esquiva e diz a Moraes que não recebeu gravação de “Bananinha”.
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#Poltica

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A relação entre os Estados Unidos e o Brasil é, no mínimo, complexa. Da tentativa atual do pré-candidato à presidência do Brasil, Flávio Bolsonaro, de que os EUA interfiram nas eleições brasileiras, à postura oposta de Joe Biden, em 2022 – que se posicionou contra qualquer tentativa de invalidar as urnas – a democracia brasileira ora foi vista como benéfica, ora como problema, para os homens que comandaram a Casa Branca. Entre 1962 e 1964, duas administrações americanas minaram a democracia no Brasil. Em 30 de julho de 1962, o presidente John F. Kennedy (1961-63) reuniu-se com Lincoln Gordon, embaixador dos EUA no país, e Richard Goodwin, Subsecretário Adjunto de Estado para Assuntos Interamericanos, na Casa Branca, para discutir a relação entre o presidente João Goulart (1961-64) e os militares brasileiros. Em sua conversa, que foi gravada e preservada como registro da reunião, o embaixador Gordon comentou: > — “Acho que uma de nossas tarefas importantes é fortalecer a espinha dorsal das Forças Armadas. Deixar claro, discretamente, que não somos necessariamente hostis a qualquer tipo de ação militar, se ficar claro que o motivo da ação militar é…” > — “Contra a esquerda”, Kennedy completou a frase. Gordon acrescentou: > — “Ele [Goulart] está entregando o maldito país aos…” > — “Comunistas”, novamente, Kennedy completou. Poucos instantes depois, Goodwin comentou: > — “Podemos muito bem querer que eles [os militares brasileiros] assumam o poder no final do ano, se puderem”. Kennedy foi assassinado em 22 de novembro de 1963, antes que as condições estivessem propícias dentro das Forças Armadas brasileiras para realizar um golpe de Estado com o apoio dos EUA contra o governo de esquerda de Goulart. Isso ocorreria em 31 de março de 1964, enquanto Lyndon B. Johnson (1963-69) ocupava a Casa Branca. Em meados de março de 1964, imediatamente antes da tomada do poder pelos militares, o presidente Johnson convocou uma série de reuniões, que incluíram Thomas Mann, o Secretário de Estado Adjunto para Assuntos Interamericanos; altos funcionários do governo; e os embaixadores dos EUA na América Latina. Nessa reunião, Mann apresentou sua abordagem de política externa para a região: “Os Estados Unidos não tomarão, no futuro, uma posição a priori contra governos que chegam ao poder por meio de golpes militares”. O conteúdo das conversas que ocorreram na conferência da Casa Branca vazou para a imprensa. Serviu como uma mensagem clara para as forças militares brasileiras de que Washington estava dando sinal verde para a derrubada do governo Goulart. O embaixador Gordon, confiante de que o Brasil estava à beira de uma revolução nos moldes da Revolução Cubana, mobilizou a Casa Branca para apoiar os militares conspiradores que se preparavam para tomar o poder. Ele convenceu o governo Johnson a implementar a “Operação Irmão Sam” (_Operation Brother Sam_), que incluía o envio de uma força-tarefa naval para a região para apoiar os golpistas caso os partidários de Goulart resistissem à tomada do poder pelos militares. Gordon também persuadiu o presidente dos EUA a reconhecer a transição de poder em 2 de abril de 1964, de um governo civil para um governo militar, sem questionar a legitimidade do novo regime. Durante os primeiros quatro anos do governo militar brasileiro, apenas algumas vozes críticas nos Estados Unidos se manifestaram contra a ditadura. No entanto, à medida que a resistência ao regime cresceu em 1967 e 1968, levando a uma repressão e à imposição do Ato Institucional nº 5 (AI-5) em 13 de dezembro de 1968, as forças de oposição brasileiras tentaram buscar apoio no exterior para se mobilizar contra os generais no poder. Em 1969, o ex-congressista Márcio Moreira Alves, cassado com a promulgação da AI-5 e exilado no Chile, viajou aos Estados Unidos para se encontrar com líderes democratas do Congresso americano e explicar-lhes a natureza repressiva do regime militar. Alves retornou a Washington no ano seguinte para se reunir com acadêmicos americanos na Segunda Conferência da Associação de Estudos Latino-Americanos, onde incentivou especialistas em América Latina a apoiarem uma resolução que pedia o fim da ajuda militar americana ao Brasil. Esse esforço foi um pequeno capítulo em uma significativa campanha descentralizada e nacional de longo prazo nos Estados Unidos, que mobilizou exilados brasileiros juntamente com seus aliados americanos — clérigos, acadêmicos, ex-missionários, políticos e outros — para denunciar a ditadura e educar os formuladores de políticas e o público americano sobre a situação no Brasil. Apesar disso, nas duas décadas seguintes, com exceção dos quatro anos do governo Jimmy Carter (1977-1981), a Casa Branca ofereceu apoio econômico, militar e diplomático à ditadura. Esses anos representaram talvez o pior período da história das relações entre os dois maiores e mais importantes países do hemisfério ocidental. ## **Biden e o “Trump dos Trópicos”** Um outro momento crucial – e bastante diferente na tumultuada relação entre as duas nações – ocorreu entre 2021 e 2023, quando Joseph Biden (2021-2025) ocupou a Casa Branca. A eleição de Donald Trump em 2016 representou uma polarização política radical nos Estados Unidos, culminando na invasão do Capitólio dos EUA em 6 de janeiro de 2021 por apoiadores de Trump, após a derrota do candidato nas eleições presidenciais americanas de 2020. Foi a primeira vez desde a Guerra Civil Americana (1861-65) que uma insurgência tentou derrubar um governo democraticamente eleito dentro das fronteiras dos EUA. Embora o Pentágono, o Departamento de Estado e a Casa Branca tenham uma longa tradição de interferir nos assuntos internos de outros países, incluindo a orquestração de mudanças de regime, ainda existe um forte tabu nos Estados Unidos contra a interferência de generais americanos na política interna dos EUA. Esse foi um fator que contribuiu para explicar por que os esforços de Trump para reverter os resultados das eleições falharam. Além disso, a experiência de uma insurgência de direita ameaçando a democracia americana reforçou a abordagem cautelosa que o novo governo Biden adotou em relação a Jair Bolsonaro, apelidado por jornalistas de “Trump dos Trópicos”. As reservas de Biden em relação ao governo Bolsonaro resultaram em uma série de gestos da Casa Branca destinados a enviar uma mensagem muito diferente às Forças Armadas brasileiras daquela de 1964: ou seja, que o governo dos EUA agora _se opunha_ veementemente a qualquer tentativa dos militares brasileiros de subverter o processo eleitoral democrático no Brasil. Para sublinhar a política de Biden em relação ao Brasil, a Casa Branca enviou Jake Sullivan, seu conselheiro de Segurança Nacional, para se encontrar com Jair Bolsonaro em 2021, quando Bolsonaro já havia iniciado uma campanha sugerindo que poderia haver fraude nas eleições presidenciais de 2022. Em seu encontro, Sullivan enfatizou o apoio do governo dos EUA ao processo eleitoral brasileiro. Segundo Tom Shannon, ex-embaixador dos EUA no Brasil, “Sullivan e a equipe que o acompanhou saíram com a impressão de que Bolsonaro era totalmente capaz de tentar manipular os resultados das eleições ou negá-los, como Trump havia feito. Portanto, houve muita reflexão sobre como os Estados Unidos poderiam apoiar o processo eleitoral sem parecer que estavam interferindo.” A administração Biden enviou então vários representantes ao Brasil. Em julho de 2021, o diretor da CIA, William Burns, visitou Brasília para instar o governo brasileiro a não questionar a integridade das eleições de 2022. No ano seguinte, o secretário de Defesa, Lloyd Austin, visitou o Brasil e transmitiu uma mensagem semelhante às Forças Armadas brasileiras. Em 19 de julho de 2022, um dia depois de Bolsonaro se reunir com embaixadores estrangeiros no Brasil para enfatizar que considerava o processo eleitoral do país comprometido, o Departamento de Estado dos EUA emitiu uma declaração afirmando: “O Brasil tem um histórico sólido de eleições livres, justas e transparentes, e os Estados Unidos confiam que seu sistema eleitoral refletirá a vontade do povo nas eleições de outubro”. O porta-voz do Departamento de Estado acrescentou: “As eleições conduzidas pelo sistema eleitoral e pelas instituições democráticas competentes e comprovadas do Brasil servem de modelo para nações do hemisfério e do mundo”. A posição de Biden fazia parte de um movimento internacional mais amplo de governos progressistas e democráticos que enviaram sinais claros às Forças Armadas brasileiras de que, caso apoiassem as tentativas de Bolsonaro de reverter os resultados eleitorais, sofreriam isolamento internacional. Essas vozes legitimaram o processo eleitoral. Telefonemas de Biden, do presidente francês Emmanuel Macron e de outros líderes mundiais para o presidente eleito Lula da Silva, minutos após o anúncio de sua vitória, consolidaram ainda mais sua posição, enquanto Bolsonaro tentava mobilizar suas forças para questionar o resultado eleitoral. Embora Bolsonaro e seus principais apoiadores tenham ignorado os alertas de líderes internacionais, setores das Forças Armadas brasileiras não o fizeram. Sua decisão de não participar da tentativa de golpe de Estado dividiu as Forças Armadas e sabotou seu sucesso. A insurreição em Brasília, em 8 de janeiro de 2023, fracassou. O Supremo Tribunal Federal condenou Bolsonaro por liderar uma organização criminosa que tentou um golpe de Estado e o sentenciou a 27 anos de prisão, juntamente com militares e civis conspiradores, que receberam penas menores. Entre 1962 e 1964, no auge da Guerra Fria, os presidentes democratas John F. Kennedy e Lyndon Johnson agiram para minar a democracia e legitimar os esforços das Forças Armadas brasileiras para chegar ao poder. Em 2022 e 2023, outra administração democrata adotou uma postura completamente diferente, que ajudou a fortalecer a democracia no Brasil. O ex-presidente Joe Biden atuou de forma oposta aos democratas que apoiaram a ditadura no Brasil — e defendeu que as eleições brasileiras não deveriam ser contestadas ## **O Brasil na lista de Trump** A eleição de Jair Bolsonaro em 2018 provocou uma reação política intensa nos Estados Unidos entre imigrantes brasileiros e acadêmicos que pesquisam e lecionam sobre o Brasil. Em 1º de dezembro de 2018, 200 ativistas se reuniram na Faculdade de Direito da Universidade Columbia em Nova York para fundar a Rede nos Estados Unidos pela Democracia no Brasil. A assembleia também votou pela criação do Washington Brazil Office (WBO), que “apoia e realiza atividades de advocacia, conhecimento e cooperação para fortalecer a sociedade civil, proteger os direitos humanos, promover o desenvolvimento socioeconômico sustentável e defender a democracia e o Estado de Direito”. Ao longo dos quatro anos seguintes, centenas de ativistas em todos os Estados Unidos organizaram cerca de mil protestos, palestras, petições, declarações públicas e atividades de lobby no Congresso, denunciando as medidas autoritárias do governo Bolsonaro e defendendo a democracia brasileira, as ONGs progressistas e os movimentos sociais. Com a proximidade das eleições presidenciais brasileiras de 2022, o Washington Brazil Office concentrou-se em dialogar com membros do Congresso dos EUA, bem como com representantes do Departamento de Estado, da Casa Branca e de organizações internacionais sediadas em Washington, D.C. A ação mais importante do WBO foi a organização de uma delegação de representantes de vinte ONGs e movimentos sociais brasileiros que viajaram à capital dos EUA para alertar políticos e formuladores de políticas sobre as sérias ameaças à democracia no Brasil. Como resultado da visita e de outras articulações, o Senado dos EUA aprovou uma resolução afirmando que, caso as Forças Armadas brasileiras tentassem interferir nas eleições brasileiras, apresentaria uma legislação cortando toda a ajuda militar e econômica ao país. Sem dúvida, por muitos anos, observadores políticos e historiadores debaterão o peso relativo das diferentes manifestações no Brasil e no exterior para dividir com sucesso as Forças Armadas e minar a tentativa de golpe. No entanto, os perigos de 2022 e 2023 não foram evitados. Trump deixou claro que não tem escrúpulos em interferir em assuntos internos em toda a América Latina, desde seu apoio financeiro de 20 bilhões de dólares ao governo Millei na Argentina, às vésperas das eleições para o Congresso, até a intervenção de Trump na Venezuela. As manifestações de Eduardo Bolsonaro e outros nos Estados Unidos, que condicionaram as tarifas de Trump sobre o Brasil a uma anistia para Jair Bolsonaro, são um lembrete de que o atual presidente dos EUA pode ser facilmente influenciado pelos assessores de extrema direita que o cercam. A possibilidade iminente de o governo Trump declarar o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital como organizações terroristas e, em seguida, vinculá-los ao presidente Lula da Silva é mais uma forma pela qual o atual governo dos EUA tentará influenciar o resultado das eleições brasileiras. Sem um aliado na Casa Branca, neste ano eleitoral será ainda mais difícil do que há quatro anos aproveitar a solidariedade internacional em defesa da democracia brasileira. Trump gostaria de consolidar governos de extrema direita em toda a América. O Brasil é o próximo país em sua lista.

A Casa Branca, o Brasil e uma história de golpes: 1964 e 2022.
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> _Quer receber os textos desta coluna em primeira mão no seu e-mail? Assine a newsletter Xeque na Democracia, enviada toda segunda-feira, 12h. Para receber as próximas edições,__inscreva-se aqui._ “Apliquem pressão diplomática para que nossas instituições funcionem adequadamente”, disse Flávio Bolsonaro no último sábado (28/3) em Texas, dirigindo-se a uma plateia cheia de nomes da extrema direita ao estrear no CPAC, evento cujos organizadores, Mercedes e Matt Schlapp, são amigos e aliados de Eduardo Bolsonaro nos EUA. É Eduardo quem organiza os CPACs no Brasil. “Em vez da administração Biden interferir em nossas eleições para instalar um socialismo que odeia a América, aplicar pressão diplomática por eleições livres e justas baseadas em valores de origem americana”, completou. Chama a atenção a ausência da palavra “democracia” no discurso de Flávio Bolsonaro. Nem uma só vez a palavra foi mencionada. O pré-candidato não pediu que os EUA façam pressão por “eleições democráticas” no Brasil, mas que as nossas eleições sejam “baseadas em valores de origem americana”, ou seja, que sigam os interesses dos EUA. **Sai a democracia, entra a “liberdade” norte-americana, que agora declara abertamente poder intervir onde quiser, quando quiser.** Isso demonstra que Flávio e Eduardo estão absolutamente alinhados com a novilíngua trumpista – e que estão sendo assessorados por conselheiros experientes da extrema direita, que conhecem bem o público americano do CPAC e sua leniência com a erosão da democracia como valor e na prática realizada por Trump. Chegarei a isso mais adiante. **Um pedido a uma intervenção estrangeira deveria chocar a imprensa e a opinião pública brasileira.** Por mais entreguistas que fossem incontáveis candidatos no passado, nenhum se aventurou a pedir que os EUA “pressionem” nossas instituições tão claramente. Mas infelizmente, com exceção da newsletter Meio, a imprensa pegou leve demais na sua interpretação do pedido de Flávio. Preferiu se apegar às aspas de Flávio e deixou de dizer o óbvio: **o tal candidato Flávio “moderado” não existe.** A candidatura da família Bolsonaro tem como eixo principal anistiar os golpistas e alinhar nosso país ao que quiser o governo norte-americano de Trump. Ou, dito mais claramente: **a candidatura de Flávio nada mais é uma sequência ao plano de Steve Bannon de colocar Eduardo Bolsonaro na presidência do Brasil** , como já alertei aqui nesta coluna. E faz parte deste plano, primeiro, as pressões tarifárias conquistadas graças ao lobby de Eduardo nos EUA, depois os processos e a lei Magnitsky contra Alexandre de Moraes, e agora recentemente, o envio do assessor do Departamento de Estado para assuntos do Brasil, Darren Beattie, para visitar Jair Bolsonaro na prisão e tentar criar um fato político que o colocasse como “vítima de perseguição” da ditadura brasileira. A visita foi primeiro permitida e depois suspensa por Alexandre de Moraes, e depois o visto foi retirado pelo Itamaraty. Muitos capítulos dessa nova conspiração internacional para vender o Brasil aos EUA ainda vão acontecer, sob a batuta de duas figuras fundamentais: **Steven Miller** , assessor de Trump que vivia por aqui durante o governo de Jair, e **Steve Bannon** , quem afirmou em evento na posse de Donald Trump que Eduardo Bolsonaro seria o futuro presidente do Brasil. Novos capítulos podem incluir desde a volta de tarifas, retaliações ou outras pressões feitas pelo Departamento de Estado, Comércio, Tesouro ou Justiça dos Estados Unidos, até outras ações pensadas desde os EUA para criar fatos políticos que vitimizem Jair Bolsonaro e reforcem a ideia que o Brasil vive uma ditadura. Está ainda no cardápio intervencionista a decretação de organizações criminosas brasileiras como “terroristas”, permitindo ação militar norte-americana no nosso litoral. **Tudo isso pode acontecer no meio da disputa eleitoral**. Para entender como a candidatura de Flávio está sendo forjada desde a extrema direita dos EUA, vale analisar com mais cuidado o discurso de Flávio no CPAC. É normal que presidenciáveis ajustem o discurso de acordo com a sua plateia. Mas o que Flávio disse à direita americana vai ficar marcado como o discurso mais entreguista da história do Brasil. Em resumo, **Flávio prometeu terras raras para apoiar a indústria de defesa e o desenvolvimento de IA nos Estados Unidos** , além de tachar de cara as organizações de narcotráfico de “terroristas”, pedindo “ajuda para combater cartéis de drogas transnacionais”. Mas, antes disso, Flávio se esforçou em **convencer a plateia que o Brasil importa para os interesses estratégicos dos EUA** – citando nosso tamanho, nossa população e o fato que temos “as maiores reservas de água doce do mundo, terras agrícolas vastas que alimentam o mundo e recursos energéticos que poderiam abastecer continentes”. “Mas aqui está o que realmente deveria chamar sua atenção. O Brasil está se tornando — vai ser — o campo de batalha onde o futuro do hemisfério será disputado, porque **o Brasil é a solução dos Estados Unidos para romper a dependência da China** em relação a minerais críticos, especialmente terras raras”, disse Flávio, apelando em seguida para o sentimento militarista: “Essas terras raras são essenciais para os processadores de computador e para a revolução da IA que está transformando nosso mundo, além dos equipamentos de defesa americanos. Sem esses componentes, a inovação tecnológica americana se torna impossível e a produção dos sistemas militares avançados que mantêm a superioridade americana cai nas mãos de adversários”. O pré-candidato disse com orgulho que Bolsonaro era conhecido como “Trump dos trópicos”, comparou a facada à tentativa de assassinato de Trump e afirmou que sua condenação pelo atentado ao Estado Democrático de Direito era “similar à que foi feita contra Donald Trump por insurreição”. Se tentava se demonstrar moderado, naquele discurso Flávio demonstrou **aplaudir todos os temas caros à extrema direita americana abraçados pelo pai.** Disse que Jair está preso “por defender nossos valores conservadores sem medo e por se opor ao sistema”, por lutar “contra a tirania da Covid”, contra cartéis de drogas, “contra os interesses da elite global, contra a agenda ambiental radical, contra a agenda woke que destrói famílias e, acima de tudo, ele lutou pela liberdade.” Em contraste, se eleito, Flávio diz que “nós teremos, mais uma vez, um presidente que luta contra os interesses da elite global, contra a agenda ambiental radical, contra a agenda woke que destrói famílias, contra os cartéis de drogas e, acima de tudo, luta pela liberdade e pelos valores tradicionais. Um presidente que proclama sem medo que Jesus Cristo é o nosso Senhor.” Assim, disse, “estaremos celebrando o nascimento da aliança conservadora mais forte da história do Hemisfério Ocidental.” Veja aí de novo a palavra “liberdade” entrando no lugar da palavra “democracia”. Há duas narrativas importantes de se depreender do discurso, que estão sendo forjadas a partir da direita norte-americana e que com certeza serão como motes de campanha pelas redes de desinformação. 1. Joe Biden teria “interferido” na eleição de 2022 através de financiamentos da Usaid (nunca houve comprovação de que esses financiamentos tiveram qualquer influência no resultado eleitoral). 2. Lula “defende” narco-terroristas do PCC e CV, e o governo atual teria “impedido” sua designação como terroristas. Eis o que disse Flávio: “De acordo com um artigo publicado ontem pelo New York Times, o presidente do meu país faz lobby nos Estados Unidos para proteger organizações terroristas que oprimem meu povo, lavam dinheiro e exportam drogas e armas para os Estados Unidos e para o mundo”. Mas o que Flávio quis com este discurso? Primeiro, entendo que o discurso, que apela fortemente a um nacionalismo da ultra-direita americana e até seus delírios conspiratórios, é possivelmente produto de consultores americanos, que entendem perfeitamente o público do CPAC. Bem escrito, sucinto, feito para se encaixar perfeitamente nos 15 minutos dedicados, ele foi decorado e treinado por Flávio Bolsonaro, que não é fluente em inglês, como demonstra este vídeo publicado pelo Congresso em Foco, no qual Eduardo traduz uma pergunta feita em inglês a Flávio. Ou seja: **houve treinamento e preparação, e foram feitos por profissionais.** Segundo, por mais que Flávio tenha dirigido o apelo a autoridades americanas, pedindo para fazerem “pressão diplomática”, a ladainha, que recorre ao conspiracionismo MAGA e leva em conta a completa falta de conhecimento deste público sobre o Brasil, foi bem elaborada para mobilizar os atendentes do CPAC. Se não fosse algo proibido pela Legislação Eleitoral, eu **poderia até comparar o discurso com um “pitch” de investimento, em busca de atrair financiamento para um projeto de longo prazo** – afinal, políticos, empresários, e financiadores de campanhas republicanas estavam na plateia. Estamos ainda em março de 2026, mas esta já é a terceira viagem de Flávio aos EUA. O senador passou o réveillon em um evento organizado pelo pastor André Valadão em Orlando. Em janeiro, seguiu para o Texas e para Washington, onde tentou sem sucesso um encontro com o senador americano Marco Rubio, aliado de Donald Trump, além de ter se reunido com aliados de Eduardo, cujos nomes não foram revelados. No dia 20 de janeiro de 2026, Flávio esteve em Israel em uma viagem com roteiro de acenos políticos e religiosos montado por Eduardo, buscando reforçar os laços com a direita internacional e adicionar um verniz religioso à sua pré-candidatura. Um dos episódios simbólicos dessa agenda foi uma videochamada feita do alto de uma colina próxima ao Mar da Galileia com parlamentares aliados, posteriormente publicada nas redes sociais. Já no dia 19 de fevereiro, o senador embarcou novamente para os Estados Unidos para cumprir compromissos com integrantes da equipe de Donald Trump, embora os nomes das autoridades com quem pretende se encontrar não tenham sido divulgados. Na sequência, Flávio seguiu para Nashville, no Tennessee, acompanhado de Eduardo Bolsonaro e do influenciador Paulo Figueiredo, onde participou de um evento promovido pela _think tank_ conservadora PragerU e concedeu uma entrevista à CEO da organização, Marissa Streit. Tudo isso indica uma coisa claramente: **a campanha bolsonarista tem um forte QG nos EUA**. O plano eleitoral de Flávio é apenas a continuação da campanha coordenada por Eduardo desde que se mudou para o país em março do ano passado.

O “moderado” Flávio Bolsonaro pediu intervenção dos EUA nas eleições.
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A noite de 13 de março de 1964 caía sobre o Rio de Janeiro quando o presidente João Goulart (Jango), diante de uma multidão na Central do Brasil, anunciou medidas que alterariam o curso da história nacional. A fala de Jango sobre a limitação das remessas de lucro estrangeiro e a promessa de reforma agrária ecoaram não apenas nas ruas, mas também nos gabinetes de Brasília, nas sedes de corporações multinacionais e nos corredores de Washington, nos EUA. Em Belo Horizonte, dias antes, o deputado federal Leonel Brizola, cunhado do presidente, havia sido impedido de discursar por um grupo de senhoras que empunhavam terços como escudos contra o que consideravam uma ameaça vermelha. “Rosários de fé não podem ser levantados contra o povo”, advertiu Goulart na Central do Brasil. A resposta a essa advertência viria menos de uma semana depois, não em orações silenciosas, mas no ruído de meio milhão de pessoas marchando sobre o asfalto de São Paulo, na tarde de 19 de março, dia de São José, padroeiro da família. João Goulart durante comício na Central do Brasil, no Rio de Janeiro, em 13 de março de 1964 A Marcha da Família com Deus pela Liberdade começou na Praça da República às 16 horas e seguiu rumo à Praça da Sé. Faixas empunhadas pelos manifestantes traziam dizeres que misturavam devoção religiosa e anticomunismo visceral: “Nossa Senhora Aparecida, iluminai os reacionários”, “Vermelho bom, só o batom”, “Verde, amarelo, sem foice nem martelo”. Mas o que parecia ser uma manifestação espontânea de fiéis preocupados era, na verdade, o resultado de uma engrenagem muito mais complexa, como explica a doutora em história Janaína Cordeiro, da Universidade Federal Fluminense (UFF), que pesquisa a atuação de grupos femininos conservadores no período do Estado de exceção. Segundo Janaína, o movimento não surgiu do nada, mas sim de um contexto de intensa polarização política. “A primeira marcha acontece em São Paulo e é concebida como uma marcha de desagravo ao Rosário, que teria sido ofendido pelo Jango ali no Comício da Central do Brasil no dia 13 de março”, explica. Ela detalha que essas mulheres, majoritariamente donas de casa e professoras primárias de classe média, organizaram-se rapidamente: “Essas mulheres são fundamentalmente donas de casa. Quando elas exercem profissões, elas são, em geral, ligadas ao cuidado, consideradas até na época femininas”. Mulheres durante a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, em 1964, exibem uma faixa contra o regime cubano A organização do evento durou apenas cinco dias e contou ainda com a articulação de figuras como o deputado federal Antônio Sílvio da Cunha Bueno, do PSD, e o vice-governador de São Paulo, Laudo Natel. O nome da marcha foi sugerido pela freira Ana de Lurdes, que a via como “um ato de fé, numa hora de trevas”. Nos bastidores, o governador de São Paulo, Ademar de Barros, recolhia fundos junto ao empresariado na sede da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) para equipar a Força Pública e garantir a ordem do evento. Com base em documentos e no depoimento do ex-agente da Agência Central de Inteligência Americana (CIA), Philip Agee, a historiografia indica que a agência fornecia dinheiro ao Ibad (Instituto Brasileiro de Ação Democrática). Também teriam recebido contribuições da CIA e do empresariado para organizar a marcha, o Ipes (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais), a Camde (Campanha da Mulher pela Democracia), a FAUR (Fraterna Amizade Urbana e Rural) e a SRB (Sociedade Rural Brasileira). Um documento sobre as “marchas da família”, organizado por Rodrigues Matias, obtido pela revista _Caros Amigos_ em 2002, registra que “João Batista Leopoldo de Figueiredo, presidente do Ipes, foi uma das peças angulares da articulação do movimento”. João Batista Leopoldo de Figueiredo, do Ipes, que teria recebido apoio da CIA ## **“Padre da CIA”: religião como arma de Guerra Fria** A trajetória de um padre irlandês que acreditava ter sido salvo por um milagre também ajuda a explicar como a fé religiosa se transformou em instrumento de política externa americana. Patrick Peyton, membro da Congregação de Santa Cruz, havia contraído tuberculose durante sua formação sacerdotal nos Estados Unidos. Quando se recuperou, atribuiu sua salvação à intercessão de Nossa Senhora e do Rosário. A partir desse momento, Peyton dedicou sua vida a criar um movimento transnacional de devoção que se tornaria um dos instrumentos mais sofisticados de influência americana na América Latina durante a Guerra Fria. Peyton produzia filmes e programas de rádio que promoviam a devoção ao Rosário. Em 1962, quando chegou ao Brasil, sua Cruzada do Rosário em Família se transformaria em um vetor de mobilização política de proporções inesperadas, também impulsionando a Marcha da Família com Deus pela Liberdade. O padre Patrick Peyton (à direita) com o governador de São Paulo Adhemar de Barros A doutora em história pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Isabella Villarinho Pereyra, descreve o papel dessa organização religiosa como fundamental para compreender o golpe de 1964. “As marchas eram meio que uma catarse coletiva daquele grupo de mulheres, que tinham uma agenda muito específica: salvar o Brasil do comunismo”, explica Pereyra. “E, naquele contexto, existia toda uma dinâmica de palavras que travavam uma batalha contra o comunismo, não apenas no âmbito físico dos militares, mas também na esfera espiritual”. O Rosário não era simplesmente um símbolo religioso. Era, na narrativa construída pela Cruzada, a única arma capaz de salvar o Brasil do comunismo. “As mulheres que marchavam acreditavam estar apelando a todos os tipos de ajuda possíveis, mobilizando não apenas a fé, mas também a mídia, as paróquias, as missas e a estrutura da Igreja Católica”, relata Pereyra. A conexão entre a Cruzada do Rosário em Família e a CIA não foi acidental. Ela havia sido construída por Peter Grace, um grande empresário do ramo de exportações, amigo pessoal de Alan Dulles, então diretor da CIA. “O Peter Grace era um grande empresário do setor de exportações. E ele era muito católico”, descreve Pereyra. Grace havia conhecido o padre Peyton em uma viagem a navio para a Europa, onde ambos participavam de uma feira de inovações tecnológicas. Impressionado pelos filmes e programas de rádio de Peyton, Grace se tornou seu principal financiador e, mais importante, seu intermediário junto à inteligência americana. Grace foi quem propôs levar o movimento das Cruzadas para a América Latina. A ideia encontrou apoio tanto na CIA quanto no Vaticano, que tinha suas próprias preocupações com a região. A Igreja Católica enfrentava dois problemas na América Latina: um número reduzido de padres e clérigos e a crescente influência de movimentos de esquerda. A combinação de interesses religiosos institucionais com os objetivos geopolíticos dos EUA criou uma aliança. O financiamento viria de Washington, mas a face pública seria religiosa. Quando a Cruzada do Rosário em Família se estabeleceu no Brasil, não foram homens de terno e gravata que fizeram a articulação inicial. Foram mulheres ligadas a grupos leigos católicos que criaram escritórios em Recife, no Rio de Janeiro, em Salvador, no Paraná e em Belo Horizonte. O clero católico, por meio de arcebispos e bispos, estabeleceu o primeiro contato com os fiéis, que se tornaram o braço direito da Cruzada. Essas mulheres, em sua maioria donas de casa e professoras primárias de classe média, ligadas à Igreja Católica, começaram a organizar-se em grupos que se multiplicaram rapidamente. Em São Paulo, a União Cívica Feminina (UCF) havia iniciado suas atividades em 1961, fundando núcleos no interior do estado, em Santos e outras cidades. No Rio de Janeiro, seis meses depois, foi fundada a Camde, que rapidamente expandiu seus núcleos para outros bairros e cidades da região. Mas havia um detalhe crucial: muitos dos maridos, irmãos e homens da família dessas mulheres eram militares, empresários ligados ao Ipes e ao Ibad, ou executivos de corporações multinacionais. Janaína Cordeiro ressalta que, embora as mulheres tivessem um papel de liderança muito forte e importante naquela conjuntura, essas outras organizações envolvidas também foram centrais. “Tinham o que eles chamavam, na época, de classes produtoras; tinham setores do empresariado; tinham alguns sindicatos organizados que também chamavam para a marcha; tinham outras igrejas para além da Igreja Católica.” * Cruzada do Rosário em Família no Rio de Janeiro * Cruzada do Rosário em Família no Rio de Janeiro * Poster do Jornal do Dia sobre a Cruzada em Porto Alegre ## ​**A orquestração invisível** Segundo a pesquisa de Pereyra, a CIA determinava para onde as marchas do Rosário tinham de ir. “Sempre que eles chegavam no movimento, eram marcados jantares com empresários e a mídia local. Então, eles recebiam muitos empresários e associações comerciais e industriais e enviavam muitas cartas a essas pessoas”, detalha Pereyra. O financiamento não vinha apenas da CIA. Grandes corporações americanas, bem como empresários brasileiros ligados ao capital nacional, injetaram recursos para sustentar o movimento uma vez estabelecido nos estados brasileiros. A Aliança para o Progresso, programa de cooperação econômica americano, servia como um canal adicional de recursos. Havia uma narrativa que permeava todas as cruzadas, uma frase que aparecia em documentos da época: “A verdadeira revolução foi sua mãe que fez”. Essa construção narrativa permitia que as mulheres exercessem poder político sem que isso fosse reconhecido como tal. Permitia que a CIA operasse por meio de estruturas religiosas e familiares, evitando a aparência de intervenção externa. Segundo Janaína Cordeiro, a narrativa funcionou: “a mobilização legitimava o golpe, que era apresentado como resposta ao clamor das ruas”. Um dos documentos mais reveladores da pesquisa de Pereyra indica que Peter Grace menciona a necessidade de uma entrevista entre o Padre Peyton e a CIA, na qual se evidencia que a conexão entre a religião, o empresariado e a inteligência americana não era informal ou acidental. Carta de 1961 revela elo entre a Cruzada do Rosário, Peter Grace e o diretor da CIA, Allen Dulles ## **O legado de uma marcha funesta** Para compreender como as Cruzadas do Rosário em Família e, posteriormente, a própria Marcha da Família com Deus pela Liberdade encontraram terreno fértil no Brasil, é preciso considerar o contexto de polarização política que marcou o início dos anos 1960. O governo de Jango enfrentava uma poderosa coalizão de forças conservadoras e ultrarreacionárias. As reformas de base propostas por Goulart desagradavam profundamente os setores conservadores. A limitação às remessas de lucro estrangeiro afetava as multinacionais. A reforma agrária aterrorizava os fazendeiros. A mobilização dos sindicatos e dos trabalhadores, coordenada pelo Comando Geral dos Trabalhadores (CGT), assustava a burguesia. Nesse contexto de radicalização política, as Cruzadas do Rosário em Família ofereciam uma linguagem que permitia aos setores retrógrados expressar suas preocupações em termos religiosos e familiares, em vez de puramente econômicos ou políticos. Manchete do Jornal do Brasil sobre marcha em São Paulo O historiador Boris Fausto, em entrevista para a **Agência Pública** em 2019, ressalta que a marcha demonstrou que o golpe possuía um lastro social significativo no meio urbano, especialmente nas classes média e alta, mas adverte que “daí a falar em ‘movimento representativo do conjunto da sociedade’ vai uma enorme distância”. A grande imprensa, com raras exceções, como o jornal _Última Hora_ , de Samuel Wainer, desempenhou um papel crucial na construção do clima de pânico, mobilizando à exaustão o tema do perigo vermelho. _O Estado de S. Paulo_ , por exemplo, publicou em suas páginas o manifesto de convocação da marcha, alinhando-se abertamente aos conspiradores. “A ameaça imediata de implantação de um regime comunista não havia”, afirma Fausto. O que existia era uma radicalização política e uma disputa pelos rumos do desenvolvimento nacional. O golpe de 1964, longe de ser uma mera “quartelada”, foi uma articulação civil-militar-empresarial que surpreendeu as forças democráticas e se instalou com absoluta força. A ditadura que se seguiu evidenciou a verdadeira natureza do movimento. Quando a Marcha da Família terminou no começo da noite de 19 de março e a Catedral da Sé realizava a última missa do dia, o destino do governo Jango estava selado. Doze dias depois, o golpe seria consumado. A marcha havia fornecido a chancela civil que os militares precisavam para agir. A primeira marcha em São Paulo serviu de rastilho de pólvora. No Rio de Janeiro, uma marcha foi planejada para 2 de abril, mas o golpe foi antecipado para 31 de março e efetivado em 1° de abril, transformando a manifestação em uma “Marcha da Vitória”. A que ocorreu no Rio reuniu cerca de 800 mil pessoas, segundo estimativas mais prudentes, enquanto São Paulo contabilizava 500 mil. Janaína Cordeiro pontua a dimensão dessa mobilização: “A marcha do Rio foi a maior que teve. A partir daí, essas marchas passaram a ser de comemoração”. Ela acrescenta que o fenômeno se espalhou pelo país: “ao que parece, o Brasil marchou até setembro”. O ar daquele março de 1964 estava carregado de eletricidade, recordaria o historiador Jacob Gorender em entrevista sobre a véspera do golpe militar. A Operação Brother Sam, articulada por Washington, posicionou a Marinha e a Força Aérea americanas prontas para intervir no Brasil caso o golpe enfrentasse resistência armada ou resultasse em guerra civil. A intervenção direta não foi necessária, mas a presença da frota ao largo da costa brasileira serviu como garantia de que o projeto de deposição de Goulart não falharia. A derrubada do governo legítimo era uma prioridade na lógica da Guerra Fria, em que a retórica do “perigo vermelho” justificava a supressão das liberdades democráticas. Mas o entusiasmo de muitos participantes logo se transformaria em desilusão. Parcelas da sociedade que apoiaram a queda de Jango, acreditando em uma intervenção breve para “restaurar a ordem”, viram-se presas a um regime autoritário que duraria 21 anos. Em 1968, muitos dos que haviam marchado com terços nas mãos estariam nas ruas protestando contra a violência de Estado. A ditadura que se seguiu suprimiu as liberdades, fez uma limpeza no parlamento, perseguiu e torturou opositores, até matá-los, como retrataram os filmes “Eu ainda estou aqui” (2024) e “O Agente Secreto” (2025).

CIA: como agência americana impulsionou Marcha da Família com Deus pela Liberdade.
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#Portugus #Ditaduramilitar #EstadosUnidos #Poltica #Religio

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A semana em Brasília inicia com a Câmara dos Deputados esvaziada por decisão do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB). Após um pedido formal dos líderes partidários, Motta suspendeu todas as votações e audiências públicas programadas. A motivação é o fim do período de janela partidária no dia 3 de abril, quando os deputados podem mudar de partido para concorrer às eleições, sem perder mandato. Contando com a ausência da maioria dos parlamentares em Brasília, as atividades presenciais e virtuais foram suspensas. Após o Supremo Tribunal Federal (STF) derrubar a decisão que prorrogava a CPMI do INSS por 8 votos, a PEC 5/2026 é analisada na Mesa Diretora do Senado. Protocolada pelo senador Sergio Moro (PL-PR), a proposta de emenda obriga o comparecimento de investigados ou testemunhas em oitivas nas Comissões Parlamentares de Inquérito, assegurando o direito ao silêncio. As ausências de testemunhas e investigados foram alvos de críticas na CPMI do INSS. Também, no Senado, nesta terça-feira, 31 de março, o Diploma Mulher-Cidadã Bertha Lutz será entregue à atriz Laura Cardoso. Conhecida por suas atuações em novelas como “Caminho da Índia” e “Mulheres de Areia”, Laura Cardoso será uma das 15 pessoas homenageadas por destaque na defesa dos direitos das mulheres e das questões de gênero no Brasil. No STF, o período de sessões virtuais no Plenário e nas Turmas da Corte começou na sexta-feira, 27 de março, e se estende até o dia 8 de abril. Os ministros devem julgar as Ações Diretas de Inconstitucionalidade (ADI) 7426 e 7462. Será analisada a resolução do Conselho Federal de Psicologia que veda o uso de crenças religiosas no exercício da psicologia e na forma de publicidade e propaganda da profissão. No último sábado, 28 de março, o ministro Cristiano Zanin suspendeu as eleições indiretas para governador do Rio de Janeiro, em decisão liminar. Ele também pediu destaque no julgamento sobre as regras da eleição-tampão que definirá o novo governador fluminense até o fim de 2026, após a renúncia de Cláudio Castro (PL). Por isso, a votação que ocorria no plenário virtual passará para o plenário presencial. A data desse julgamento ainda será definida pelo presidente da Corte, Edson Fachin. Simultaneamente, após a aprovação da Federação Nacional dos Policiais Federais (Fenapef) na última quarta-feira (26), a Polícia Federal deve entrar em estado de greve nesta semana. Policiais federais pedem reajuste nos salários e mais valorização da profissão. A paralisação pode impactar as operações e investigações feitas pela PF já nos próximos dias. **Estão na agenda da semana de 30/2 a 3 de abril:** ## **DIREITOS HUMANOS** * **Senado** * **Tratamento de câncer (CASCANCER, 31/3, 14h):** Audiência Pública com transmissão pela internet debate sobre aprovações e registros de vacinas, medicamentos e terapias contra o câncer. * **Direitos para pessoas com Síndrome de Down (CDH, 30/3, 14h):** Comissão dos Direitos Humanos discute os direitos à educação, ao trabalho digno, ao acesso à saúde e a proteção contra preconceitos de pessoas com Síndrome de Down. ## **ECONOMIA** * **Senado** * **Benefícios aos adimplentes (CAE, 31/3, 10h):** Comissão discute o PL 1558/2022, que concede descontos e benefícios em dinheiro a pessoas adimplentes incluídas no Cadastro Positivo que usam recursos públicos e já pagaram 75% de suas dívidas. * **Fundos de financiamento de pesquisas (CAE, 31/3, 10h)** : Comissão debate a mudança da Constituição para instituir Fundo Constitucional Financeiro no Norte, Nordeste e um no Centro-Oeste, e permitir o financiamento de atividades de pesquisa, desenvolvimento e inovação de produtos com recursos desses Fundos. > _Agenda da semana da_** _Agência Pública_** _é um serviço apresentado aos leitores com base nas informações dos portais da Câmara, Senado e STF._

Janela partidária faz Hugo Motta segurar votações e Senado avalia obrigar presença às CPIs.
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Quem nunca quis perder 5 kg que atire a primeira picada de caneta emagrecedora. Mais da metade dos brasileiros convive com excesso de peso. Um em cada cinco enfrenta a obesidade. Uma epidemia, que, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), apesar dos avanços da ciência, só deve aumentar até 2030. Após um ataque cardíaco, o jornalista Ed Wanderley teve que mudar os hábitos e eliminou 58 kg em um ano. Nesse período, tentou compreender as realidades que o deixaram doente ao longo de décadas, dos ultraprocessados ao açúcar; bem como quem lucra com o combate à enfermidade, da cirurgia bariátrica às canetas emagrecedoras. Nessa produção original da **Agência Pública** , uma investigação testemunhal une jornalismo, experiência, confissões e psicologia, numa indigesta jornada que só foi possível por vida e morte andarem lado a lado. > **Ficha técnica > ** Realização: **Agência Pública,** com apoio do **Instituto Ibirapitanga** e **Instituto Serrapilheira > ** Reportagem:**Ed Wanderley** (Colaboração: **Claudia Jardim**) > Roteiros: **Ed Wanderley** (Colaboração: **Claudia Jardim** e **Stela Diogo**) > Coordenação geral e direção de locução: **Sofia Amaral** > Desenho de som, edição e finalização: **Ricardo Terto** > Trilha sonora original: **Ana Sucha > ** Identidade visual: **Matheus Pigozzi** > Produção e pesquisa de materiais de arquivo: **Stela Diogo e Rafaela de Oliveira > ** Captação de som em campo: **Davysson Barbosa, Ethieny Karen, Gil Neves, Stela Diogo, Tathiane Santos e Vinícius Machado** > Captação de som em estúdio: **Ricardo Terto** > Trilhas adicionais: **Epidemic Sound** > Redes Sociais e publicação: **Lorena Morgana, Ethieny Karen, Thayná Dias, Raphaela Ribeiro, Guilherme Silva**

A Última Bolacha.
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Així ha estat el ple de març del 2026 a l’Ajuntament de Barcelona El Plenari Municipal del mes de març ha debatut i aprovat el canvi urbanístic perquè Barcelona pugui tenir la regulació pròpia dels lloguers de temporada.

El Ple desencallarà la regulació municipal dels lloguers de temporada
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Concentració a Barcelona per protestar contra les polítiques del govern Trump La protesta està organitzada per l'associació Democrats Abroad, que integra els estatunidencs del partit demòcrata que viuen a la ciutat.

Concentració a la plaça de Sant Jaume per protestar contra les polítiques del govern Trump
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Gervásio Maia, ao filiar-se ao PCdoB: “um novo ciclo político” pelo Brasil e o Nordeste.
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Cuba: o país da solidariedade está sozinho? Ameaça de Trump paralisa ajuda dos países amigos e potências rivais dos EUA não se dispõem a defender a ilha

Cuba: o país da solidariedade está sozinho?.
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